Automatização da notícia: o que os robôs fazem melhor

Operador de empilhadeira trabalha. Foto: National Cancer Institute.

Em 2009, sob o título “Eweb: jornalismo digital padronizado“, quatro estudantes de comunicação social da PUCPR (eu era um deles) fizeram uma série de vídeos para a internet, como projeto de conclusão de curso.

Na produção, a técnica de cinema é uma tragédia universitária com requintes de cópia pirata do 3D Max instalada em um computador de leitura.

Em formato 16:9, reprodução da primeira tela da série animada em 3D Max.

É preciso menos de um minuto do primeiro vídeo para que “foco no usuário” apareça em destaque. À época de telefones BlackBerry serem a única rede criptografada, e de jornalistas e publicitários colonizarem no Twitter, chegar a tal conclusão pelo suporte de uma graduação em comunicação é no mínimo muito bom.

Hoje, o marketing digital e o modelo de plataformas de negócios sugerem que jornalistas continuem a fazer o que sempre fizeram eticamente e com inteligência.

Eu não vejo as pessoas procurando a internet para análises mais profundas, para algo que as faça refletir. O texto na internet vai saciar para aquela informação que atualize e que possa ser passada adiante.

Michelle Thomé, em entrevista ao Eweb, em 2009.

Michelle Thomé previa, com palavras próprias, os primeiros ensaios da pós-verdade e da política quântica. Ambas são, bem grosseiramente, quando opiniões e fatos têm o mesmo peso. É o “importa que eu me expresse”.

Lead americano

Homem lê jornal. Foto: Myznik Egor.

Mas algo tinha ficado de igual. O jornalista Luiz Oliveira cuidava da parte digital do jornal Gazeta do Povo, e, para ele, o texto na internet mantinha o formato criado pelos americanos.

O lead, amplamente apreciado pelas características de encadeamento das informações e otimização do tempo de leitura, responde às perguntas básicas:

  • o quê,
  • quem,
  • como,
  • quando,
  • onde, e
  • por quê

(como uma ou outra variação).

No ano seguinte à publicação de Eweb, Sharon Jeanine Abdalla pesquisou para a Universidade Federal do Paraná “Lead e pirâmide invertida: a influência do modelo americano sobre o jornalismo paranaense“. Ela entrevistou o jornalista Aroldo Murá G. Haygert.

Não adianta ter lead e essas técnicas direitinhas se o jornal for uma porcaria. (…) O jornal hierarquizava os títulos, eles tinham número de batidas, o que era muito difícil, na época. Quando você trabalha com tipografia é complicado, com o computador, hoje, é mais fácil fazer isso.

Jornalista Aroldo Murá G. Haygert.

Robôs podem escrever

Há mais de dez anos, Eweb discutia a tendência de automação do jornalismo, a partir do lead. Escritos e aprimorados os parâmetros, dados de realidade poderiam ser atualizados automaticamente, quer por motores de busca, quer por APIs (que são um tipo de conexão entre bancos de dados).

Um exemplo. A polícia rodoviária forneceria em tempo real o número de acidentes, multas, prisões no trânsito, etc. Os sites de notícias reproduziriam, por painéis temáticos, matérias, notificações, o que fosse, conteúdo que dispensa o trabalho intelectual. Robôs escreveriam:

“Duas pessoas foram presas por digirir sem carteira de habilitação, durante feriadão”;

“Fila na BR-277 tem fila de 2 km no sentido litoral, a partir do Jardim Botânico”;

“Emergência: neblina na entrada da Serra do Mar reduz visibilidade a 5 m”;

Fica para jornalistas

Duas cadeiras. Uma de frente para a outra. Foto: Steve Halama.

O repórter dispensado do link à beira da BR teria tempo para propor o que as máquinas não fariam de maneira inédita, como reportar sobre as consequências transgeracionais de mortes violentas. As famílias repetem o padrão de morrer na estrada?

Ou coisas rotineiras.

  • Quanto o governo investe em campanhas educativas?
  • Quanto tempo duram?
  • Como é medido o alcance?
  • Quais pesquisas são utilizadas para a criação?
  • O contribuinte pisa fundo por pagar pedágio?
  • Quem é multado por alta velocidade gosta de dirigir?
  • Quando as telefônicas vão instalar internet até a praia?

Copiados por franceses

A trilha sonora utilizada em Eweb é do álbum “Deep Cuts“, lançado em 2003, dos irmãos suecos de “The Knife“. Em 2020, a televisão estatal francesa Franceinfo utilizou uma das músicas desse álbum para a chamada de um programa.

4 comentários

  1. Interessante a visão da Michelle naquela época… não sei se a opinião se mantém, mas a minha é que a citação permanece atual para a grande maioria das pessoas, porém a web virou uma biblioteca virtual e sim… podemos nos aprofundar e aprender muito através dessa ferramenta.

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