O marketing político como vetor

Que as próximas eleições começaram com antecedência notável, estamos de acordo. Da Praça dos Três poderes às cidades menores, as falas publicáveis dos políticos e de seus correligionários estão sob o compulsor “agrade”. Uma multidão de marqueteiros de garagem vai surgindo, se é que algum dia foram em menor número. O que tem de especialista em “redes sociais” e coisa barata. O “case” de sucesso é a campanha do presidente Jair Messias Bolsonaro, da qual muitos participaram postando comentários no Facebook e encaminhando mensagens no WhatsApp. Este parágrafo é um recorde de aspas, porque reflete a instabilidade das funções de cada coisa no palco público. É um fazer de conta, com roupas formais.

Quando uma empresa vai mal e analistas são contratados para localizar onde está o problema e sugerir o que se pode ser feito para resolver, leva-se em conta, de modo principal, qual é o legado dos fundadores. Tem a ver com o “cânone do grupo” e consequentes estruturas e imagens. Não do presidente, não do diretor financeiro, não dos funcionário, mas o que tem de principal no legado dos fundadores. Isso se aplica à administração pública. Tomo Curitiba por exemplo, para fins didáticos. A fundação se dá pela instalação da Câmara de Vereadores, em 1693. No registro histórico, Matheus Martins Leme tinha consigo “apelos de paz, quietação e bem comum do povo”. Anos mais tarde, o ouvidor Raphael Pires Pardinho incorpora a preocupação com a natureza. Lato sensu, Curitiba começa e termina neste parágrafo. Técnicas jornalísticas podem dar suporte à investigação. Franceses e americanos discutem a invenção e as funções de tais técnicas desde o Século XVII.

Basicamente, a ideia é retomar a clareza e a ordem. Quando há informações se agitando na cabeça do redator, ele volta às perguntas fundamentais: o quê, como, quando (existem mais). Essas perguntas, para candidatos, podem e são muitas vezes respondidas com cola. Alguns treinadores estão prontos para interferir nos roteiros e incentivar performances fictícias. Para isso, contam com pesquisas de toda sorte e de todo preço. Qualitativas, de massa, de audiência, entrevistas com sábios, com representantes da mão invisível que tece a coisa pública em reuniões privadas. E ali o bocó que tampouco sabe responder para ele mesmo “o quê” está fazendo, refastela-se na aparência iluminada e maquiada que embala um conteúdo insignificante.

Já as notícias são uma fonte de informação. Uma fonte. Existem todas as outras. Se o quadro de referência dos candidatos se mantém apequenado ou intacto com o passar do tempo, a ideia de Leme sobre a paz tende a fracassar, e Curitiba estaria condenada a um desconforto contínuo. Esse quadro é ampliado por literaturas e filmes construtivos, por períodos de recolhimento, por conversas saudáveis com pessoas que pensam diferente. É fácil depreciar a opinião dos outros quando se tem uma fantasia sobre o que outro sabe ou pensa, quando não se tem dados de realidade. Algumas dessas questões têm abrigo na antropologia personalista do espanhol Juan Manuel Burgos, que entende, teoricamente, que a capacidade de autoconstrução e cuidado determina a qualidade humana.

O marketing político deve ser colocado sobre a mesa. Deve integrar o que sabemos sobre os candidatos. Além do mais, os “gurus” dessa profissão têm políticas de preço enigmáticas. Somente o pagador (e para quem ele conta, ou o gestor do fundo eleitoral) sabe os valores da tabela. Em 2018, treinei uma pessoa que veio do interior para concorrer a um cargo importante. Foi ao cabeleireiro visagista? Foi. Foi ao shopping comprar roupas lisas? Foi. Baixou aplicativos para treinos rápidos? Baixou. São todas medidas à toa se não houver um trabalho de desenvolvimento humano no qual o candidato esteja comprometido.

Passamos dias a fio discutindo as razões principais que a tinham trazido à capital. Evidentemente que as respostas eram dela. Quando voltou para o interior, levou a experiência com os estados do ego, com os contratos multipontas que se estabelecem com o público, e outros temas organizacionais. Só eu sei o quanto ela me ensinou. Quer dizer. A dedução da teoria da opinião pública de que o palco deve gerar a aprendizado se confirma na experiência que tivemos. Fica ainda mais claro: ela vai ao palco consciente das razões que tem, e não porque disseram a ela que uma poção mágica serve para o sucesso.

Se tornamos manifesto o marketing político, a vilania das eleições sem profundidade tende a perder força. O dissabor de um candidato que explicita a altura de um pires é compartilhado e, logo, marqueteiros expertos dariam a essas candidaturas tamanhos (e preços) proporcionais. Hoje, quem pode pagar contrata alguém bom que o faz parecer coisa que não é. E quando está eleito e sobe a água (aquela que bate)? Quem está perto para ajudar? Sem contar que frequentemente os marqueteiros agem como consultores externos aquém da responsabilidade com o grupo. Chegam na posição existencial de que sabem mais, que dominam, e que o outro deve segui-lo.

Nisto eu concordo com um pessoal mais novo: que cargos públicos exigem pré-requisitos. Quem sabe andar com as próprias pernas e se desenvolve com auxílio profissional é bem-vindo. Se depende de babá, tem de voltar para a mamadeira.

A rivalidade não faz sentido se impede a paz, em Curitiba. Aliás, qualquer pensamento ou ação que seja contrária à paz, em Curitiba, é fraude moral no que a cidade é e no que representa para o país. A preparação para ter a foto na urna eletrônica tem a ver com quem a pessoa é. E ninguém finge por muito tempo. Se o disfarce começa antes da posse, que garantias temos de que será diferente depois, que não se importará somente em agradar bajuladores? Contar com milagres a gente conta sempre. Por enquanto, a gente não conta com marqueteiros socialmente responsáveis.

Foto: Alexas Fotos/Pexels.

2 respostas em “O marketing político como vetor”

O artigo é bom. Porém, você supervalorizou o papel dos profissionais de marketing político. E também caiu na armadilha de generalizar. Abraço, amigo.

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