Dez justos; impeçamos Deus

São 51.271 brasileiros mortos, contados até as 15h de terça-feira (23), com dados oficiais. Vai saber quanto a menos ou mais. É como se União da Vitória, no Sudeste do Paraná, passasse a ser uma pilha de cadáveres. Uma cidade inteira. Foi impossível não metaforizar com Vitória, quando parece que estamos no vórtice um ralo para a miséria.

Tenho ficado longe do noticiário o quanto dá. As capas dos sites fazem bem o papel, mas aderir às bandeiras da imprensa é tão ou mais letal que o fazer com os memes e controvérsias políticas em qualquer rede. Uma sensação de fracasso tomará qualquer um que tenha qualquer medida.

Escrevi anteriormente sobre chorar os mortos. Não parece assim. Parece mais uma recusa aos sinais que nos vêm.

Isto me choca e é horror original: 3.076 toneladas de carne humana putrefata infectada por coronavírus. Lá no começo, houve o medo de gente se arrastando na calçada. Hoje, pelo menos dois hospitais de Curitiba – wow, Curitiba! – têm 100% dos leitos de UTI ocupados.

Não tem cair na real. Estamos arremessados na real. Estamos arremessados na fome que chegou às ilhas do Paraná. Tem viúva mãe de pessoa com deficiência com a dispensa vazia. Até os peixes do mar foram embora.

PAI DA FÉ

Quando Deus visitou Abraão, no caminho para acertar as contas com Sodoma, porque “os gritos das vítimas estavam de ensurdecer”, o pai da fé impediu a passagem. Argumentou assim: “Estás falando sério? Estás mesmo planejando eliminar as pessoas boas junto com as más? Se houver dez justos em Sodoma, destruirás mesmo assim?”.

Tentava Abraão proteger o sobrinho Ló, que no fim das contas era um grande amontoado de merda. Mas teve a vida salva porque alguém melhor que ele se responsabilizou. É como cuidar para que um negacionista não seja infectado, eu acho.

Amanhã haverá notícias piores que as de hoje, e não estamos ficando melhores, argumento.

Foto: Vinícius Sgarbe.

2 respostas em “Dez justos; impeçamos Deus”

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