Repórter, neste teu dia te lembro que aqui tá tudo mato

Tá tudo mato ainda. Foto: Sebastian Unrau.

O post do jornalista Fernando Rodrigues é um belo de um refluxo no Dia do Repórter. Daqui para frente, integra meu cânone sagrado da profissão, tal qual uma carta paulina que tem lá suas dissonâncias.

O jornalismo, ainda que não se valha da Teoria Crítica, a partir da qual se pode nomear inúmeros fenômenos e comportamentos, ou de qualquer outra teoria, tem nele um olhar para o mundo que faz perguntas objetivas, dentre as quais “por que existimos?”.

O repórter do futuro, ao contrário do pornográfico (HAN, 2017), terá de, antes de discussões muito elaboradas, voltar-se para o vocabulário. É como se os icônicos vícios “veranistas” ou “foliões” tivessem saído do controle.

O acesso a produtos culturais modestos, como os oferecidos por influenciadores digitais, ou mesmo programas bem produzidos de televisão com hipérboles que não terminam jamais, ou as paupérrimas rimas sertanejas sobre um amor obstinado quando não violento, deve integrar o repertório. Mas, quando esses elementos são os únicos óculos para se ver o mundo, não há boa comunicação, que dirá jornalismo.

Quando U2 lançou o álbum “No Line On The Horizon“, comentei com uma amiga compositora que o tinha considerado triste, mais triste que o anterior, lá em 2008. A resposta dela me marcou: “não estamos melhorando”.

Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos 

Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas 

Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade 

O dia da criação. Vinicius de Moraes.

Nosso ofício requer de nós mais profundidade, e não menos. Requer mais empatia verdadeira, não uma fala superficial sobre um assunto que eu até nem concordo tanto mas te entendo (na verdade não entende nada).

Suicídio de idosos, superação do luto, depressão infantil, pornografia como doença, violência bancária são alguns dos temas que vão estar no agenda-setting, amanhã. E não devem ser tratados com trocadilhos bobos.

Mais assim: “Agora que sou um homem completo, estou cheio de vazios”.

Força, repórteres. Aqui continua tudo mato.

Referências
HAN, Byung-Chul. Sociedade da transparência. Editora Vozes, 2017.

Carta a Benjamim, o menino que driblou a cesariana

Esta imagem não corresponde à aparência de Benjamim. Foto: Toni Cuenca.

O médico Henrique Alvaro Hoffmann cuidou de uma gestação extraordinária. Resumindo, o neném estava ganhando peso devagarzinho, e houve quem aconselhasse “marque a cesárea”. Não era, nem por um segundo, a vontade da grávida.

Outro pé, pesquisas recentes davam a Benjamim a chance de, no tempo dele, sair por conta própria. O doutor apostou na ciência e deu boa.

Veio ao mundo para seguir a tradição de se obedecer a gritos de mãe. Ah, ah, ahhh. Ploft na maca, e nhééé.

A história comoveu tanto que escrevemos uma mensagem. O escritor Luca Rischbieter saiu com “tomara que o piá fique analfabeto, para não precisar ler esta carta”. Em seguida autografou uma coleção de livros que provavelmente são a primeira biblioteca do rebento.

Ficou assim.

Benjamim, não temos a menor ideia de quantos anos vai durar o mundo, e a volta de Jesus Cristo é incerta. Vão te apresentar muitos jeitos de superar essa dúvida, experimente todas, retenha o que é bom.

Ouça boa música. Elas podem te dar coragem para os momentos difíceis. Você vai saber bem quando esses momentos chegarem. De uma altura em diante, você não sabe se foi você quem escreveu as músicas dos outros compositores. Provavelmente foi. A tua imaginação tem o poder de transformar teu mundo. 

A indústria fonográfica e a obesidade são efeitos colaterais da dominação dos Estados Unidos no ano do teu nascimento. Evite pedir dois sanduíches nas lanchonetes, e jamais o combo com fritas e refrigerante grandes. 

Se você aprender a plantar qualquer coisa na terra e a cozinhar meia dúzia de receitas, estará pronto para cuidar dos outros. Nisso não tem segredo. 

Junto a esta carta te enviamos um livro sobre a conservação do planeta. O autor, Luca, é teu amigo também. 

