‘Troca de calçada’: o sertanejo feminista e a ‘puta pobre’

Marília Mendonça, em edição fotográfica que a deixa de cabelo azul. Foto: Reprodução.

Faz uns anos, fui ao Superagui, no litoral do Paraná, para passar ano novo. Naquele época, a ilha ficava cheia de pessoas engraçadas. Tem cada história daquelas vezes. Mas uma que voltou com bastante força agora é a da mulher de cabelo azul.

Estávamos na praça principal da comunidade, uma área não maior que a sala de estar da maior parte das pessoas ricas que encontrei na vida. Bebíamos cerveja e cataia (uma pinga horrorosa que tem fama de ser alucinógena – mas é alucinógena mais por ser pinga do que pelas folhas acrescidas à receita).

Reduto de artistas, jornalistas e gente que não se aborrece com as condições simplíssimas de hospedagem e alimentação, não raro estavam ali quem escreveu com Paulo Leminski, outro que compôs com Ivo Rodrigues, uma infinidade de poeta domésticos, sempre alguém no violão. Foi quando, falando com desconhecidos, de novo, claro, disse que não gostava de música sertaneja. “Dessas novas”, recortei.

Uma mulher alta, magra, trinta e poucos, cabelo bem curtinho azul, às gargalhadas respondeu: “você sabia que o ‘fio de cabelo’ do paletó era um pelo íntimo?”. A gente riu bastante. Na sequência, ela, muito festivamente, contou sobre a música sertaneja, na opinião dela, ter um enquadramento exclusivamente masculino. “O homem é o protagonista o tempo todo. Se a mulher o rejeita, ele não respeita, vai atrás dela mesmo assim”.

Sertanejo feminista

Para a mulher de cabelo azul, as mulheres fazerem música no espaço que era exclusivamente dos homens era uma coisa boa, mesmo que, vá lá, as letras não sejam um ideal de beleza.

Guardei comigo. Eu precisava pensar sobre o assunto.

Anos mais tarde, nestes dias, caiu a ficha do quanto a música das mulheres faz um bem enorme para as minhas emoções, para minhas percepções de mundo. Quando ouvi “Troca de calçada”, de Marília Mendonça, lembrei de duas coisas.

Primeiro, das prostitutas da Visconde de Guarapuava, em Curitiba, que trabalham em uma calçada. Depois, do livro “A ralé brasileira” (SOUZA, 2009) que trata da “puta pobre”.

Letra de ‘Troca de calçada’

Assista à apresentação de Marília.
Se alguém passar por ela
Fique em silêncio, não aponte o dedo
Não julgue tão cedo
Ela tem motivos pra estar desse jeito
Isso é preconceito
Viveu tanto desprezo
Que até Deus duvida e chora lá de cima
Era só uma menina
Que dedicou a vida a amores de quinta
É claro que ela já sonhou em se casar um dia
Não estava nos planos ser vergonha pra família
Cada um que passou levou um pouco da sua vida
E o resto que sobrou, ela vende na esquina
Pra ter o corpo quente, eu congelei meu coração
Pra esconder a tristeza, maquiagem à prova d'água
Hoje você me vê assim e troca de calçada
Só que amar dói muito mais do que o nojo na sua cara
Pra ter o corpo quente, eu congelei meu coração
Pra esconder a tristeza, salto quinze e minissaia
Hoje você me vê assim e troca de calçada
Mas se soubesse um terço da história, me abraçava
E não me apedrejava

SOUZA, Jessé et al. A ralé brasileira: quem é e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009.

Filosofia contemporânea: o que gente real escreve sobre o real

Ilustração qualquer. A capa ainda é segredo nosso.

Em via de ser publicado, o livro Filosofia, Psicanálise & Contemporaneidade (vol. II) é uma leitura que tende a surpreender os que se habituaram a certa pasteurização cultural. E nos referimos diretamente a uma tendência de simplificação que chega a ser comovente, de tão banal. Mas, no nosso livro, não!

Nós, pesquisadores da linha Filosofia da Psicanálise da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), escrevemos ensaios com análises, interpretações, tensionamento de teorias prestigiadas, e oferecemos (com excessão do texto do Sgarbe, do meu próprio) uma experiência literária deliciosa.

A seguir, alguns trechos do que está por vir.

‘Desviados’ da igreja

A começar pelo trabalho do pesquisador Jeferson Costa. Ele é a força propulsora do livro. É quem não somente teve a ideia da publicação como também é a peça que liga os autores. Quanto ao uso filosófico da palavra “libertinus”, ele explica, “partimos da hipótese de que este sentido libertário se conservou, ao menos no interior dos contextos que abordaremos no escopo deste trabalho”.

Spoiler:

Libertinus é uma palavra de origem latina que indicava a condição de uma pessoa alforriada, ou seja, de alguém que trabalhou forçadamente para outra pessoa. Libertinus era uma categoria, sendo assim, que fazia referência às pessoas que se tornavam livres depois de terem sido escravizadas ou servilizadas por pessoas consideradas livres por nascimento. A categoria utilizada para indicar tais pessoas livres por nascimento era ‘Ingenuus’. Portanto, a categoria libertinus passou a definir a ação que visava metaforicamente a quebra das correntes ou a resistência às normas. Era assim que cristãos regrados definiam os desviados. Trata-se de um combate à ingenuidade, tanto em sentido lato como em sentido corrente.

