Sgarbe para; Carta quatro

Porteiras gripadas, caminhos guiados por pinheiros impávidos, silêncios tão ambíguos e uma lua fria. Cheguei ao Limoeiro seis anos depois da primeira visita, quase sem lembrar de quanto esse deslocamento é capaz de me acolher para me colher.

Perdi a conta das palavras que deixaram de me expressar nesses anos. Passaram-se tantos anos desde a enorme prevenção que era me garantir com palavras. Hoje, não me garanto com nada. Um certo correr por fora de todas as coisas vai me dando a sensação de que me mantenho vivo, e com alguma pulsação fora do corpo. Mas sempre daquele jeito.

Chove bastante, todas as janelas escorrem daquele jeito, meio triste, meio brega. Estou sem sinal para garantir o trânsito de minhas epifanias ridículas. Aliás, o ridículo, o cruzar o ridículo tem sido um tema em particular. Deus falou comigo sobre isso no começo da semana, fazendo um seguro comigo.

Sempre vivendo escondido, amando escondido, como se a minha natureza não fosse apropriada. Ora. Como pode a natureza não ser apropriada, se natural, se natureza. Essa constante, imutável, invencível luta contra a permanece condição havia chegado ao fim. Foi quando me dei conta de que tantas convicções tinham chegado ao fim. A luta por si mesma era uma engenharia para a vida, era algo ao qual eu tinha me agarrado para viver e que agora tinha se desmontado feito uma carroça velha. Era possível ouvir o barulho das peças se amontoando umas sobre as outras na irrecuperável sinfonia da calamidade. Tinha chegado ali a hora de morrer em definitivo para aquelas expectativas falsas de transformar o mundo ou o mundo dentro de mim. Eu estava cansado em definitivo, tinha concluído que um plano para morrer a carne seria mais útil que um plano para viver a alma – muito embora tentativas anteriores de tanto um coisa quanto da outra tivessem falhado antes, agora, um tipo de resignação sobre a vida e determinação sobre a morte me seguiam continuamente. Eu estava disposto a colocar um fim em tudo aquilo, como de fato o fiz.

Aos 30 anos, a realidade tinha se demonstrado assustadoramente dura para mim, porque qualquer devaneio malsucedido traria consequências terríveis. Era preciso pensar doentiamente com foco na destruição completa, sem que as estruturas do entorno fossem prejudicadas. Um tipo de implosão. Difícil de acontecer quando se é um executivo de comunicação e correspondente do noticiário internacional. Ter pensado nesse texto em uma fantasia autobiográfica, testemunhal, fez cair drasticamente a qualidade dramática deste relato. Em vez de relatar a flagrante angústia destes dias, fiz o que estava apegado a fazer nas últimas horas, contar títulos e afazeres a fim de esquecer as principais razões. Aliás, é atrás delas que me arremessei frente a todas as misérias que me vesti, que me alimentei, que passei a noite. Atrás das razões é que estive maior e menor, é que estou agora. Atrás de uma razão é que morri. Minha mente se perturbou quando finalmente deitou na cama, viu-se novamente sozinha, lembrou que pretendia escrever um pouco antes de morrer. Lembrou que o desejo que tem é de morrer. Que a morte está à espreita e Deus observa de perto, guarda, salva, uma hora dará um sinal. Ontem ou hoje, repetiu, uma resposta está a caminho.

A resposta me encontrará prostrado. Mesmo segurando no braço do Eterno, sinto a demora no levantar. Senti saudade do dia em que me chamaram de mulher. Em que me fizeram sentir que eu era outra coisa que não essa aqui. Não esconderei nada do Eterno, esse é meu acordo com ele, assim ele manterá um novo trato comigo. Ao mesmo tempo, isso me devasta, silencia cada sinal que eu possa emitir. Poe-me morto. Põe-me, sobretudo, com vontade de morrer.

Voltou a angústia, mas transformada. Analisada, penteada, limpa, de cara limpa. Antes se apresentava embriagada, de pernas trançando e sugerindo ininteligências. Agora vem só, feito uma viúva sóbria na manhã do enterro, sem máscaras.

Era necessário localizar aquilo tudo, uma vez que as principais prisões estavam estabelecidas. Quero dizer, o tempo estava estabelecido, a condição mais irreversíveis, mais estável – preocupantemente, mais preocupantemente estável – estava estabelecida. Então as normas de descrição se aplicavam de dentro para fora, de cima para baixo. Era possível ver a professora de português em pé, em minha frente, gesticulando lentamente, no esforço de me tornar um redator menos estúpido na hora de desenhar a localização exata da minha tristeza. Ela certamente teria alguma compaixão por mim, boa que era, ao descobrir que fui engolido pela mediocridade das tentativas mais simples, e que quase não arrisquei para dizer que o coração da minha tragédia pulsava de um beijo roubado.

Ainda não tinha me dado conta de em que pé estava minha recuperação, ou se havia ainda alguma recuperação rolando. Aliás, termos como esse, recuperação, eram os últimos que me interessavam. Tantas recaídas – aliás, uma sucessão tão amarga, recorrente e fatigante que me tinha deixado à morte – tinham-me tirado qualquer perspectiva de que eu ainda vivia para viver. Era como se eu estivesse jogando para cumprir a tabela sabendo do rebaixamento iminente. Nunca gostei de futebol e não faço a menor ideia de por que fiz essa analogia pobre com um esporte que não me interessa em nada.

Do dia em que enterrei tia Josmara lembro de poucos detalhes. Tinha mantido pouca coisa no primeiro plano, para que a superficialidade fosse aquele tipo muito apropriado de anestesia. Era o jeito de aguentar um funeral católico. Inicialmente, tentei evitar minha ida, mas as obrigações cívicas me tiraram da cama perto das três da manhã. A voz do meu irmão rasgou a noite fria dizendo com uma euforia de manchete “a tia Josmara morreu”. Que sorte a minha não ter o destino dela, o de estar sem ninguém que a amasse naquele momento. Levantamos da cama e fizemos um memorial, uma foto e velas de festa boiando sobre a água rasa e lenta de uma decoração. Teria sido suficiente aquela macumba. Mas era preciso, não por mim, mas pela vida dos outros, que eu sofresse publicamente. Não passou muito tempo até que meu pai passasse de carro me pegar. Ele não quis ir comigo. Então, o caixão dela se arrastou no chão da cova, fazendo um som pesado, o último do corpo inerte. Madeira esfregando sobre cimento, terra, areia. Então eu aprendi qual o som da morte.

Publicado por

Sgarbe

Jornalista, produtor de mídia, fã de arte.

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