Vamos patinar enquanto a pesquisa for positivista

Nas aulas de sociologia do Ensino Médio dos anos 2000 para cá, é provável que se tenha ouvido falar no “positivismo” de Auguste Comte (1798-1857). Bem basicamente, ele defendia que teríamos — você e eu — chegado a um nível racional que funciona exclusivamente no “agora”.

Para ele, as imaginações, as fantasias, teriam dado lugar aos “fatos” científicos. É aí que ele fica de um lado, e Sigmund Freud (e eu) de outro.

No entendimento freudiano, embora tenhamos chegado à camada “científica” de desenvolvimento, as coisas do ontem (em termos de evolução da espécie) fazem parte, sim, da vida. É o que chamamos de “fase anímica”. O que aprendemos caçando o almoço ou coletando frutas, lá no “Jardim do Éden”, está dentro de nós e em atividade.

Sabe quando você explica “racionalmente” algo para alguém, e parece que está falando com uma porta? Às vezes, desconfio seriamente tem a ver com a vida “anímica” do interlocutor. É quando a gente “sente” as coisas em vez de pensar sobre elas. Faço diariamente, quem sabe agora mesmo neste post.

Ao amor que me diz ‘foda-se o Instagram’, só penso em você

Uma pessoa em frente a uma janela. Foto: Harvey Robinson.

Hoje, nossa casa tem um cheiro gosto entre incenso “de igreja” (é como me vendem as pedrinhas na lojinha do Santuário) e amaciante de roupas. Apesar de jamais ter ouvido qualquer reclamação sobre fedor de cigarros aqui, sinto que aquela fumaça podre se havia impregnado a longo prazo. Parei de fumar.

Quando contei a Racca sobre o uso de adesivos contra o tabagismo, ele respondeu com uma gargalhada gostosa, disse “depende de onde se cola”. Logo imaginei a boca tapada por fita crepe. Teria sido mais barato que comprar remédio.

Sinto sua falta em todos os intervalos do meu dia. Enquanto encho a caneca de café, ou vou ao banheiro, ou nos caminhos de ida e volta para o almoço, ou quando tenho a ousadia cozinhar (se depender de mim, viveremos a base de coisas simples de preparar) — basicamente, meu dia são essas atividades intercaladas por trabalho —, só penso em você.

De uns anos para cá, caí em uma cilada terrível de parecer uma pessoa feliz. Isto é, acho que tomei por verdade a ideia de fazer coisas complexas, que demandam um tanto e meio de inteligência, como quem brinca com uma “mola-maluca” (lembra da mola-maluca?).

De qualquer maneira, não acho que os graus de dificuldade das coisas sejam assunto, embora eu esteja contando isso para você agora.

No geral, mulheres e homens que têm vivência profissional agem assim, mas não “enfeitam o pavão”. A cilada não é ter “autoestima humilde” (estou lendo um livro do Michel Esparza que é um soco na boca do orgulho), mas achar que tenho o desapego, a auto-suficiência, a felicidade do Instagram. Não tenho, você sabe — risos. Sei que uma parte do que você gosta em mim tem a ver com isso, de qualquer modo. Se eu pudesse, ficava só com você.

Por enquanto, as duas pesquisas que toco, em duas universidades, tomam uma energia descomunal do meu raciocínio. Em uma, sou convidado a olhar para o mundo de um jeito “desamparado”, que é na filosofia. Em outra, estamos todos em uma área de estudo nova e parece que ninguém sabe exatamente para onde está indo (e é exatamente esse o “campo”, a instabilidade da comunicação).

Não vejo a hora de encontrar você para não fazermos nada além das coisas que já fazemos, só que inteiros porque não nos faltamos. Sonho com você me dizendo que foda-se o Instagram.

Espero você sempre. Um beijo.

O ‘mal-estar’ estava aqui antes de Freud; nem tudo vira post

Na primeira terapia que frequentei na vida, com o psicólogo e professor de logoterapia Guilherme Falcão, acreditei que “uma aproximação com a ciência pode ser muito perigosa, enquanto um mergulho profundo nela não”. Eu tomei esse conselho por verdade.

