Isentão, sim; algum jornalismo há de servir de repertório

Isentão, sim; algum jornalismo há de servir de repertório.
Foto: Brandon Wong.

Os franceses e os estadunidenses disputam a invenção do jornalismo há muitos séculos. Desde 1600 e pouco, o primeiro se foi estruturando no factual, e o segundo no colunismo, na opinião. Nesse caso, para cada pauta, é preciso fazer uma dosagem de que estilo serve mais.

Para trazer um caso prático, a partir da cobertura da pandemia da Covid-19: enquanto o noticiário de lead americano dá o número de mortos, informações sobre vacinação; o jeito europeu discute os efeitos invisíveis em crianças, a partir da pedopsiquiatria.

De fato, há muito das ciências sociais e da psiquiatria que serve à análise do comportamento público, político, dos que individualmente constituem, aí a formação de um conjunto, a opinião pública.

Mas apesar disso, existe, da parte da pesquisa em comunicação, uma crença de que ela deveria “se distinguir das outras ciências sociais e focalizar o aspecto comunicativo dos fenômenos, para não correr o risco de ‘psicologizar’ ou ‘sociologizar’ […]” (HANZE, 2004, p. 69).

Nesse sentido, a filosofia da psicanálise tem avanços quanto à não patologização das pessoas, mesmo no caso de doenças graves (é uma tábua de salvação intelectual no mundo das bolhas digitais!). Confesso este pecado: antes, eu mesmo fiz uma brincadeira estúpida com uma referência ao DSM-5, para contornar um político conhecido.

Suficientemente isentão

Depois de escrever algumas premissas anteriormente (que há contradições históricas sobre qual seria o melhor enquadramento; que a comunicação sabe andar por si mesma cientificamente falando; que pode haver saúde em opiniões oblíquas), passamos ao que nos interessa verdadeiramente: um jornalismo suficientemente isentão. Atenção! Polêmica! — risos.

Vinheta para momento polêmico do texto.

A gente vem de ridicularizar uma disposição básica do jornalismo profissional, qual seja a de buscar, em meio qualquer linha editorial, revelar não os “dois lados”, mas todos os lados possíveis de uma boa história. Para isso, é preciso um grau exigente de suspensão. “Onde há fumaça, há fogo”. Toda partícula, por mais polarizada ou até mesmo violenta ou ridícula, tem alguma coisa que faz sentido.

Sobrevivência do repórter

Agora, não precisamos fantasiar. Evidentemente, nossas experiências, as bagagens informativa e afetiva, hão de aparecer no texto da reportagem. É quando nos encontramos com o desafio ético do jornalista. Estas são algumas coisas que me ajudaram na formação de uma índole profissional (serviram a mim, não tenho a pretenção de que sirvam a outra pessoa).

  • Procurar pela história, e não por um “culpado” pelas consequências da história. Punir um criminoso é trabalho das polícias e da Justiça;
  • Jamais ridicularizar um entrevistado, ou retirar dele o direito de pensar. Podemos ajudar a “lapidar” a clareza, no máximo;
  • Fazer, no texto, o trabalho de um pesquisador: o quê? Quem? Como? Quando? Onde? Por quê?. O estilo vem sozinho e com o tempo;
  • Procurar por fontes que estão por perto na “vida real”. Quem lançou livro, quem fala espontaneamente sobre o assunto da pauta?;
  • Manter uma vida intelectual rica, a partir da discussão pública. Colocar os pontos de vista sob escrutínio, entre pares;

O jornalismo proposto aqui tende ao fracasso comercial absoluto. É de se pensar que, embora ele possa não alcançar o maior número de cliques ou de interações, ou sequer seja devidamente distribuído, pode, sim, chegar como paz para os espíritos mais nobres (em sendo nobres os que pensam o mundo em termos de milênios).

Disposição vitoriana

Jamais foi melhor hora, pelo menos em nosso jeito de ver, para o conselho de Ivor Yorke naquele brilhante manual de televisão: “o repórter tem de ostentar certa soberba”. A tradução é uma tragédia! A frase primeiro pega muito mal antes de pegar bem. Mas diz respeito a isto: uma certa disposição vitoriana, apesar do pânico apocalíptico das redes.

HANZE, Michael. A comunicologia segundo Vilém Flusser. Galáxia, 2004.

1 comentário

  1. Obrigada Vinícius Sgarbe, por trazer informações, antes desconhecidas por mim. Por me levar a refletir o trabalho no jornalismo e conhecer mais você, como esse grande profissional que é.

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