Ou ‘Movimento pela moralização do movimento de moralização’

Enquanto milhares de paranaenses enfrentavam as intempéries do frio e do aperto para protestar contra a corrupção na política, outros encaravam a entrada na área reservada como um direito óbvio. “Como assim não posso entrar?”

O que se deu: o acesso de políticos atrás do palco era limitado, na clara perspectiva de não transformar uma mobilização popular em palanque pré-eleitoral. Dois seguranças e uma equipe de recepção faziam a triagem. Mesmo os jornalistas com crachá, câmeras e gravadores tinham de passar por uma extensa fila para identificação.

Deputados tinham acesso, mas foram poucos. Diferente dos vereadores. Professor Galdino foi bloqueado. Controverso, aceitou temporariamente o pedido negado. Minutos depois, chegaram outros dois: Professora Josete e Jonny Stika. Ao serem informados das normas do evento, não aceitaram. Foram prontamente acudidos por André Passos, que, ignorando a qualquer preço o que diziam as recepcionistas, meteu os companheiros para dentro.

Assim se deu também com a entrada de vários outros presidentes e diretores disso ou daquilo. Entidades pouco representativas no dia-a-dia da política e do noticiário, mas que guardam consigo o “glamour” (que palavra ridícula) das assessorias mais puxa-sacos.

Depois, do lado de dentro, não se sabe como, estava Galdino. Josete panfletava e distribuía adesivos. Ao ser questionada sobre a confusão na portaria, disse: “Eu que sou vereadora não posso entrar?”

Dois conhecidos se encontram no call center. Tinham virado telefonistas de call center, mas do tipo que ainda não tinha trabalhado em shopping. Um estuda psicologia e o outro sociais na Federal. Mesmo que só tenha socias lá, é bom reforçar. Parece crônica. O segundo atende.

-Tim Celular, Emanuel, bom dia, em que posso ajudar?

O cliente queria desconto para comprar aparelho e queria insistir muito, queria dizer que estava na Tim há muitos anos, que era um absurdo, era uma piada, uma pouca vergonha.

-Olha, meu senhor, meu pai – pausa para só falar, sem gritar – ele compra no mesmo supermercado há anos e nunca ganhou nem um sabonete. O senhor não é diferente dele.

Está para se formar em sociais. Emanuel M., 30 anos, universitário e comunista.

Agora Menim terá dois trabalhos. Pesquisador e comunista. Ora, na cidade dele, São José dos Pinhais, praticamente um terço das famílias com crianças até 14 anos vivem com menos de quinhentão por mês. É assim também na capital e na Região Metropolitana. Bem, é assim no estado inteiro. Ele bem que poderia coletar dados, saber o porquê de tanta pobreza, e daí, comunista, fazer um protesto na Federal, quem sabe.

Vai de estagiário. O nome do emprego é um estouro, “eu trabalho no Atitude”. Programa do governo do estado do Paraná. Esta última parte é um bloco de concreto para qualquer texto não oficial. De qualquer modo, os tios da grana botaram vinte milhões na mesa para ele e mais umas quatrocentas pessoas. Pesquisar, envolver as comunidades e aplicar ações de readequação. É um estouro mesmo.

Tá na cara que a maior parte dos projetos pra pobre é feita por ricos. É cesta básica pra lá, uma lata de leite em pó pra cá, roupa velha, brinquedos quebrados, deixe uma criança na ignorância adote uma cartinha para o Papai Noel. Poxa, eu tenho uma ótima de Papai Noel, mas vamos falar primeiro dos pobres. “Pobre já tá ferrado”, disse o Away, personagem da MTV. E não é que o Atitude não era assim.

O pessoal de sociais, assistentes sociais, psicólogos, professores de educação física e arte-educadores. Nada mal para uma equipe que podia ser feita pela mulher do prefeito e as senhoras do ponto cruz. Gente muito séria, muito honesta e, sobretudo, muito trabalhadora. A cidade de Menim mais nove no Paraná foram abençoadas com o milagre.