Faço esse “abre” para defender que Freud e a visão unilateral, vienense, eurocêntrica e centenária dele podem soar estanhos quando vistos de longe. No fundo, acho que a psicanálise serve a alguns tipos de mulheres e homens como servem a pornografia e a conspiração a outros.

Encontro na literatura freudiana um contorno em palavras para coisas que eu já tinha descoberto por experiência própria. Não tem nada de novo, “não nos surpreende em nada”, como ele gosta de escrever. Mas é, sim, um alívio em um mundo que insiste em simplificação.

Falar idiomas, clareza no discurso, lead jornalístico, até mesmo os pitches de startups, tudo isso serve à comunicação social, mas não necessariamente à comunicação. Defendo que para certos aspectos da vida, o que não é publicado especialmente, um tanto de repertório é bem-vindo.

O azedume de Freud em “O mal-estar na cultura”, por exemplo, seria capaz de gerar mal-estar no leitor? Claro que não. Acreditar que esse tipo de leitura “dá ideias” ruins é uma ideia ruim. O fato é que é uma biblioteca plural, rica, dá conta de desfazer eventuais excessos.

Semana passada, um amigo próximo me disse para não dar tanta importância ao que se defende não somente a ciência, mas a racionalização como um todo. E faz sentido, porque a vida pode ser um pouco mais gelatinosa, no excelente sentido de molinha, doce, colorida.

Internet 7 x 1 em 5 séculos de pesquisa em jornalismo

Dou-me por vencido quanto ao “manual de redação” da internet, pelo qual o robô, burro que é, não entende português com voz passiva. “Um caminhão de maconha foi apreendido” virou “A polícia apreendeu um caminhão de maconha”. 5̶ ̶s̶é̶c̶u̶l̶o̶s̶ ̶d̶e̶ ̶p̶e̶s̶q̶u̶i̶s̶a̶

Mas não somente isso, infelizmente. Parei de implicar com os “detalhes” que me oferecem nos telejornais. Os âncoras dizem “agora todos os detalhes”. E eu pensava “mas não são ‘informações’?”. Agora, assisto aos “detalhes” e deixo passar batido.

Sem contar ainda a péssima conjugação do imperativo. É “acesse” o site. E não “acessa”. A menos que haja mudança de tempo verbal. “Você acessa o site para saber quando o mundo vai acabar de vez”, por exemplo. Mas quer falar errado? Beleza. Fale mascar chicrete também.

Confundir fé e Estado também é democracia, defende artigo

“‘Um fantasma está atormentando o mundo — o populismo’. Os cientistas sociais Ghita Ionescu e Ernest Gellner notaram isso há 50 anos”. E, no ano passado, os pesquisadores Celso Gabatz e Rudolf von Sinner escreveram um artigo provocador que pergunta: afinal, quem é o povo?

Para os autores de “Populismo e o ‘povo’: precariedades e polarizações como desafio para os direitos humanos na perspectiva de uma teologia pública na contemporaneidade“, é difícil encontrar uma definição precisa quer para ‘povo’ quanto para ‘povo de Deus’.

Eles debatem sobre o papel das igrejas evangélicas que amalgamaram à fé uma certa percepção nacionalista que comunica: “se você não estiver conosco, então você é contra o Brasil”. No contrapeso, o texto tem uma visão otimista. Isso tudo ainda seria democracia.

Defender a infância é uma ação de todo dia, não de memorial

Caiu no meu colo o Plano Decenal dos Direitos da Criança e do Adolescente do Estado do Paraná (2014-2023), com 450 páginas. Minhas impressões começam pelo revés: antes de dar nomes às pessoas que realmente colocaram a mão na massa, vem uma lista infinita de políticos. Chato!

Em tendo superado esse trecho, o que se lê é um deleite para acadêmicos, gestores públicos e defensores da infância. São informações claras a ponto de se anotar: “sobre tal assunto não temos informações”. Mas me permita contar o motivo do meu comentário.

Embora a tal lista de políticos me cause certa náusea (pela hierarquia invertida das coisas, o mérito é dos técnicos que escreveram, primeiro vem o nome do autor!), a assinatura deles é essencial.

Não somente a assinatura, mas um comprometimento que passe por isto: a legislação não muda a realidade, planos não mudam a realidade, mas a ação diária muda, sim.