A sabedoria de Parracho rastela mato do jornalismo do Paraná

Selfie do jornalista Fernando Parracho. Foto: Redes digitais.
Fernando Parracho. Selfie. Foto: Redes digitais.

Conheci Fernando Parracho em um encontro inesperado, quando ele gravava com a própria mão uma reportagem na ilha do Superagui (PR). Ele a trabalho, eu em férias. Curiosamente, nossas atividades se diferenciavam pouco, porque para ele fazer jornalismo é como coçar os olhos quando se acorda, natural, sem muito frufru.

Anos antes, e talvez quase dez anos antes, ele e eu trabalhamos juntos em uma redação de televisão. Evidentemente não se pode conhecer uma pessoa em uma redação de televisão, porque tem o programa para colocar no ar, tem o problema do sinal do link. Sem contar que não se anda sobre ovos, mas sobre um imenso terreno acarpetado de minas explosivas.

Renunciar os prazeres da popularidade não é exatamente uma coisa fácil, mas Parracho não se oprime por estas coisas fúteis que é ser bonito, inteligente e conhecido dos fãs de telejornal.

Quando saio almoçar com o Jasson [Goulart], as pessoas me pedem para tirar fotos delas, com o celular delas, ao lado do apresentador famoso, que é o Jasson no caso.

Fernando Parracho.

Esta entrevista ao Lab Jornalismo 2030 integra a pesquisa do curso Empreender no Jornalismo, do Master Negócios de Mídia do ISE Business School que por sua vez é um braço da Universidade de Navarra no Brasil.

Vinícius Sgarbe: Parracho, que foco você recomenda a um programa de formação de jornalistas?

Fernando Parracho: Se a gente pensar em repórteres com experiência, teria de ser focado em tecnologias. Tenho conversado com alguns amigos contemporâneos, e eles dizem que são pré-digitais. Um apoio, uma consultoria, informação a respeito de como dominar de alguma maneira as tecnologias.

Sempre tive uma atuação muito discreta nas redes. No dia da minha despedida [da RPC], o Hugo Gloss publicou. A última vez que olhei, para curtir 92 mil curtidas… Curti até onde deu. Depois o Insta bloqueou o rolar. Eu estava orgulhoso dele, com bastidores da TV, músicas, fotos, vínculo simples com os seguidores. Antes da minha despedida eram 15 mil seguidores. O que era surpreendente. Depois da saída, com o alcance, passei para 23 mil seguidores.

Não vou me subestimar. Mas nem no sonho mais otimista. Gente que começou a seguir. Gente de vários lugares do Brasil que não conhece da tela. E gente dizendo “ele é muito bom mesmo”. Eu estava comentando com meu filho fotógrafo e jornalista… um pesquisador. Um autodidata. Eu falei pra ele “não estou dando conta de curtir”.  Você precisa de um estagiário. Ele acha que tenho de continuar.

Você tem de fazer um curso de mídias digitais. E isso que eu até me viro mais ou menos bem. A própria apuração dos fatos, o contato com a fonte, é tudo por rede social.

Não uso o Waze. Vou perguntando. Vamos conversar pelo Skype, pelo Zoom. Eu acho que é uma deficiência, que a gente não conseguiu absorver. E para o repórter que está chegando agora…

Sgarbe: Em relação aos mais jovens. Onde o calo aperta?

Parracho: Eles sabem dominar a tecnologia. Psicologia do relacionamento. Os dois minutos para quebrar o gelo com uma fonte. É o tempo para conquistar a confiança da pessoa. E os jovens foram desenvolvendo um jeito que não precisa falar muito. Que não carece de muita conversa. As frases são curtas, o texto é abreviado.

Eu me surpreendia com a quantidade de pessoas novas que estavam pelos corredores. E muitas dessas pessoas… Dizia o bom dia e elas chegavam a olhar e não responder. Isso não acontece somente com os jovens.

O jovem tem muito disto: quando viram a reportagem, não sabiam da minha carreira. A tendência é achar que o mundo começou hoje. O desinteresse.

Trabalhar no jovem uma filosofia de vida. Onde isso vai me levar. Que conquistas eu posso ter? Como viver a experiência de repórter? Muitos repórteres que chegavam queriam fazer JN. Não pode? Claro que pode. Novas caras, novos textos. Mas entrar no JN é uma consequência de um trabalho diário, comendo muita carne de pescoço, fritando muita bisteca.

Sgarbe: O que o repórter de talento sabe?

Parracho: Levantar uma pauta que vai te levar.

Sabe o que o relacionamento significa. Boa convivência com o entrevistado, com a sabedoria de quem não se acha melhor que os outros, mas sabe que tem uma função importante.

1 comentário

  1. Obrigado Vinícius!!!! Muita gentileza sua!!! Muita generosidade. Aprendemos sempre uns com os outros. E aquele período curto em Superagui foi muito legal. De grande aprendizado! Às vezes a gente não percebe, mas está diante de algo ou alguém que nos traz uma atmosfera diferente, um arzinho bem bom de respirar e palavras, ideias e sentimentos para compartilhar!!! Admiro muito você e seu trabalho, seu jeito de escrever, de pensar. Você é um jovem mestre, velho de outras tantas vidas vividas antes, com uma sabedoria lapidada pela sensibilidade gigante. Você é um gigante ágil, astuto, gentil. Um grande cara! Tenho muito orgulho de ter estado na mesma redação, na mesma ilha, na mesma essa vida que tentamos tecer com o máximo que há em nós. E gratidão a você!

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