Há algumas horas era domingo quando ela sentou ao meu lado e disse “eu te absolvo”. Minha alma, comprimida, pálida e enrugada feito um grão-de-bico. Ela não tinha estado mais angustiada nos últimos anos e, particularmente naquelas horas, parecia se render à hipótese do universo inverso, uma antiga ideia de deslocamento material e espiritual. Quem diria, tanto tempo depois, aquele pedaço do universo tentando me comover. As razões da angústia me pareciam tão claras e objetivas, o que piorava minha situação.

A trilha desconhecida da boate não trazia nenhuma novidade. Poucos minutos antes de entrar, com Dudson e Felipe, tinha dito aos dois “antes a gente se identificava com o que havia de pior. E agora a gente não se identifica com mais nada”, de modo que a música e as roupas daquela festa não faziam a menor diferença e eram, de algum modo,  exatamente aquilo que a gente queria e que a gente precisava. Logo a gente, quem diria.

Fiquei para dentro de mim assim que passei pela porta principal, ignorando os olhares que me puxavam, atendendo tão somente àqueles mais desafiadores que, por algum tipo de orgulho, era preciso responder até as últimas consequências, provavelmente um apagar para nunca mais poucos segundos depois. Nossa, preciso de um cigarro.

Sentados, com a primeira tragada bem dada, ela, essa mulher até agora desconhecida, sentou ao meu lado e disse “eu te absolvo. Eu te absolvo deste lugar”. Voltei para casa e acordei outra pessoa.

 

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