Jeferson Costa, coautor de “Filosofia, Psicanálise & Contemporaneidade (vol. II)”.

‘Matam o pai’

Julio Fachini descreve uma relação peculiar do ato fundador da civilização. Ele trata da cumplicidade dos irmãos de sangue que assassinaram o próprio pai.

Spoiler:

Os irmãos, unidos pelo ódio comum, matam o pai, e celebram o feito com uma refeição, na qual o cadáver do pai é o alimento, devoram-no ‘cru, carne, sangue e ossos’ (FREUD, 2012, p. 214), em um rito canibalístico que sela o espírito de igualdade através da cumplicidade pelo ato.

Julio Fachini, coautor de “Filosofia, Psicanálise & Contemporaneidade (vol. II)”.

FREUD, S. Totem e Tabu (1913). In: FREUD, S. Obras completas, v. 11. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. 

‘Humano comum’

Quanto a mim, fui a Freud com novas perguntas sobre o mal-estar vivido na democracia contemporânea, com a generosa orientação de Dr. Francisco Verardi Bocca.

Escrevi coisas que, francamente, devem divertir a maioria de nós.

Spoiler:

Podem ser estranhos os graus de segurança factual nas ciências humanas, porque relativas, incontidas, carentes de pequenos e grandes caminhos escolhidos unicamente por quem escreve. No fim do dia, tem-se um humano comum, que acredita em coisas que até Deus duvida, que pode não estar nem aí para a técnica científica, que dirá para Freud e uma concepção de universo que não considere a necessidade de Nosso Senhor Jesus Cristo para o que é unicamente humano e terreno.

Vinícius Sgarbe, coautor de “Filosofia, Psicanálise & Contemporaneidade (vol. II)”.

Há muito mais autores, que logo chegam. Assim que o livro estiver prontinho para ser lido, criticado, negado, citado, e outras coisas da índole dos livros, eu aviso.

Daqui a pouco, vamos precisar de nossa ‘postura vitoriana’

Escrevi sobre o repórter, o jornalista que nasceu amaldiçoado por não ter qualquer outra opção que não seja ser jornalista, ter de “ostentar certa soberba”. É uma tradução horrorosa do original de Ivor Yorke, mas que tem a ver com certa postura vitoriana. Vamos precisar dela.

Nos últimos anos — talvez bem na última década —, a quantidade de “especialistas” que se atravessou nos assuntos da comunicação social (é um campo científico, sabe?), e somente nas redes digitais, mas nas decisões do jornalismo de grandes emissoras, olhe, não está no gibi.

O resultado a gente já sabe. O mundo está aqui, como está. Particularmente, acho que deu ruim, e vamos ter de “limpar a merda” (foi como uma vez um advogado se referiu ao tratamento de viciados em drogas, a sociedade teria de limpar a merda, segundo ele).

Não necessariamente por uma postura “ideológica” (ou mais aplicadamente econômica), concordamos que há certa pestilência entre o que nos oferecem como “bom” e a realidade de nosso poder de compra, por exemplo. Que mal-estar ir ao mercado, hein?

De volta à necessidade da “postura vitoriana” e também de perdoar. Cedo ou tarde, a maldade de nossos irmãos sobrevirá sobre eles. Perguntarão: “o que fizemos?”. E vamos conceder perdão irrestrito. Afinal, ao terminar deste dia, podemos precisar de perdão também.

Seminário de família alerta para uso que pais fazem do celular

Ana Maria Araujo de Venegas fala, em Curitiba.

Os impactos das tecnologias, das telas, na formação familiar e na educação infantil são destaque no 6º Seminário Internacional Família e Educação, agora mesmo, neste sábado (23). Em Curitiba, a lotação máxima permitida no Auditório Poty Lazzarotto do Museu Oscar Niemeyer está ocupada por participantes, e há também quem acompanhe pela internet.

Cinco falas são esperadas ao longo do dia. A primeira (Angela, já realizada) e a segunda (Ana Maria, em andamento) contornam o mundo pré-pandemia, quando se experimentava uma etapa de digitalização sem precedentes.

Para Ana Maria Araujo de Venegas (doutora em filosofia pela Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, Roma), os equipamentos e as conexões em rede criam uma nova relação do indivíduo com o mundo, pela qual um celular é capaz de nos ordenar: “encontre um Wi-Fi agora!”.

Em se tratando do que vivíamos antes do coronavírus, “a medicina desafiou a morte muitas vezes. A cada nova descoberta, passamos a viver por mais tempo”, relembra a palestrante.

Responsabilidade dos pais

Em entrevista ao Lab Jornalismo 2030, a secretária nacional da Família, Angela Gandra Martins (doutora em direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul), considera que os pais devem assumir responsabilidades em relação à educação dos filhos, porque são protagonistas na educação. Não se trata, porém, de controle hierárquico.

