Vestibular na cabeça

Vestibular azeda a marmita. Lá pelas tantas o sujeito decide fazer uma faculdade e o primeiro passo é se submeter às torturas intelectuais que são as aulas no curso preparatório.

Daí não bastasse sair do trabalho ou de outra escola, ainda tem que ir enfrentar uma disputa acirrada por um bom lugar perto do quadro. Estatísticas minhas mostram que é mais difícil encontrar um bom lugar vago no cursinho do que uma vaga na faculdade de medicina.

Você puto, burro, respirando trezentos ares podres, com fome, com sono e entram os professores mais felizes do mundo. Profundo que é um pires. Com o dinheiro que eles ganham eu ficaria feliz também, mesmo que tivesse que dar aulas para os meus vizinhos estúpidos.

São de diferentes tamanhos, cores e personalidades. Os professores, eles são. Atores cômicos de brejo. Monólogos de análise sintática, álgebra e história antiga.

E a pressão da família, que se orgulha de não causar constrangimento, mas camufla perguntinhas, claro. Meu pai chegou com uma conversa esquisita, alguma coisa do filho de não-sei-quem estar fazendo cursinho e se não passasse no vestibular ia ter que se sustentar. Mamãe quer envenenar minha comida para eu não estudar fora. Eu sonho com a cidade grande e ela quer que eu passe no exame de fezes.

O problema aumenta para os caras da informática. Estão condenados a ouvir até o fim seus pais contando aos amigos: “Este é o meu filho que trabalha com computador”. Veja se tem cabimento: Ronaldo é programador visual. Logo que foi aprovado no curso de design abriu uma agência de comunicação no décimo sétimo andar. Meses depois sua mãe foi visitá-lo e, olhando da janela, murmurou algo sobre como ele poderia vender alguma coisa daquela altura.

Publicado por

Sgarbe

Jornalista, produtor de mídia, fã de arte.

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