A quem serve a decisão editorial da Gazeta do Povo

Página do humorista involuntário Alexandre Garcia.
Página do humorista involuntário Alexandre Garcia.

Guardo uma única mágoa contra a RPC, depois de integrar a equipe de implantação do G1 Paraná, faz mais de dez anos. Foi a primeira afiliada Globo a colocar no ar o portal de notícias, e acho que trabalhamos, sei lá, uns três meses praticamente sem folgas. De volta à mágoa. O pessoal que cuidava do vídeo me pediu para gravar um piloto, e eu fiquei nervoso a ponto de cortar o cabelo e marcar maquiagem para o dia do teste (que foi cancelado assim que eu cheguei enfeitado à emissora). Naquela oportunidade, lembro de ter refletido sobre a “febre da televisão”, tinha a ver com uma certa provocação ao ego de jornalista. Será que sou bonito? Será que tenho boa voz? Será que eu vou ser famoso? Escrevi algum post sobre o assunto e conversei sobre ele com uma produtora – até onde sei trabalha lá – durante o intervalo do cigarro. Ela, burra que uma porta, fez pouco caso, tanto de ter desmarcado minha oportunidade no vídeo e se emporteceu mais ainda quanto aos efeitos de uma canopla prestigiada de microfone. Começo por aqui, porque gente como essa burra haverá em todo lugar, na TV, no fórum, no hospital. Mas, em linhas gerais, aqueles meses de trabalho me apresentaram a um grau de profissionalismo em comunicação que não se vê com frequência.

A começar pelo G1, que tinha uma plataforma de publicação própria, e cujo acesso somente se dava mediante uma série interminável de verificações (eu tinha uma chave exclusiva e podia publicar reportagens a qualquer hora, sobre qualquer assunto, sem passar por nenhum entrave editorial). Depois, pela tradição em radiodifusão que o Paraná tem, o protagonismo em jornalismo eletrônico, que se encontra em matéria na sede da Rua Mamoré.

Evidentemente, este abre serve de framework para o que segue. O editorial do Paraná Portal republicado no site do jornalista Aroldo Murá me causou certo desconforto em termos de validação do que faz tanto o jornal de Sandro Dalpícolo quanto o site Gazeta do Povo. Em primeiro lugar, que atire a primeira pedra a empresa jornalística sem processos trabalhistas.

A verdade é que a maior parte de nós, jornalistas, acabamos por viver um grande impedimento de desenvolvimento pessoal e financeiro quando pagamos pelo uso compartilhado de uma marca. “Ser Globo” tem um custo altíssimo. Os salários são uma merreca quase sempre e há de se desdobrar para fazer dois, três empregos que mantenham o aluguel e a conta de gás. O acordo coletivo de exclusividade da TV é um convite à informalidade. Mas a régua da legalidade, dos direitos trabalhistas, lembra Jesus: “tire a trave do seu olho, antes de falar do cisco do irmão”.

Ainda na canoa das questões corporativas, a depender dos critérios dos rankings (faturamento, número de correspondentes, produção própria, etc), a TV Globo figura entre os primeiros lugares no mundo. É maior que BBC, CNN, CCTV. Pergunto em que parte dos negócios de mídia a TV Globo e a maior de suas afiliadas, a RPC, passam pelo vale da sombra da morte. Esse dia pode chegar, mas claro como o cristal não é agora. Nas rodadas empresariais em São Paulo, a presença de egressos da RPC causa comoção, por se tratar do mais lucrativo grupo da categoria em todo o país.

Veja, eu não tenho nenhuma razão para falar bem da Gazeta do Povo que não seja esta: o jornalismo profissional não pode se esquivar de descrever a parcela direita e/ou conservadora de eleitores que existe no Paraná e no Brasil.

Costumo explicar que a capa da Gazeta e a home do UOL me causam o mesmo constrangimento. São forças da mesma direção, em sentidos opostos.

Colunistas como Alexandre Garcia dão um tom cômico ao noticiário, é o equivalente do José Simão, quem sabe, um Paulo Francis reprimido, sei lá. Sempre me pergunto se aquele senhor está devidamente medicado, eu me preocupo com ele, idade avançada. Junto a ele, tem outras figuras que de tão chatas não lembro o nome. Há uma necessidade de reafirmação intelectual, é preciso que mencionem um milhão de autores que jamais encontramos em nossas formações, muitos títulos de sebo, coisas que se mandaram encadernar nas copiadoras do Centro. Uma Torre de Babel teórica, algo realmente asqueroso do ponto de vista da civilidade acadêmica. Mas, ainda assim, uma retidão de propósito mais rara no UOL.

Não suporto mais ler sobre histórias tão específicas que de tão específicas parecem muito mais integrantes da guerra híbrida do que os devaneios da Gazeta. Exemplo: “Travesti se envolve em briga com idoso no meio da rua e homem sem os braços e as pernas desce da sua cadeira de rodas para ajudar”. Não dá. Insinuo que a “Dona Maria de Araponga” não tenha qualquer interesse sobre a causa LGBTQIA+, e que muito mais esteja interessada que o filho negro gay dela tenha vaga de emprego no mercado.

Além do mais, é necessário que alguns pontos de vista estejam sob o escrutínio público. O mais proeminente psicanalista de Viena temia o que se tinha feito da diferença entre cultura e civilização no começo do século 20. Para intelectuais germânicos, que se autoproclamavam herdeiros da literatura grega, as ideias de cultura se elevavam com Friedrich Nietzsche e Richard Wagner contra as concepções francesas e inglesas e desenvolvimento. Tal tacanhez de parte dos alemães serviu de suporte nacionalista para o progresso econômico alemão, serviu sabe para o quê? Para o Terceiro Reich. Quem, além da história e do jornalismo, poderá evidenciar diariamente riscos reais do impulso autodestrutivo do homem? Ou é melhor taparmos o sol com a peneira?

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