Defender Bolsonaro em ato presencial é incoerência

Foto: Eduardo Matysiak/Lab Jornalismo 2030.

As redes sociais digitais são uma pedra no sapato da vida pública brasileira, pelo patrocínio das bolhas. Em entrevista ao professor Dr. Carlos Alberto Di Franco, o presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e ex-vice-presidente Editorial e Institucional do Grupo RBS, Marcelo Rech, disse que o jornalismo pode limpar a sujeira deixada na internet e deve ser remunerado para isso.

Vou para o assunto da informação em bolha porque depois de quase uma semana me dei conta de dois fatos históricos de Curitiba que têm relação em pelo menos um aspecto (o da ignorância).

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a comunidade imigrante alemã que estava aqui deu apoio ao Führer pela narrativa da retomada econômica no país de origem, entre outros motivos menos republicanos.

À época, a cidade foi palco de desfile da Juventude Hitlerista, com a tradicional saudação a Adolf Hitler. Evidentemente, não se sabia, e provavelmente não se imaginava, pelo menos decido acreditar assim, que o nazismo cultuado naquele país resultava em uma política de extermínio humano. Diz-se de seis milhões de mortos, um número bastante incerto, entre judeus, negros, comunistas e, por que não, gente de bom coração que eventualmente tinha amizade com todos. 

Dentre as atividades animadas e inspiradas pela propaganda nazista no exterior, pode-se verificar em Curitiba a atuação da Juventude Hitlerista (Hitlerjugend), que segundo Menon (2008) era denominada Juventude TeutoBrasileira para não afastar aqueles que não eram simpatizantes ao nazismo. A sede desse movimento em Curitiba era a Gustloff-Haus, na Avenida Anita Garibaldi. Ali se promoviam atividades como caminhadas, passeatas e acampamentos; eram constantes os jovens entoando canções que exaltavam a Alemanha, vários destes jovens usavam fardas semelhantes as nazistas ou, pelo menos, a suástica em suas camisas.

Dra. Francielly Giachini Barbosa, historiadora.

Menonitas idosos entrevistados em uma pesquisa, anos mais tarde, recuaram quando chegaram as notícias dos presuntos. Os acontecimentos descritos até aqui estão em uma dissertação da historiadora Dra. Francielly Giachini Barbosa publicada na Universidade Federal do Paraná, sob o título “Para além da escola: identidade menonita e práticas socioeducativas (Curitiba, 1934-1948)”.

A relação com domingo (14)

Foto: Eduardo Matysiak/Lab Jornalismo 2030.

Em pleno ano pandêmico de 2021, “manifestantes participaram na tarde deste domingo (14), em Curitiba, de uma carreata em apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e em protesto contra as medidas restritivas adotadas pela prefeitura e pelo governo estadual para conter a pandemia da Covid-19” (Gazeta do Povo). É de cair o furicó da bundinha, por um rolo de fax de razões.

Vinícius Sgarbe — Como a ciência do historiador vai descrever a pandemia? Quais recursos ela vai usar?

Francielly — Os recursos são análises críticas de vestígios, são fontes históricas. Usamos como fonte documental matérias de jornais, fotos, dados estatísticos, dados oficiais, entrevistas. Tudo que a história deixar como vestígio será usado para descrever a situação.

Não é coerente com o número de mortos realizar uma mobilização presencial. Sob nenhum pretexto. Conte comigo o número de mortos: professor Dr. Cleverson Leite Bastos, tio José Haroldo Sgarbe (meu tio mais velho), arcebispo de Cascavel, Dom Mauro Aparecido dos Santos, Euclides Scalco, além de umas famílias inteiras dizimadas que a não passam de tinta em jornal, não sei se você também tem essa percepção.

Defender o presidente Jair Bolsonaro – que pode muito bem ser comparado a grandes homens do mundo, como o presidente da Tanzânia que depois de três dias de jejum proclamou o país livre da Covid-19 e deixou de publicar informações sobre doentes em maio do ano passado. Ah, ele morreu – exige um exercício de refração que uma bolha explica.

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