O ‘mal-estar’ estava aqui antes de Freud; nem tudo vira post

Na primeira terapia que frequentei na vida, com o psicólogo e professor de logoterapia Guilherme Falcão, acreditei que “uma aproximação com a ciência pode ser muito perigosa, enquanto um mergulho profundo nela não”. Eu tomei esse conselho por verdade.

Faço esse “abre” para defender que Freud e a visão unilateral, vienense, eurocêntrica e centenária dele podem soar estanhos quando vistos de longe. No fundo, acho que a psicanálise serve a alguns tipos de mulheres e homens como servem a pornografia e a conspiração a outros.

Encontro na literatura freudiana um contorno em palavras para coisas que eu já tinha descoberto por experiência própria. Não tem nada de novo, “não nos surpreende em nada”, como ele gosta de escrever. Mas é, sim, um alívio em um mundo que insiste em simplificação.

Falar idiomas, clareza no discurso, lead jornalístico, até mesmo os pitches de startups, tudo isso serve à comunicação social, mas não necessariamente à comunicação. Defendo que para certos aspectos da vida, o que não é publicado especialmente, um tanto de repertório é bem-vindo.

O azedume de Freud em “O mal-estar na cultura”, por exemplo, seria capaz de gerar mal-estar no leitor? Claro que não. Acreditar que esse tipo de leitura “dá ideias” ruins é uma ideia ruim. O fato é que é uma biblioteca plural, rica, dá conta de desfazer eventuais excessos.

Semana passada, um amigo próximo me disse para não dar tanta importância ao que se defende não somente a ciência, mas a racionalização como um todo. E faz sentido, porque a vida pode ser um pouco mais gelatinosa, no excelente sentido de molinha, doce, colorida.

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