Dois conhecidos se encontram no call center. Tinham virado telefonistas de call center, mas do tipo que ainda não tinha trabalhado em shopping. Um estuda psicologia e o outro sociais na Federal. Mesmo que só tenha socias lá, é bom reforçar. Parece crônica. O segundo atende.

-Tim Celular, Emanuel, bom dia, em que posso ajudar?

O cliente queria desconto para comprar aparelho e queria insistir muito, queria dizer que estava na Tim há muitos anos, que era um absurdo, era uma piada, uma pouca vergonha.

-Olha, meu senhor, meu pai – pausa para só falar, sem gritar – ele compra no mesmo supermercado há anos e nunca ganhou nem um sabonete. O senhor não é diferente dele.

Está para se formar em sociais. Emanuel M., 30 anos, universitário e comunista.

Agora Menim terá dois trabalhos. Pesquisador e comunista. Ora, na cidade dele, São José dos Pinhais, praticamente um terço das famílias com crianças até 14 anos vivem com menos de quinhentão por mês. É assim também na capital e na Região Metropolitana. Bem, é assim no estado inteiro. Ele bem que poderia coletar dados, saber o porquê de tanta pobreza, e daí, comunista, fazer um protesto na Federal, quem sabe.

Vai de estagiário. O nome do emprego é um estouro, “eu trabalho no Atitude”. Programa do governo do estado do Paraná. Esta última parte é um bloco de concreto para qualquer texto não oficial. De qualquer modo, os tios da grana botaram vinte milhões na mesa para ele e mais umas quatrocentas pessoas. Pesquisar, envolver as comunidades e aplicar ações de readequação. É um estouro mesmo.

Tá na cara que a maior parte dos projetos pra pobre é feita por ricos. É cesta básica pra lá, uma lata de leite em pó pra cá, roupa velha, brinquedos quebrados, deixe uma criança na ignorância adote uma cartinha para o Papai Noel. Poxa, eu tenho uma ótima de Papai Noel, mas vamos falar primeiro dos pobres. “Pobre já tá ferrado”, disse o Away, personagem da MTV. E não é que o Atitude não era assim.

O pessoal de sociais, assistentes sociais, psicólogos, professores de educação física e arte-educadores. Nada mal para uma equipe que podia ser feita pela mulher do prefeito e as senhoras do ponto cruz. Gente muito séria, muito honesta e, sobretudo, muito trabalhadora. A cidade de Menim mais nove no Paraná foram abençoadas com o milagre.

Nesses termos, havia também um texto sagrado, com provérbios diferentes dos de Salomão, é claro, porque eram mais objetivos. Os pobres estão em “condição de peculiar desenvolvimento”. “As políticas públicas infanto-juvenis (...) são fragmentadas, estão à mercê da competição interburocrática”. Que humildade, meu Deus.

Sala de reuniões, vários santos estão em volta da mesa. São Pedro diz:

-Já sei! Vamos organizar uma colônia de férias.

-O que a gente tem de material, Pedro? – retruca Menim.

-Ah, não tem nada.

-Como assim “não tem nada”?

-É, não tem nada.

-Nem suco com bolacha?

-Nem suco com bolacha.

Vinte milhões de reais.

E não é dinheiro na cueca, na meia, não é iate, nem viagem ao exterior. É o que, sob qualquer égide ou ameaça, contra qualquer imparcialidade, por direito, deve ser nomeado incompetência administrativa dos prefeitos. Salvar-se-á o governo Requião por imposição do jornalismo. Apresento a balança. A tia do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, também secretária de estado, promoveu a redação do texto e garantiu a verba.

Estava previsto desde o início que a mão na massa era um assunto dos municípios. O pagamento foi de uns dois milhões para cada um, dêem um jeito nos pobres.

Menim, que nunca teve um pai que ganhou um sabonete, não está nem aí. Mais reclama do vale transporte que chega depois que já emprestou dinheiro para ir trabalhar. O salário dele sempre é uma confusão, então nem sei se já recebeu, até agora não falou nada. “Eu só quero trabalhar, eu não estou pedindo mais nada, eu só quero trabalhar. Vamos chamar um monte de criança aqui pra fazer o quê? Não tem nem papel crepom pra gente decorar uma cartolina”, fica puto, coitado.

Os outros também, do mesmo jeito. Em todos os lugares o estouro falhou. Vamos investigar. O outro telefonista tinha desistido da psicologia, virou jornalista. Ligo para Camila, de Colombo.

-Oi, Camila, tudo bem? É o Vinícius do jornal Gazeta do Povo, você pode falar comigo um minutinho?

-Hm, ah. Pode falar.

-Olha, é o seguinte, a gente tá fazendo uma matéria sobre o programa Atitude. A gente achou a idéia muito legal. Daí é importante conversar com os municípios, saber em que pé está, de repente fazer umas fotos das oficinas, e tal. O que eu preciso saber primeiro é se vocês já incorporaram o dinheiro aí, parece que estava na Câmara.

-Hm – silêncio – eh, olha, eu não sei.

-Ah, tudo bem, não tem problema, imagina. Quem poderia me ajudar com isso?

-É comigo mesmo – silêncio – mas não estou autorizada a falar nada.

-Você é a responsável pelo projeto aí, né?

Desligou na minha cara, sem saber explicar por que o dinheiro levou quase seis meses para tramitar e ser aprovado na Câmara de Vereadores. O pessoal trabalhando desde março pro recurso chegar (na burocracia) em outubro. Uma companheira do Menim disse que “mesmo com as deficiências, os trabalhos são mantidos. É necessário trabalhar com o que se tem, todos nós acreditados no Atitude”.

Era uma vez 70 mil pobres que iam aprender a fazer sabonete (uma das escolas do Atitude) e comprar celular sem desconto.

No lugar, o texto. Uma lista bem específica de enfraquecimento de vínculos familiares e comunitários, evasão escolar, opções restritas de cultura, esporte e lazer, acesso às drogas e ao tráfico. É que, às vezes, não tem comunismo que chegue.

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