Aos mestres com carinho

Cães e gatos, gatos e ratos, ratos e aranhas, aranhas e moscas. Numa sucessão quase infinita teríamos, disposta em algum lugar, a seguinte informação: professores e alunos.

Uma seita (chamada AlefBetDalet – do hebraico ABD (é ABD mesmo) – que quer dizer ‘fizemos uma caca muito grande) inventou a primeira professora em uma experiência que fundia um óculos, um pitbull, alguns livros e um sindicalista. Desde então a o mundo nunca mais foi o mesmo.

Não é verdade que eles se gostam. Eles, no máximo, suportam-se mutuamente com o objetivo de não incomodar diretora da escola. Nas rixas que têm por razão os mais diversos motivos, caíam em desvantagem por culpa das mães, no passado, uma vez que agora (atribuindo isso às psicólogas de plantão) as mães unem-se a elas com o objetivo de destruir os pobres freqüentadores do banco escolar.

É bem verdade que a guerra no Oriente Médio começou logo após uma briga de Sara com Agar, professora particular. Desde então os israelenses e palestinos brigam, embora razão estivesse escondida até o momento em que foi revelada.

Outra vez, numa reunião dos pais:
-Ola mãe, seja muito bem-vinda!
-Professora Rose, infelizmente não tive com quem deixar o João, que veio comigo, acho que não tem problema, tem?
-Não mãe, sem problema algum. Sente-se e, se quiser, pegue um café.
Logo que a mãe virou-se, com o dedo no nariz do pobre garoto:
-Escuta aqui, moleque atrevido. Sente e fique bem quietinho lá no fundo. Espero não ouvir um pio seu, entendido? Se você atrapalhar minha reunião, acabo com você.
O menino nunca mais foi o mesmo.
-Então pais, vamos começar a reunião falando da importância do respeito entre os pais e mestres e os mestres e os alunos…

A ironia da vida estudantil não acaba aí. Há a fase de revolta, quando você é capaz de dizer coisas inesperadas e deixa-las loucas.
-Então Darwin completou sua teoria sobre a evolução encontrando uma raiz evolutiva em comum entre homens e macacos.
-Eu não acredito.
-O que é?
-Eu não acredito no que a senhora está dizendo, oras.
-E qual a sua argumentação, senhor ousadia?
Ela já bufava.
-A senhora acredita em Deus?
-É claro que acredito.
-Então deixa eu avisar: se acredita na teoria da evolução, quando tiver um problema não diga “meu Deus”, diga “meu King Kong”!
Depois da palmatória ainda foi expulso do colégio interno.

Contítulos I

Ela chegou com a expressão derrubada, e tratou de ir direto ao assunto.
-Estou triste. Minha cadela está grávida.
-Por que triste?
-Ela está grávida do próprio irmão.

***

Filho, preste atenção: esse dólar que estou te dando é para que você deixe na carteira, assim nunca faltará dinheiro lá. O filho, com ironia profunda:
-Claro, sempre vai ter esse um dólar.

***

A professora, hermética:
-Vinícius, coloque a seguinte frase na voz passiva: “o homem leva o cão fiel onde quer”. Portanto o cão fiel é:
-Educado?

***

Paulete tentou suicídio com seu trequinho de dar choques. Ficou com torcicolo por um mês.

Paulete

Ninguém jamais imaginou que ela realmente existisse. Em histórias de crueldades dignas de filme em Hollywood ela até poderia ser um dos personagens mais maquiavélicos já imaginados. Ainda que você não acredite, ela existe. Apresento-te, pois, Paulete, a matemática sem coração.

-Então Paulete, o que você quer de presente de natal? Pode me dar alguma sugestão?
-Claro, Mário! Sabe aqueles trequinhos que dão choque? Para defesa pessoal?
-Tem certeza?
-Sem dúvida! Eu, uma mulher indefesa não posso andar assim, sem proteção.

Início de janeiro, no semáfaro, um menino pobre, mal vestido, sujo, feio, sem dentes e fedendo chega perto do carro que está esperando o sinal para prosseguir. O vidro está entre-aberto.
-A senhora tem uma moedinha?
-Não tenho moedinha, não.
-Não tem nada para me dar?
Paulete tem uma idéia.
-Tenho sim, pode por a mãozinha aqui no vidro querido?

A criança está carbonizada, no Instituto Médico Legal.

Tarde mística

Todos os nomes são dos donos mesmo. Qualquer semelhança é isso mesmo

Nenhum de nós estava envolvido por acaso ou teste de seleção. Desde que o mundo é mundo, cada ano insurge um novo Conselho de Escolhidos. Escolhidos para o quê? Para… para… pára. Não posso responder porque eu não sabia. Mas quando o telefone tocou eu sabia.

-Sgarbe.

-Você vai?

-Eu não estou bem certo, mas vi uma formiga carregando uma folha ontem de manhã.
-Mas você reconheceu o sinal?
-Não, mas justamente por ficar observando a formiga atravessei no sinal verde para os carros. Minha vida foi guardada. Pode ser um presságio.
-A profetisa poderá explicar tudo. Esteja às 15h no tubo místico que abrirá a porta para a nova dimensão.
-E como eu saberei onde fica o tubo?
-Siga sua intuição, ou pegue o biarticulado Boqueirão e pare no terminal do Hauer. Tenho que desligar.
Às três horas estávamos reunidos, seis dos Escolhidos. Laila, um ser metade humanos metade hélfico, disse que ainda devíamos esperar mais duas pessoas que estavam para chegar. Ela havia recebido um contato sobrenatural a partir de um objeto encantado que ela punha entre o ouvido e a boca. Elas estariam chegando em dez minutos. Porém, como há uma diferença na contagem de tempo entre os mundos elas demoraram o dobro disso.
Quando elas chegaram o portal místico que nos levaria para o Boqueirão-Centro-Cívico-Alado, na outra dimensão, estava prestes a se fechar, tivemos que correr, mas conseguimos montar.
Enquanto estamos voando em nosso Boqueirão-Alado a profetiza Mônica ouviu que o Oráculo estava nos dizendo algo. O clima ficou tenso. Nuvens negras cobriram o céu. E ela profetizou: “Assim diz o Oráculo: esta porta se fechará em um segundo”. A profecia se cumpriu.
Ao chegarmos em nosso destino, vimos um grande olho, capaz de nos consumir com sua magnitude. Um olho negro, exuberante. Andamos alguns passos, mas estávamos notando que os portões que nos levariam até nosso destino, como Escolhidos estava fechado. Não estava, era apenas uma ilusão causada por aquele que queria nos provar: o papa.
Quando entramos naquele bosque, havia muitos caminhos, cada um nos levaria ao mesmo lugar, mas ficamos em dúvida sobre qual deveríamos seguir. A ausência de nossa Kelly, capaz de ouvir os espíritos, dificultava as coisas.
-Monica, o que você tem a dizer?
-Eu não posso ouvir o Oráculo aqui dentro.
-Aqui dentro de onde? Do bosque?
-Sim.
-Será culpa dos conflitos de energia entre o papa e o Oráculo?
-Não. Entre as árvores o meu radinho não funcione direito. Não pega bem. Não tenho antena.
O papa recusou-se a nos receber. Estava ocupado treinando a coreografia da música nova do padre Marcelo, que ele lançará em italiano numa rave católica, na praça do Vaticano. A música se chamará “Sollevi le mani”.
Encontramos, então, muitos outros Escolhidos que, na verdade, já haviam morrido. Todos eles, depois de passarem pela morte, recebiam um dom especial, como andar de bicicleta, patins, ou o mais forte de todos os poderes: malabares. Quer de bolinhas, quer de hastes.
Vimos, então, um ser sobrenatural aproximar-se de longe. Era a nona Escolhida. Os nove estavam reunidos. Uma afronta à numerologia. Os Escolhidos, que lutariam bravamente contra a Besta-Fera de várias cabeças, cada cabeça com um nome de professor, estavam na verdade unidos pelo 666. Veja: 666: 6+6+6: 18: 1+8: 9. Os nove Escolhidos.
Nos dirigimos então, por recomendação de um inimigo da Ociosidade, a Impaciência, para uma sala de meditações chamada Transcendental-Teca. Tivemos muitas visões e projeções. Astrais? Não. Projeções de cinema. E não usamos nenhum alucinógeno, senão as poderosas drogas, as terríveis, Luana e Vinícius, que dormiu no filme.

A estrevista

A tensão era por um bom motivo. Uma entrevista para a bolsa de estudos. Religiosamente adiantado cinco minutos esperei do lado de fora. Hora é hora. Ela vestia terninho preto. Quase elegante.