Nesses termos, havia também um texto sagrado, com provérbios diferentes dos de Salomão, é claro, porque eram mais objetivos. Os pobres estão em “condição de peculiar desenvolvimento”. “As políticas públicas infanto-juvenis (...) são fragmentadas, estão à mercê da competição interburocrática”. Que humildade, meu Deus.

Sala de reuniões, vários santos estão em volta da mesa. São Pedro diz:

-Já sei! Vamos organizar uma colônia de férias.

-O que a gente tem de material, Pedro? – retruca Menim.

-Ah, não tem nada.

-Como assim “não tem nada”?

-É, não tem nada.

-Nem suco com bolacha?

-Nem suco com bolacha.

Vinte milhões de reais.

E não é dinheiro na cueca, na meia, não é iate, nem viagem ao exterior. É o que, sob qualquer égide ou ameaça, contra qualquer imparcialidade, por direito, deve ser nomeado incompetência administrativa dos prefeitos. Salvar-se-á o governo Requião por imposição do jornalismo. Apresento a balança. A tia do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, também secretária de estado, promoveu a redação do texto e garantiu a verba.

Estava previsto desde o início que a mão na massa era um assunto dos municípios. O pagamento foi de uns dois milhões para cada um, dêem um jeito nos pobres.

Menim, que nunca teve um pai que ganhou um sabonete, não está nem aí. Mais reclama do vale transporte que chega depois que já emprestou dinheiro para ir trabalhar. O salário dele sempre é uma confusão, então nem sei se já recebeu, até agora não falou nada. “Eu só quero trabalhar, eu não estou pedindo mais nada, eu só quero trabalhar. Vamos chamar um monte de criança aqui pra fazer o quê? Não tem nem papel crepom pra gente decorar uma cartolina”, fica puto, coitado.

Os outros também, do mesmo jeito. Em todos os lugares o estouro falhou. Vamos investigar. O outro telefonista tinha desistido da psicologia, virou jornalista. Ligo para Camila, de Colombo.

-Oi, Camila, tudo bem? É o Vinícius do jornal Gazeta do Povo, você pode falar comigo um minutinho?

-Hm, ah. Pode falar.

-Olha, é o seguinte, a gente tá fazendo uma matéria sobre o programa Atitude. A gente achou a idéia muito legal. Daí é importante conversar com os municípios, saber em que pé está, de repente fazer umas fotos das oficinas, e tal. O que eu preciso saber primeiro é se vocês já incorporaram o dinheiro aí, parece que estava na Câmara.

-Hm – silêncio – eh, olha, eu não sei.

-Ah, tudo bem, não tem problema, imagina. Quem poderia me ajudar com isso?

-É comigo mesmo – silêncio – mas não estou autorizada a falar nada.

-Você é a responsável pelo projeto aí, né?

Desligou na minha cara, sem saber explicar por que o dinheiro levou quase seis meses para tramitar e ser aprovado na Câmara de Vereadores. O pessoal trabalhando desde março pro recurso chegar (na burocracia) em outubro. Uma companheira do Menim disse que “mesmo com as deficiências, os trabalhos são mantidos. É necessário trabalhar com o que se tem, todos nós acreditados no Atitude”.

Era uma vez 70 mil pobres que iam aprender a fazer sabonete (uma das escolas do Atitude) e comprar celular sem desconto.

No lugar, o texto. Uma lista bem específica de enfraquecimento de vínculos familiares e comunitários, evasão escolar, opções restritas de cultura, esporte e lazer, acesso às drogas e ao tráfico. É que, às vezes, não tem comunismo que chegue.

