Está consumado

Ainda que eu seja “bizarro”, segundo declaração de um colega da escola, ainda tenho que me preocupar com coisas humanas comuns. Os bizarros também amam, os bizarros também cagam, os bizarros precisam de uma profissão. Os bizarros precisam decidir que profissão seguir, assim como os normais.

Cansado da palhaçada que assisti de camarote e com convite vip no final do ano passado (perdi minha vaga na Universidade Mackenzie porque o Cefet, em greve, não cedeu a documentação para minha matrícula), decidi repensar meu plano de carreira. No almoço da família: “Já que acabou tudo na merda então alguém me dê uma sugestão do que posso fazer agora”.

Esperava mais compaixão, mas meu pai pediu “alcance a batata”, dona Gê (seu verdadeiro nome, Gervásia, foi compactado) foi lavar roupa e meu irmão saiu correndo dizendo ter ouvido alguém chamar. Estava decepcionado, sozinho, e teria que decidir o que será de mim!

Pensei em muitas carreiras e lembro que a primeira hipótese era ser cafetão. Vejamos: dinheiro fácil é bom, mas conviver “tias do HIV”, como puta é chamada pelo professor de biologia do cursinho, não parece agradável. Pois bem, a banca de chups e treps sucumbiu por motivo de força maior.

Engenharia? Muita nobreza e esforço. Não serve, pois seu reprovado no segundo item. Se houvesse alguma engenharia sem números, talvez, mas não tem. Engenharia civil? De produção? Ambiental, madeireira, cafeeira? Desisto, e a última já é quase agronomia.

Acho que eu vou continuar jornalista. Mas não vou mais contar para ninguém. É duro ver as pessoas com cara de bobo dizendo “vai trabalhar na Globo, hein, vai ser famoso. Não vai esquecer de mim”. E eu nem consegui uma vaga na faculdade ainda. Ultimamente até respondo que sim, que vou trabalhar no Jornal Nacional. Pois para uma pessoa dessas vale a pela explicar o que é Reuters? Se acham que Mackenzie é loja de roupa, vão achar que Reuters é joalheria.

Identidade

Estou vivendo uma grande crise de identidade (“Ah, que novidade”, diria o pessoal da família Seraine). Estável emocionalmente mas não escolhi meu nome. Pela primeira vez nos bancos escolares há outro Vinícius na mesma sala. Mais dois, na verdade.

Não é notório, mas começaram a me chamar pelo segundo nome: Montovani. Vamos esclarecer. Montovani é um segundo nome, meu nome é composto, assim como Ana Flávia, Pedro Henrique, Claydisson Samuel eu me chamo Vinícius Montovani (adicione “de Camargo Sgarbe” para forma mais íntegra).

Identidade é multisetorial. Tentei abrir uma conta de e-mail no UOL “montovani-arroba…”, não está mais disponível. Mas então fiz um novo crachá, embora eu só o use como régua na aula de matemática.

Parando mesmo para pensar, descobri que o nome Sgarbe é muito mais original. Coopera muito mais com o meu sentido de ser único, egocêntrico, megalomaníaco, ordinariamente adolescente, e ser chamado pelo sobrenome é… pelo sobrenome. Tem um pai, uma família, uma constelação de onde você saiu e carrega o fardo do sangue até morrer. Mas Sgarbe, com a letra “e” no final,  tem origem em cartório no qual o escriturário está lutando para sair do Mobral. A grafia correta é Sgabi. Que elegância!

Mas adotei Sgarbe como nome oficial. O e-mail “sgarbe-arroba…” também não está disponível. Crachá acho difícil, porque o último que fiz já é o quarto ou quinto.

Enfim, estou pensando em fazer uma cirurgia no nariz e depois nos olhos…

Vestibular na cabeça

Vestibular azeda a marmita. Lá pelas tantas o sujeito decide fazer uma faculdade e o primeiro passo é se submeter às torturas intelectuais que são as aulas no curso preparatório.

Daí não bastasse sair do trabalho ou de outra escola, ainda tem que ir enfrentar uma disputa acirrada por um bom lugar perto do quadro. Estatísticas minhas mostram que é mais difícil encontrar um bom lugar vago no cursinho do que uma vaga na faculdade de medicina.

Você puto, burro, respirando trezentos ares podres, com fome, com sono e entram os professores mais felizes do mundo. Profundo que é um pires. Com o dinheiro que eles ganham eu ficaria feliz também, mesmo que tivesse que dar aulas para os meus vizinhos estúpidos.

São de diferentes tamanhos, cores e personalidades. Os professores, eles são. Atores cômicos de brejo. Monólogos de análise sintática, álgebra e história antiga.

E a pressão da família, que se orgulha de não causar constrangimento, mas camufla perguntinhas, claro. Meu pai chegou com uma conversa esquisita, alguma coisa do filho de não-sei-quem estar fazendo cursinho e se não passasse no vestibular ia ter que se sustentar. Mamãe quer envenenar minha comida para eu não estudar fora. Eu sonho com a cidade grande e ela quer que eu passe no exame de fezes.

O problema aumenta para os caras da informática. Estão condenados a ouvir até o fim seus pais contando aos amigos: “Este é o meu filho que trabalha com computador”. Veja se tem cabimento: Ronaldo é programador visual. Logo que foi aprovado no curso de design abriu uma agência de comunicação no décimo sétimo andar. Meses depois sua mãe foi visitá-lo e, olhando da janela, murmurou algo sobre como ele poderia vender alguma coisa daquela altura.

