Jornalismo e psiquiatria: uma abordagem para comunicação

A audiência está drogada. Foto: Altin Ferreira.

Aceitei o desafio feito pela Dra. Ana Babrilla para conversar estes dois assuntos: jornalismo e psiquiatria. A comunicação política na América Latina tem se inclinado à essa interseção, por exemplo o livro que o  jornalista chileno Dr. Felipe Vergara Maldonado escreve com uma amiga europeia da psicologia.

Na ocasião do “I Seminário Avançado de Comunicação Política”, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), perguntei a Maldonado sobre qual abordagem da psicoterapia se incluía na pesquisa dele. Ele não soube responder, o que é uma resposta.

Da psicanálise que não dá pé (de tão profunda) à simplificação das teorias comportamentais, é difícil ligar jornalismo de lead americano a questões psíquicas. Não é impossível. Mas é difícil porque a vastidão convida a conclusões precipitadas, como conferir a alguma figura pública o diagnóstico de presidente fraco da cabeça.

As metodologias herdadas das ciências sociais, tal qual as análises do conteúdo e do discurso, não seriam suficientes para explicar fenômenos comunicativos? Sim e não. Se fosse exclusivamente sim, este artigo seria inútil.

Sim, porque com tais recursos se pode descrever uma multidão de emoções e  sentimentos. Não, porque pode faltar às pesquisas de comunicação aspectos ainda mais profundos, capazes de tornar os contornos dos objetos mais nítidos.

Quando Sigmund Freud traça um paralelo entre as visões de mundo registradas na história e a formação da psiquê individual [do neurótico], ele nos faz olhar para animatismo, animismo, religião e ciência.

Embora o animatismo ganhe um nome exclusivo, ele é frequentemente entendido como fase pré-animismo. Do pré-animismo até a religião, tratamos, em maior importância, de explicar o mundo sob a “onipotência do pensamento”. Aliás, o que, justamente, divide as duas primeiras fases é a terceirização de entendimentos do indivíduo, na figura dos espíritos, quais sejam anjos e demônios. Feitiçaria e magia ficam neste parágrafo. 

Quando são evocadas essas visões de mundo,  Freud usa os registros que o antropólogo James Frazer fez dos povos totêmicos, os aborígenes da Oceania.

É mais ou menos assim: o que a espécie humana vivenciou no cruzar da história, serve de metáfora para a formação pessoal. Quer dizer, existe um “pequeno aborígene” em cada pessoa, assim como existe um “religioso” e um “cientista”. Bem bem mais ou menos assim. Os neurocientistas de best-seller explicam com reptiliano, límbico e neocórtex. A análise transacional tem uma ideia genial com Estados do Ego Pai, Adulto e Criança.

Mas é somente na fase científica, na última, que se percebe a realidade ao redor e se conforma com ela. É quando deixa-se de fazer o Sol girar em torno da Terra.

A partir daqui se poderia discutir o que é pós-verdade. O termo tem sido vulgarmente explicado como o interesse emocional e sentimental associado a uma palavra ou a um texto. Pelo viés psicanalítico, não se trata de absolutamente nada novo. Triste do jornalismo que não prestou atenção antes.

Falta ainda mencionar que a audiência do noticiário está drogada, como se pode comprovar pelos traços de cocaína no esgoto de Londres ou de antiinflamatórios e antidepressivos na latrina curitibana.

A França discute dia-sim-dia-não a “pedopsiquiatria”. À época de pandemia de Covid-19, o governo de lá deu dez sessões de terapia para cada criança ou jovem entre três e 17 anos. 

Tem algo a se pensar sobre comportamento do público, não?

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