Meu pai e eu tomamos decisões importantes

Aos amigos próximos, avisei que podiam contar com meu pai e comigo na mobilização do governo Bolsonaro, neste Sete de Setembro. Bem em frente ao Palácio Iguaçu. A data, que é importante por ela mesma, tinha hoje contornos que eu quis contornar por mim mesmo. Sou repórter na alma.

No caminho para o Centro Cívico, ouvi as razões do meu pai para sair de casa, pegar trânsito, pagar estacionamento. Ele garantiu que não tinha a ver com o atual presidente, mas com um tipo injustiça generalizada no Brasil contra a qual se deve protestar. Isso não se confirmou.

Em linhas gerais, e talvez sem nenhuma excessão (pelo menos no que captei em filme), as faixas em português e inglês faziam defesa do presidente — da figura encarnada contra as frustrações nacionais —, e preferiam que o país terminasse em barranco: intervenção militar!

Se fui bem recebido pelos bolsonaristas? Meu Jesus Cristo! Só faltou que me oferecessem água. De resto, sorriram, posaram para a câmera, permitiram que eu fizesse imagens em cima do caminhão do som. Encontrei gente da igreja que me beijou e abraçou apertado e alegremente.

Na conversa que meu pai e eu tivemos no café, tentamos fechar um acordo. Eu reclamei para ele, basicamente, duas coisas. A primeira é que minha geração não entende obediência do mesmo jeito que a dele. E que qualquer coisa que a nós for imposta provavelmente será ignorada;

depois, voltei a reclamar, agora por fazer parte de uma geração azarada: Torres Gêmeas, cerimônias primitivas de assassinato (Hussein, Gaddafi, e muitas outras pessoas), crise imobiliária dos Estados Unidos, dois impeachments no Brasil. Ao que respondeu:

“Pois é, Vinícius, minha geração não parece com mais sorte. Eu vivi 64, depois a inflação do Sarney, Diretas Já, o confisco do Collor, o governo de Dilma”. Chegamos à conclusão de que nossa bandeira comum é, texto final, o aumento do poder de compra de alimentos.

“Assim como o planeta ainda orbita em torno de seu corpo central enquanto executa uma rotação sobre seu próprio eixo, assim também o ser humano individual participa no desenvolvimento da humanidade, enquanto segue seu próprio caminho na vida” (FREUD, 1930).

Contei a meu pai sobre um impasse terrível que vivi. Um homem se prestou a dizer: “se eu fosse o chefe, não demitiria um funcionário se ele fosse homossexual. Até porque eu nem teria contratado”. Fiquei com pena e nojo daquele homem. Meu pai: “Ele vai se eliminar sozinho”.

“Depois veio a claridade, o grande céu, a paz dos campos… / Mas nos caminhos todos choravam com os rostos levados para o alto
Porque a vida tinha / misteriosamente passado na tormenta” (MORAES, 1935).

1 comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *