Tentei evitar ao máximo a publicação deste texto. Ele estava em um dos meus cadernos de anotações, de onde nunca deveria ter saído. O texto me parece pobre, as conexões não se conectam. Mesmo assim ele veio parar aqui, dando a impressão de que estou puto com o mundo - o que era verdade no dia em que escrevi, mas não agora. Mas tudo muda o tempo todo no mundo. O texto é mais ou menos sobre isso. 
 
A mesa era branca. Um aglomerado de cepilho, serragem, lixo industrial pintado de branco. Três partes de lixo parafusadas e pintadas de branco, mais dois estojos de lápis. Paralelepípedos plásticos e ocos de pôr lápis. É difícil falar dessas coisas.

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Dando as celebrações e os colóquios por completos, abateu-se a reflexão. Reflexão estática. Contemplação estática, a mesma estagnação da “Mensagem à poesia”, de Vinícius. Naquele estado, o melhor convite que havia de ser feito era o de morrer. Uma sugestão à rendição, depois de tantas sugestões. Morrer juntos, talvez, que fosse, que se foda-se. Mortinhos. Algo como eu e você gélidos sob a tampa do caixão da eternidade. “Poderosas forças da tragédia abatem-se sobre mim e me impelem para a treva”. Ficou assim: dois corpos resumidos ao corpo. Duas almas resumidas à fuga. Dois espíritos antes impávidos agora mortos pela iminência da morte.É assim que lhe trago para este lado que me plantei e que lhe colho. “Quem lhe colheu fui eu”, que é ”Ausência”, “eu deixarei que morra em mim o desejo”. Deste lado é que lhe consumo, que lhe como, que sumo, que coisa. Nada mais me importa.

A minha tristeza já sabe chorar sozinha.
Havia panelas e um pedaço de espírito de porco no fogo quando me sobreveio que minhas vísceras não correspondem ao resto do que me forma. O cheiro de gordura e açafrão impregnou em minha inspiração e a confundiu, mudando a fôrma, mudando o espírito regular de porco no fogo pela aflição da vala temporal.

Ao mundo os relógios batem horas regulares, ao passo que aos poetas infinitos cronômetros marcam estações completas em frações de segundo: mil voltas em uma volta de um a doze, milhões de voltas sem chegar ao fim.

A paisagem urbana, carros, motociclistas atrasados, flores desabrochando solitárias no Passeio Público, mães recém-nascidas chorando a viuvez dos lares, quinze minutos para as quinze horas de XV de Novembro, casa passo, cada espaço, cada laço de fita no cabelo, cada um em si mesmo, com horas regulares, e os poetas comendo cinco vidas no palito.

Aparecem-me de surpresa quinze caminhos distinto, cruzados em um ponto e seguindo eternamente em posições concorrentes. Fruto do bem, fruto do mal, duas árvores no Éden. Unidunitê, blablablá, mas como eu sou teimoso.
Os demônios do sábado viriam irrefragavelmente para fazer lembrar a calamidade dos anos passados, quando tempestades de areia, dragões e bestas passaram pela cidade deixando um rastro inconfundível de desastre. Desde o Grande Tormento, em meados de noventa, todo sétimo dia da semana virou um calo na bunda da alma, de modo que, aos sábados, Xavier crescia eternamente para dentro de si e se deixava envergonhar por sua fraqueza extrema, para o deleite de seus adversários: demônios fajutos, aos quais destinou respeito mais por misericórdia de si mesmo do que por medo.

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Os cadáveres de duas aranhas-marrons estão expostos à luz artificial em meu quarto de fim de semana. Retorcidas, humilhadas, desfeitas em carcaça de bicho, as aranhas. Eram perigosas, letais, assustavam as crianças, matavam eventualmente um já moribundo, que Deus o tenha. Que Deus as tenha, as aranhas e suas teias. Repousem em paz no que lhes restou do mundo, de sua passagem, de suas articulações meticulosas, de seus pedipalpos. Era uma vez duas aranhas que morreram num quarto de inverno, mas o anúncio de suas falências definitivas só veio depois da morte do Nunes.

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