A menor aprendiz da mesa ao lado, bem cedo, via MSN, pergunta posso perguntar uma coisa? Diga lá, respondo, deve ser alguma dúvida com a nota de trânsito, ela tem muita dificuldade. Mandou você é emo? Acho que não. É só um jeitinho de bicha. Na tréplica disse errr, nada a ver, emoticon. Sei lá, talvez o cabelo, pensei, onde foi que aconteceu, aquela culpa.

Não tinha sido a primeira vez da relação. Fui com um amigo à faculdade dele, também, que ideia, e um piá disse a mesma coisa, meio emo. E o gênese, ninguém sabe, eu não sei. Vai ver é o consumir Y. Acentuado.
 
Isso só para desenhar duas histórias. Duas objetivas para uma subjetiva.

Veja, lido com uma autocrítica amarga. Não me dou privilégios de qualquer tipo quando se fala das relações sociais. Não abuso ninguém. Tenho bom comportamento na rua, ônibus, redação e aglomerações. Minha vida de repórter é feita basicamente de rua, ônibus, redação e aglomerações.

Visto-me moderadamente, mantenho os cabelos bem curtos, não uso faixas, unhas coloridas, sem piercing, brinco, maquiagem, nada. Então, emo é o cu, entende? Digo, o cu da menor aprendiz, o cu do piá da faculdade.

Não vou revidar sem considerações. Pergunto que culpa eu tenho dos emos usarem tantas coisas que eu gosto, especialmente os cintos e os tênis? Infelizmente um número muito grande de pessoas que tem o mesmo apreço por alguns itens decidiu ir pelo caminho errado. O que não significa que eu vivo chorando, ouço música ruim, ando de mão dada com um melhor amigo no shopping e danço bom odori.

E então, em uma festa de aniversário, a menina comentou que eu pareço autista.

Tom Need / GettyimagesEste foi o oitavo dia em que acordei antes do sol e oficializei o ofício. Sentimos todos, é claro, esta necessidade pungente de conjugar verbos no imperativo, dando-nos a falsa impressão de que o controle está no braço do sofá. Falo como pessoa do plural, mas sem licença. A quem interessar, possa ignorar a epifania.

Levante o mais cedo que puder, Vinícius, esta é a única recomendação que lhe faço.

Ignorar o mau tempo, quando chuvas de algas e cadáveres de animais marinhos nos afogam, parado no ponto do ônibus. Eu sei bem o que você pensa quando ele demora mais que o previsto.

De segunda para terça o alarme aqui de casa disparou de madrugada. Digitou-se a senha no teclado, nada. Uíuíuí bem alto às quatro da matina. Levantados todos menos uma visita que pernoitava. A família está unida na copa.

Lembrei dos vizinhos. Eles consideram esse tipo de acidente como de propósito. Gente caprichosa. Há anos, devolviam as bolas caídas no quintal deles furadas a mão.

Vamos ter de tomar uma atitude mais drástica, disse.

Tomei na gaveta da cozinha uma faca de serra, subi os quinze degraus que levam para o forro, arrastei caixas e abri uma porta com oitenta centímetros de altura, dei de cara com a caixa d’água.

O auto-falante estava entre uma viga de madeira e a telha. Degolei-o em duas ou três passadas agressivas. Odeio que me tirem dez minutos de sono.

Fim do uíuíuí. Até sexta-feira e depois no sábado, quando passei em frente a dois bancos com a sirene ligada.

Na última segunda-feira voltei ao rádio na CBN Curitiba. Sou repórter do jornal da manhã, apresentado por José Wille e comentado por Luiz Geraldo Mazza. Não contei antes porque estava inseguro.

Foram mais ou menos oito meses fora do ar, sentia que a voz tinha ficado fanha, que a dicção tropeçava, que as idéias tinham perdido o fluxo apropriado. Tudo foi confirmado.

Volto também aos exercícios fonoaudiológicos, prá-trá-crá, para fora, pré-tré-cré, bem aberto. Destravar a língua, aquecer o aparelho.

