Saudade de casa

Eu caí perto de um pé turrão. O jeito da madeira. Se a hora fosse para o esclarecimento, eu contaria que culpei minha mãe por usar o primeiro mandamento com promessa contra mim: “Honre seu pai e sua mãe, para que você viva bastante”. Francamente, adolescente que era, não via naquelas condições uma razão para “honrar” meus pais como seu estivesse em uma corte pré-colonial. Para piorar, não queria viver bastante, pelo contrário.

Quando os bares em frente à PUC me ofertaram drogas (muito antes a indústria farmacêutica fez o mesmo com a ajuda dos médicos), encontrei sentimentos que me ajudavam a viver sem ter vontade de morrer. Saudosa Ilha do Mel de 2005. Quanto ácido lisérgico, gente inteligente e disponível tinha lá naquele ano. Voltei namorando uma mulher linda que explorei por três anos (ela me pagava Burger King – risos).

Praticamente qualquer vivência era mais interessante que estar na minha casa, onde o eco neopentecostal cruzava a segunda geração de convertidos do catolicismo. Saque esta: eu achava ouvir U2, que é, vamos dizer, uma banda gospel, um andar bem perto da linha do pecado. Foi uma questão de ter emprego para eu pular fora antecipadamente. Ih, que preço alto eu paguei!

F0mos nos transformando. Meu pai (eu tenho dois, mas é conversa para outra hora) e minha mãe entenderam que eu não me casaria com uma evangélica de 18 anos, que eu os amava ao meu modo. Entendi que a vida deles é aconselhar uma evangélica de 18 anos que casou e está com problemas para se manter casada para sempre.

Aos 36 anos, fumando um cigarro de sexta-feira na sacada, estive feliz. Lembrei da Ilha e ela não estava desassociada do legado dos meus pais. Como se sentir saudade de casa significasse o jeito certo que querer estar bem, estar inteiro. Estou com saudade de casa. Então era isso!

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