Estamos falando de um projeto de vida que os filhos livremente escolhem, e para o qual têm apoio dos pais.

Angela Gandra Martins, secretária nacional da Família.

No que tem a ver com o uso das tecnologias e com o eventual desequilíbrio em termos de tempo dedicado a elas, Angela pega alguns pais no contrapé.

Quando falamos do problema das telas, não falamos somente do que as crianças assistem, mas da preferência de alguns pais pelo celular em detrimento do convívio familiar.

Idem.

Para informações sobre o conteúdo completo, se há vagas ou não para hoje, ou outros assuntos de serviço, use o WhatsApp, neste link. A agenda do Seminário está aqui.

Isentão, sim; algum jornalismo há de servir de repertório

Foto: Brandon Wong.

Os franceses e os estadunidenses disputam a invenção do jornalismo há muitos séculos. Desde 1600 e pouco, o primeiro se foi estruturando no factual, e o segundo no colunismo, na opinião. Nesse caso, para cada pauta, é preciso fazer uma dosagem de que estilo serve mais.

Para trazer um caso prático, a partir da cobertura da pandemia da Covid-19: enquanto o noticiário de lead americano dá o número de mortos, informações sobre vacinação; o jeito europeu discute os efeitos invisíveis em crianças, a partir da pedopsiquiatria.

De fato, há muito das ciências sociais e da psiquiatria que serve à análise do comportamento público, político, dos que individualmente constituem, aí a formação de um conjunto, a opinião pública.

Mas apesar disso, existe, da parte da pesquisa em comunicação, uma crença de que ela deveria “se distinguir das outras ciências sociais e focalizar o aspecto comunicativo dos fenômenos, para não correr o risco de ‘psicologizar’ ou ‘sociologizar’ […]” (HANZE, 2004, p. 69).

Nesse sentido, a filosofia da psicanálise tem avanços quanto à não patologização das pessoas, mesmo no caso de doenças graves (é uma tábua de salvação intelectual no mundo das bolhas digitais!). Confesso este pecado: antes, eu mesmo fiz uma brincadeira estúpida com uma referência ao DSM-5, para contornar um político conhecido.

Suficientemente isentão

Depois de escrever algumas premissas anteriormente (que há contradições históricas sobre qual seria o melhor enquadramento; que a comunicação sabe andar por si mesma cientificamente falando; que pode haver saúde em opiniões oblíquas), passamos ao que nos interessa verdadeiramente: um jornalismo suficientemente isentão. Atenção! Polêmica! — risos.

Vinheta para momento polêmico do texto.

A gente vem de ridicularizar uma disposição básica do jornalismo profissional, qual seja a de buscar, em meio qualquer linha editorial, revelar não os “dois lados”, mas todos os lados possíveis de uma boa história. Para isso, é preciso um grau exigente de suspensão. “Onde há fumaça, há fogo”. Toda partícula, por mais polarizada ou até mesmo violenta ou ridícula, tem alguma coisa que faz sentido.

Sobrevivência do repórter

Agora, não precisamos fantasiar. Evidentemente, nossas experiências, as bagagens informativa e afetiva, hão de aparecer no texto da reportagem. É quando nos encontramos com o desafio ético do jornalista. Estas são algumas coisas que me ajudaram na formação de uma índole profissional (serviram a mim, não tenho a pretenção de que sirvam a outra pessoa).

  • Procurar pela história, e não por um “culpado” pelas consequências da história. Punir um criminoso é trabalho das polícias e da Justiça;
  • Jamais ridicularizar um entrevistado, ou retirar dele o direito de pensar. Podemos ajudar a “lapidar” a clareza, no máximo;
  • Fazer, no texto, o trabalho de um pesquisador: o quê? Quem? Como? Quando? Onde? Por quê?. O estilo vem sozinho e com o tempo;
  • Procurar por fontes que estão por perto na “vida real”. Quem lançou livro, quem fala espontaneamente sobre o assunto da pauta?;
  • Manter uma vida intelectual rica, a partir da discussão pública. Colocar os pontos de vista sob escrutínio, entre pares;

O jornalismo proposto aqui tende ao fracasso comercial absoluto. É de se pensar que, embora ele possa não alcançar o maior número de cliques ou de interações, ou sequer seja devidamente distribuído, pode, sim, chegar como paz para os espíritos mais nobres (em sendo nobres os que pensam o mundo em termos de milênios).

Disposição vitoriana

Jamais foi melhor hora, pelo menos em nosso jeito de ver, para o conselho de Ivor Yorke naquele brilhante manual de televisão: “o repórter tem de ostentar certa soberba”. A tradução é uma tragédia! A frase primeiro pega muito mal antes de pegar bem. Mas diz respeito a isto: uma certa disposição vitoriana, apesar do pânico apocalíptico das redes.

HANZE, Michael. A comunicologia segundo Vilém Flusser. Galáxia, 2004.