-Seja bem-vindo Vinícius! Eu que sou a Daiane, prazer. Estava te esperando, entre.

-Como vai? – estendi a mão.

-Bem, bem, obrigada. Passei meio mal essa noite, sabe, pedra no rim. E meu filho de cinco anos inventou de ficar com febre…

“Que pessoal!”, pensei.

Resumindo, fui bem na entrevista. Quem não foi bem foi ela.

-Então, veja. Ninguém usa corretamente a língua portuguesa. E nem sabem a gramática completa! Me dê um exemplo de pretérito mais que perfeito, por exemplo…

-Ele chegara em casa – respondi prontamente e fiquei com vontade de dizer que não se inicia período com pronome pessoal oblíquo.

-Mas, veja. A maioria das pessoas não sabe. Mesóclise, me faça uma frase com mesóclise, assim, rapidamente, ninguém…

-Ele tornar-se-á o presidente amanhã. Ninguém jamais imaginara.

-Você não considera fáceis os números de zero a nove? Claro, né. Então me diga seu número de telefone em inglês.

-Three-eight-three-four-double-old…

-Como?

-Three-eight,three…

-Mas a maioria das pessoas gagueja! Quer um café?

-Claro – já estava com sono.

-Descafeinado?

-Pode ser, por favor.

-Ah! Acabou! Açúcar?

-Sem açúcar

-Com leite?

-Aham.

-Volto já.

Cinco minutos. Número de tábuas do teto.

Daiane põe a cabeça na porta e diz que o leite havia acabado.

-Pode ser puro mesmo.

-Ok! Já volto.

-Acabou o café. Aceita uma água?

-Aham.

-Natural ou com gelo?

-Natural.

-Nesse calor? Vou trazer com gelo.

-Pensando melhor, não me trás nada não.

She saw the spaceship mir

All she miss
All she see
All zhe can do
All zhe mir
All of her miracles…

–Emílio Mercuri

Vinícius no céu

Vinícius branquelo, Vinícius mau
Vinícius sempre de mau-humor
Imagino Vinícius entrando no céu:
“Sai da frente, velho chato!”
E São Pedro, batendo as mãos na coxa, canta:
“It’s my part and I cry if I want to,
cry if I want to, cry if I want to,
You would cry too if it happened to you.”

Os fones de ouvido e o problema da paumolessência

Geração saúde e tudo é o corpo, da vitalidade, e das técnicas. Geração saúde não come carne gorda, sobremesa ou lanche fora do horário estipulado pelo nutricionista. Na minha época, os adolescentes se escondiam para fumar um cigarro, agora fazem isso para comer um brigadeiro.

No meu caso. Não tenho problemas com o peso. Os outros é que têm. Não canso de ouvir “você poderia dar uma engordadinha” ou pior “quando casar engorda”. Sou eu suíno para desejarem tanto meu aumento de peso? E também não tenho notícias verossímeis de quem tenha casado para engordar, o que seria o único bom motivo para casar.

Bem, tem os fones. Fones de ouvido causam surdez, pois atingem aproximadamente 106 decibéis, que é quase o limiar da dor. Nota científica! O uso intenso desse aparelho pode causar, além da surdez, impotência sexual – ou paumolessência.

Essa é a história de Emerson que consegue finalmente levar a namorada para o motel.

-Eu não acredito que aceitei vir a este motel com você para ter que ficar assistindo Esperança. Mas o nome da novela até combinou com esse momento.

Fazendo conchas com as mãos em torno do ouvido ele responde “hein?”

Moradores fazem manifestação contra pica de bolas

Cerca de 20 moradores da rua Pedro Constantino da Rocha, em São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba, organizaram na última terça-feira uma manifestação para exigir a devolução de uma bola que caiu no terreno de D. Ofélia. Um caminhão de som amplificava a principal palavra de ordem, “queremos a bola”.

Segundo as mães que empreenderam o ato público, desde que se mudou para o bairro D. Ofélia se dedicou à pica. À pica das bolas que as crianças jogavam eventualmente em seu terreno. Na semana passada a infeliz teria retido a 15ª bola, o que culminou na manifestação.

Dona Ofélia devolveu a bola, quando ameaçaram aportar um caminhão de som ainda maior se ela se recusasse a ceder.

Irene no céu

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
-Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
-Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

–Manuel Bandeira