Para identificar as pessoas que vão te ajudar a viver, tem aqui um macete infalível: você as encontrará trabalhando. Pode ser um diagramador, um médico ou até mesmo um bombeiro. Além dessas pessoas, você sempre terá tua família. 

Não importa quem você seja ou faça, contanto que esteja sempre perto das pessoas que te deram a vida. Teus pais sempre serão maiores que você. Se você levar isso a sério, pode esperar a mesma medida dos teus filhos. 

Ter filhos é um ato de bravura. Quando você menos espera eles estão lá, nascendo em outra cidade. Um homem poderoso, Benjamim, é pai de países inteiros. 

Quando a agonia da escola te aborrecer, lembre que todos nós sobrevivemos às provas e às reprovações. Não costumam nos avisar com frequência, mas a verdade é que fracassar é parte do que nos define como homens. Às vezes fracassamos miseravelmente. 

Para as horas de miséria, certifique-se de ter teus melhores amigos mais chegados que irmãos. Eles vão chorar por tuas tragédias, mas somente antes de te lembrar do mimado que você demonstra ser. Viaje com eles. Não tem escuridão que não se ilumine quando se vai à praia com os amigos. 

A vida não pode ser boa ou má, ela é vida, não precisa de nenhum adjetivo, nenhum título. 

Escreva cartas. Visite idosos. Seja merecedor do bastão que eles vão te passar. 

Um brinde a tua vida, Benjamim! Você é muito amado! 

Henrique A. Hoffmann e Vinícius M. de C. Sgarbe
16.jan.2021

Eleições do Congresso são sinal da saúde da democracia

Arthur Lira (PP-AL) é eleito presidente da Câmara dos Deputados. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Discordo da opinião da Folha de S. Paulo que considera a eleição de Arthur Lira (PP-AL) para presidente da Câmara dos Deputados “retrocesso intolerável” (1º.fev.2021, A2, “Risco de servilismo“). Os legisladores escolherem tal presidente é, ao contrário, avanço dos limites que somos capazes de suportar na vida pública.

Para o contribuinte, que não teve nos impostos diminuição na proporção da escassez de serviços de saúde e das possibilidades de trabalho, resta votar nas eleições que compõem o Congresso.

Os movimentos sociais como compreendidos pelos estudos da comunicação política da Europa e dos Estados Unidos têm foco no legislativo. A glória desses movimentos é alcançar a legislação. Ou seja, a Câmara e o Senado seriam, pelo menos na teoria, o grande palco para as questões da vida cotidiana.

Não tem sido assim. O ódio coloca o Executivo no centro da atenção e imobiliza causas urgentes.

Atualmente, 16 requerimentos de comissões parlamentares de inquérito (CPI) tramitam na Câmara, três relativos a exploração sexual infantil, turismo sexual e tráfico de pessoas.

O deputado André Figueiredo (PDT-CE) propôs a criação de CPI “destinada a investigar a violação dos princípios constitucionais e do Estado Democrático de Direito, em razão da suposta articulação entre os Membros da Procuradoria da República no Paraná e o então Juiz Sergio Moro da 13ª Vara Federal de Curitiba, tornada pública pelo site The Intercept [sic]”. O último despacho vai fazer aniversário de um ano amanhã.

Que o Congresso se apequena ao presidido nas duas casas por desconhecidos — por reis do baixo clero — era de se esperar. Os deputados e senadores são do nível de Jair Bolsonaro.

A vida política vem ladeira abaixo, com pautas de costumes que lembram uma igreja evangélica pentecostal, mais pela disputa de cargos do que pelo comprimento da saia.

Objetividade marca redação do ‘Bem Paraná’, no teletrabalho

Foto: Ketut Subiyanto.

Ao ensinar que “lugar de repórter é na rua“, a professora de comunicação social Nadia Fontana abriu a primeira aula do curso de jornalismo da PUCPR, no segundo semestre de 2005. Os alunos que foram trabalhar em redações, especialmente as de rádio, logo perceberam que ela tinha razão. Não raro, as pautas estavam no caminho, não anotadas anteriormente.

Um dos prazeres da prática jornalística é, entretanto, a volta para a emissora. É quando se pode contar, da maneira mais simples e genuína, a experiência de campo. As percepções dos colegas contribuem para a escolha do que é principal.

A pandemia de Covid-19 mudou um pouco as coisas também para jornalistas, uma vez que alguns atuam de casa.