Não é como em um novo emprego. É bem mais como se eu tivesse tirado uma licença sem vencimento daqui. Os colegas são essencialmente os mesmos, o trabalho é essencialmente o mesmo, a redação é essencialmente a mesma. Eu é que não sou mais o estagiário.

Minha chegada se deu por conta da saída da jornalista Denise Morini, o que me carrega de responsabilidade. Essencialmente, não tenho mais a companhia dela, o que me carrega de decepção.

Não havia uma idéia central, resumia-se, exatamente, a um somatório perturbado de incoerências. Sentiu, de súbito, que era superior, que tinha uma inteligência melhor do que a os outros. Culpava-se e invejava cada parte estúpida, como uma sentença. O formato das sobrancelhas, a cor da pele, o diâmetro das panturrilhas.
 
Quando pensou ter tentado curar todos os corpos que haviam passado por ele, era tarde demais.
O fim de semana foi ruim. Não digo que foi péssimo porque podia ter sido bem pior. Começou num sábado pela manhã com o nosso carro derrapando e perdendo o controle numa curva em plena serra do mar e terminou em uma segunda-feira de trabalho perdida devido ao mau tempo e à necessidade da troca dos pneus do carro e dos pivôs da roda que estavam com folga.

No entanto, o domingo também teve seu ponto alto, ou baixo, se preferir. Nada comparado ao ser ver atravessando três pistas da estrada em um semi-círculo, parando no acostamento na direção contrária ao fluxo dos carros, milagrosamente, sem qualquer arranhão. Mas, nem por isso deixou de ser ruim também. O dia começou às 6:15 da manhã, pois a prova da COPEL era às 8:00 no Bairro Tarumã em Curitiba.

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Achei este caderno velho e quase sem uso arrumando o quarto. Ele e mais alguns. Todos foram distribuídos, ficaram próximos aos lugares nos quais a necessidade de anotar me avisa. Hoje sentei na cama e senti duas coisas que são uma só: amor e vontade de escrever uma carta de amor. Puxei o caderno de dentro da estantezinha e li a aula de semiótica das dezoito falácias – uma ode ao professor Cleverson, afinal foi uma das seis aulas anotadas em um caderno de dez matérias.
 
Meu quarto é o mais estranho da casa, modular. Vai pondo conforme vai encaixando. Herdei de meus avós paternos um guarda-roupas de quatro portas. As portas são cobertas com uma treliça de madeira bem não-combina-com-o-que-eu-costumo-achar-bonito. Ele está de frente para a janela. Do lado oposto, a cama. E entre a cama e o guarda-roupas uma estantezinha de duas prateleiras. Das segunda prateleira puxei o caderno que tinha deixado só para o caso de emergências.
 
Tinha de dado conta de que aqueles sentimentos aos quais atribuía a referência absoluta do sentido da vida, aquela treliça, haviam dominado o lado indominável de minha relação com o mundo. Mortal, preso-amante em carcaça de bicho.
 
Anatomicamente não estou pronto para o amor e nem estarei tão cedo, considerando as sucessões gênicas que nos obrigam a esta forma elementar de cabeça, tronco e membros. Evidentemente, esta não é a forma elementar de uma carta de amor.
 
Se me dessem todas as terras secas do planeta eu desejaria a única partícula afogada para deixar ao lado da cama, para o caso de emergências. Mas sinto que mudei, em outra coisa que não aquela de antes.
 
Tenho seis quilos a mais, rotinas produtivas e profetas do êxito por todos os lados e todos os momentos seriam vazios e pálidos se dois sentimentos que não um só não tivessem me ocorrido na hora de dormir.
Tenho por hábito abandonar meus cadernos, mesmo os blogs que tive. Comemorei há pouco sete anos de escrita, mas não foram considerados os meses inteiros que passei sem linha. Então a temática deste abre é recorrente. Uma desculpa pela não assiduidade. E, hoje, vou ficar só no abre mesmo.