Quem perdeu as eleições

No dia 7 de outubro de 2018, parecia que o mundo tinha virado do avesso na internet, e aqui na frente de casa. A glória de Jair Bolsonaro no segundo turno foi ofuscada pela desconfiança em relação às urnas eletrônicas e a frustração dos “80% no mínimo”, como papagaiava a então candidata à Câmara dos Deputados Joice Hasselmann. Vínhamos estranhando a força e reverberação de falas não verificáveis.

As campanhas do segundo turno só não foram mais pobres do que foram sujas. Quando a água subiu, o que deu de problema. Às futuras gerações, registre-se: há dois natais que as famílias comem com medo de abrir a boca.

Se as eleições são tidas como um ente das elites políticas e somente para este fim, qual seja oportunizar a manutenção dessas elites, esqueceram do que o povo pode ter de vantagem, como um belíssimo showmício no bairro. Em um poema-reportagem publicado por José Hamilton Ribeiro na Folha de S. Paulo, o jornalista lembra que é neste momento que o eleitor tem a chance de apertar a mão do candidato. E que será somente dessa vez.

O jogo de poder espúrio reteve que tivéssemos os presenciáveis em um debate televisionado. Não que tenha feito falta, porque daqueles dois é sabido o que esperar. Bolsonaro foi esfaqueado por um lunático que o via tal qual a besta que é. Sorte a de Bolsonaro que temos instintos levados à sala de terapia, porque se tem uma coisa que esse senhor consegue com muita naturalidade é provocar repugnâncias. Quando não foi à TV, contratou o que pode oferecer.

Dos mapas mais avançados, antropológicos, analisados, ficou o despreparo daquele para o cargo de presidente da República. Sem entrar no isentão que me obrigaria a argumentar contra a estratégia petista, sigo no que tem mais a ver agora, provar que eu e você perdemos a eleição e que provavelmente o faremos de novo neste ano.

Uma colega jornalista escreveu dois livros sobre a ditadura militar no Brasil, e a mãe e irmã dela votaram no Bolsonaro. Os pastores evangélicos que trouxe em altíssima posição por anos, escolheram Bolsonaro. Gente amável, trabalhadora, simples. Com ele. Meu pai. Com ele. Desses listados aqui, algum sinal de arrependimento ou temperança?

Será que as coisas estão claras o suficiente? Será que os mapas mais avançados, antropológicos, analisados, dão conta de repetir o básico? Não é hora de esmorecer. Bolsonaro é um péssimo presidente. A figura pública dele é vomitável. Na balança, conta para quem segue o mito que “pelo menos não houve corrupção”. De qual corrupção se fala?

Corrupção não tem a ver com desviar dinheiro para construir piscina em chácara de político somente. Tem a ver com escolher gestores de péssima qualidade para cuidar do que é público. Garantir vantagens para a família, quem não vê é pateta. Mas não é corrupção esconder dados sobre mortes em uma pandemia? Qual é o nome, se não é corrupção?

Qual é o nome que se dá a negar desde o início a gravidade de uma doença para a qual não há vacina ou remédio? Nomeie. Explique para nós.

Enquanto isso, aqui no Paraná, o governador Ratinho e o prefeito Rafael Greca escondiam muito antes da maldade federal os dados sobre internados por Síndrome Respiratória Aguda Grave. E alguns dizem “a próxima eleição é do Greca”. Como é do Greca? Como pode um homem que foi tão brilhante mas hoje se tornou vil estar reeleito antes das urnas, em uma cidade tão peculiar como Curitiba?

Foto: Evaristo Sa/AFP.

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