Achei este caderno velho e quase sem uso arrumando o quarto. Ele e mais alguns. Todos foram distribuídos, ficaram próximos aos lugares nos quais a necessidade de anotar me avisa. Hoje sentei na cama e senti duas coisas que são uma só: amor e vontade de escrever uma carta de amor. Puxei o caderno de dentro da estantezinha e li a aula de semiótica das dezoito falácias – uma ode ao professor Cleverson, afinal foi uma das seis aulas anotadas em um caderno de dez matérias.
 
Meu quarto é o mais estranho da casa, modular. Vai pondo conforme vai encaixando. Herdei de meus avós paternos um guarda-roupas de quatro portas. As portas são cobertas com uma treliça de madeira bem não-combina-com-o-que-eu-costumo-achar-bonito. Ele está de frente para a janela. Do lado oposto, a cama. E entre a cama e o guarda-roupas uma estantezinha de duas prateleiras. Das segunda prateleira puxei o caderno que tinha deixado só para o caso de emergências.
 
Tinha de dado conta de que aqueles sentimentos aos quais atribuía a referência absoluta do sentido da vida, aquela treliça, haviam dominado o lado indominável de minha relação com o mundo. Mortal, preso-amante em carcaça de bicho.
 
Anatomicamente não estou pronto para o amor e nem estarei tão cedo, considerando as sucessões gênicas que nos obrigam a esta forma elementar de cabeça, tronco e membros. Evidentemente, esta não é a forma elementar de uma carta de amor.
 
Se me dessem todas as terras secas do planeta eu desejaria a única partícula afogada para deixar ao lado da cama, para o caso de emergências. Mas sinto que mudei, em outra coisa que não aquela de antes.
 
Tenho seis quilos a mais, rotinas produtivas e profetas do êxito por todos os lados e todos os momentos seriam vazios e pálidos se dois sentimentos que não um só não tivessem me ocorrido na hora de dormir.

Comentários (2)

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Eu sabia que não tinha me equivocado quando disse pra alguém: "Ele é o máximo!!" smilies/wink.gif
Ana Paula , 06 outubro 2009
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ata , 22 setembro 2009

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