A editora-chefe do jornal Bem Paraná para as versões impressa e digital, Josianne Ritz, concedeu entrevista ao Lab Jornalismo 2030.


Josianne Rits. Acervo pessoal.

Vinícius Sgarbe: Quero entrevistar um jornalista em home que não esteja deprimido. Conhece algum (risos)?

Josianne Ritz: Olha, eu sinto falta do fuzuê. Mas tô bem adaptada. O que era ruim no começo não é mais. Eu me sinto segura. E, assim, não montei espaço especial, para manter o clima de fuzuê. Fico na sala, com todos.

Vinícius: Além dos assuntos da pandemia, tem algum tipo de pauta que você nota que entra agora e que não entrava antes?

Josianne: Acho que, de modo geral, a demanda de reportagens de saúde cresceram. Mas tudo meio acaba em pandemia, tipo dicas de home office, volta às aulas.

Vinícius: Alguma coisa mudou na sua relação com os repórteres?

Josianne: Transferimos o contato para online. Eu diria que o engajamento e produção aumentaram no home office. Não sei bem o porquê. Geralmente combinamos tudo on-line. Só em alguns casos mais complicados chego a ligar. Eu temia que a parte de fechamento do impresso, por causa da diagramação, poderia complicar. Mas estamos fechando até mais cedo. O entrosamento é meio atípico, porque trabalhamos há muito tempo juntos. A maioria há mais de 20 anos. O Rodolfo Kowalski, mais jovem, está há oito anos, entre estágio e reportagem. Isso facilita muito. Temos objetividade, entrosamento total.

Jornalismo pode falar de assuntos difíceis como a dor

Flor morta. Foto: Marco Ortega.

No próximo dia 29, encerro um ciclo no papel de âncora de radiojornal. A convite do criador do “Saúde e bem estar” da Rádio Cidade 670 AM de Curitiba, João Arruda, marquei ponto no ar, de segunda a sexta-feira, das 10h ao meio-dia.

A experiência na rádio AM é linda, porque os ouvintes participam com mensagens de áudio enviadas pelo telefone, quando não entram ao vivo. Gostei de recebê-los com o simples “alô, quem fala?”.

Levamos ao estúdio, em parceria com o Conselho Regional de Psicologia do Paraná, profissionais para falar de luto e depressão. Mas se a ideia do programa é ser leve, como não aborrecer a audiência com temas que parecem cortar a polpa dos dedos com papel? Nossa resposta é: ir direto ao ponto, como a vida costuma ir.

Quando a conversa foi sobre perdas — que são várias, e em diferentes profundidades de dano — , Dayane Bubalo estava no estúdio.

Fiquei cega em 40 minutos.

Dayane Bubalo, ativista da causa da pessoa com deficiência.

Uma semana antes, o oftalmologista do Hospital IPO Luiz Eduardo de Aguiar Marques havia expressado a preocupação dele com o silêncio da retinopatia diabética, a doença que cegou Dayane.

Misael perdeu um filho

Enquanto a psicóloga Mari Mansur falava sobre as etapas do luto, ligou o ouvinte “Misael” (entre aspas pela incerteza da grafia).

Há um ano, perdi um filho. Nunca falei desse assunto em público, em redes sociais, nada, mas quis contar para vocês. Eu também perdi dois amigos para a Covid-19. Usem máscaras.

“Misael”, ouvinte da Rádio Cidade.

Com coragem para o simples

No programa sobre depressão, perguntei ao psicólogo Flávio Voight Komonski bem assim: “afinal de contas, o que acontece quando a gente vai à terapia, como que é?”.

Ele respondeu de maneira tão amigável que recebemos uma mensagem de voz que agradecia pelas palavras, “porque terapia não é só para quem está louco, não!”. Claro que colocamos no ar.

E não ficamos nisso. Deu tempo para discutir o que são abordagens em psicoterapia.

Notícia origina pesquisa sobre Louceiras do Maruanum

Louceira queima panela. Foto: Célia Souza da Costa.
Célia Souza da Costa*.

A notícia é uma forma incrível de popularizar assuntos, de simplificar o complexo, de expor temáticas variadas através de textos, imagens e sons. Essa é a magia do jornalismo, chegar onde não conseguimos e ecoar os acontecimentos.

Como uma ciência social, o jornalismo tem uma função social de popularizar as informações, e, assim, despertar a curiosidade nos receptores, ouvintes, telespectadores.