Cafetão é melhor que jornalista

Meu quarto virou assim… num motelzinho. Nem foi opção, é mais pela maioria dos votos. Começa com a cor de uma das paredes, vermelho-sangue. Eu gosto da cor, mas a tinta sobre a textura acrílica dá muitas interpretações. Bem, vejo sangue escorrendo, mas um amigo vê vulvas e números imaginários. Estão por todos os lados. Tanto as vulvas quanto os números imaginários. Não para por aí.

As luzes direcionais são de puro erotismo em um quarto com parede vermelha. Instalei isso para favorecer fazer aquilo. Espelho no teto e cama redonda estão nos planos e penso no assunto seriamente.

O quarto poderia ser um rendimento para eu estudar fora. Uma placa na frente da casa: “Aluga-se quarto para rapidinhas”. Se bem que elas não precisam ser tão rapidinhas assim. Poderia fazer um acordo com os demais cômodos da casa e tornar o lugar todo bem agradável para fazer aquilo. A Dona Rita, limpadera, poderia servir café da manhã e comida caseira para os hóspedes inusitados.

A banheira dos meus pais encareceria o serviço. No meio da noite meus pais vêem duas pessoas passarem rapidamente pelo quarto, correndo para o banheiro. O negócio pode crescer até, quem sabe, realizarmos um antigo projeto: Uma casa de chups e treps. Cafetão deve ganhar mais que jornalista.

Mudei o meu plano de carreira.

Reforma o caralho

Reformas são podres. E mesmo em meio a uma, consigo manter a paciência, juro. Mas tem pó pela casa, e uma casa com paredes derrubadas, outras erguidas. Ontem recebi uma visita muito especial e disse para ela que era um estilo de arquitetura muito moderna, quase incompreensível. Ela riu por dentro, eu sei.

Tolero até mesmo as conversas dos pedreiros. Ah, esses pedreiros. Precisa ver como eles entendem de tudo. De política e de medicina, de engenharia e vinhos. Tem um deles que já se candidatou para o cargo de vereador da minha cidade (San Joseph of Pine Trees, Paraná).

Outro dia eu fui acordado pelo ruído da betoneira na janela do meu quarto. Eu entendo, é necessário. Há males que vêm para bem. Há males que vem para o mal mesmo. A bugiganga parou, começou a rica conversa operária. Muitas pérolas. E falam de assuntos diferentes ao mesmo tempo.

O que me incomoda mais são as bateções. Eles batem demais. Estão sempre com uma marreta na mão dispostos a quebrar tudo. Mas teve uma cena que eu vi que foi horrível. De apavorar mesmo. Eles já estavam há horas batendo com as marretas numa parede ao lado do meu quarto. Eu vi de longe e decidi me aproximar. Mas vocês não vão acreditar, melhor parar por aqui.

Pão que o diabo amassou

Algumas coisas, insisto, acontecem só comigo. Não é arrogância, é redundância. Porque se acontece comigo, é claro que é só comigo, porque eu sou um. Estou embolado neste começo e não sei como sair. E não tenho outra idéia para começar essa bosta.

Mas, foi na padaria. É… foi na padaria. Essa é quase boa. Olha, eu não achava que a turma do pão tinha alguma coisa contra mim, mas agora eu tenho certeza. E eu até mereci. Qualquer um que pede pão do meu jeito pode ser desprezado. “Um real de pão”, eu disse. “Um real?”, e a balconista me olhou com uma cara de você-não-sabe-fazer conta. Ou nem me olhou, mas foi o que eu vi. E tem mais, um cara instruído não pode chegar aí publicamente e dizer “um real de pão”. Dá impressão que o cara pede dois real de churros, três real de bala. Um chops e dois pastel.

Faço mea-culpa. Meu castigo foram dez minutos de espera e depois mais dez, porque “o pão que o padeiro deixou na cesta foi para os outros que estavam na vez”. Vinte minutos sórdidos de espera, fiquei lendo Tribuna do Paraná. Desgraça pouca é bobagem.

Bem, mas tinha a a história da mulher traída que depois de decapitar o marido safado cortou-lhe o membro.

Número um

Muito frio. Percebi enquanto conversava com meu pai e saía fumacinha da boca. Já que tem esse frio todo poderia nevar de uma vez. Pelo menos é mais elegante, New York, Paris. Todo mundo vestido, sobretudo cachecóis e toucas. Também aqueles mais extravagantes, é claro, e estes ainda servem para me fazer rir com a turma do Cefet.

A culpa, sabe, dos mais chumbregas, são as lojas que vendem roupa importada. E eu até gosto daquilo. Tem coisas sem sal, sem açúcar, sem corte, cor, estilo, mas tem roupas que servem para vestir. Uma vez eu vi uma roupa de esquiar e fiquei com vontade de comprar. Na minha escola tem uma rampa e, de repente, eu podia descer ela de trenó.

O frio é bom para comer também. Na estação no nariz assado, escorrendo, é bom ir para Morretes comer barreado, tomando cuidado para não deixar pingar o fluído da coriza no prato. O problema é comer de noite. Daí você levanta de madrugada para tomar água da pia do banheiro com a mão e tem insônia porque parece que comeu cimento.

Fuck-fuck também é melhor no inverno. E ficar abraçadinho numa segunda-feira chuvosa também é bom, mas na falta de companhia dá pra abraçar o animal de estimação, cachorro, gato, coelho, vaca. Sem apologia à bestialidade. Isso só pode a Cicciolina e o potro.