Isso aconteceu comigo, quando ainda não conhecia as Louceiras do Maruanum. Foi em uma reportagem que o click da curiosidade foi acionado. Lembro muito bem quando pela primeira vez ouvi falar sobre as Louceiras do Maruanum, logo decidi que precisava conhecê-las, e fui pesquisar.

Com o conhecimento teórico e visita de campo em 2011 estava decidido: iria pesquisar sobre o patrimônio cultural das Louceiras do Maruanum. Eu tinha acabado de ingressar no mestrado com uma proposta de pesquisa sobre a tradição do barro no Maruanum.

De uma reportagem surgiu a minha temática de pesquisa que por dois anos seria o centro, o objetivo a ser conquistado, com o foco no princípio da equidade intergeracional. 

As louceiras do Maruanum são mulheres quilombolas, amazônidas e ceramistas que residem no Distrito do Maruanum pertencente ao município de Macapá no Estado do Amapá.

Elas receberam das gerações passadas a tradição do criar-saber-fazer das louças de barro, da cerâmica do Maruanum. Todas as etapas do fazer das louças de barro são realizadas de acordo com os ensinamentos intergeracionais baseados em rituais, crenças e com o profundo respeito à natureza.

Tese sobre Louceiras do Maruanum

Passado o mestrado, o desafio seria outro: o doutorado. A pesquisa sobre as Louceiras do Maruanum continuava por mais quatro anos. Como pesquisadora, desde esse tempo busco dar visibilidade ao patrimônio cultural das Louceiras do Maruanum.

Foi na tese doutoral que propus estratégias educacionais para a conservação da tradição ceramista do Maruanum. Desse modo, essa pesquisa científica teve um papel fundamental ao oferecer alternativas à resolução de uma problemática das comunidades detentoras desse patrimônio cultural.

Volto à defesa de que o jornalismo tem uma função social na divulgação da pesquisa em patrimônio cultural. Tanto que busco oportunidades na imprensa para que as Louceiras do Maruanum falem sobre a tradição ceramista, para que eu fale sobre a pesquisa e para que haja a reverberação do conhecimento ancestral matriarcal que é a louça do Maruanum. Pois, não basta pesquisar e defender a tese. A pesquisa científica assim como o jornalismo também tem uma função social com as comunidades envolvidas.

Célia Souza da Costa, Curitiba, 2020. Foto: Vinícius Sgarbe.

*Célia Souza da Costa. Doutora em educação. Mestra em direito ambiental e políticas públicas. Pesquisadora sobre o patrimônio cultural das Louceiras do Maruanum. Palestrante.

Pessegueiro do campo morre ao ser atingido por raio

Jorge dá aula de botânica básica.

No terreiro das galinhas, encontro Jorge vestido para a roça. Ele desfere golpes com o facão, contra os pés de guanxuma que serviriam para a saúde do cabelo quando não amontoados no papel de praga que vale mato seco.

Finalidades adjacentes tendem a viver pouco no mato. Se quer guanxumas para usar no cabelo, que as plante e cuide delas. Agora, aqui, no terreiro das galinhas, daninhas, crescidas a partir de caules com um dedo de calibre, teimosas ao arrancar, não.

A seca mata árvores em Campo Largo da Roseira. Os troncos e galhos maiores vão primeiro para o chão, depois para a pilha a ser cortada, e, finalmente, encontram o cepo. Finalmente, porque dali em diante o destino é o fogo que sequer é eterno. É um foguinho de fogão que uma criança da cidade opera como atividade recreativa. De árvore que muda o mundo a brinquedo esdrúxulo. É preciso, meu Deus, cuidar da natureza.

E quando a chuva vem nervosa. Um raio parte ao meio o pé das ivaís, Eugenia myrcianthes, gostosas no paladar das éguas. O pessegueiro do mato tem folhas e margens do limbo inteiras, filotaxia oposta. As frutinhas são amarelinhas como araçá.

Quando morre, os galhos ficam em cima das outras árvores por um tempo, mas, cansadas do desaforo, largaram o serviço.

Jorge.

Os sons da manhã de sábado são parecidos com os de qualquer outra hora ou dia, exceto pelo estrondo das roçadeiras a gasolina. Há um grande acúmulo de maquinário ruidoso na paz do campo. O que um pressurizador de água ou um aspirador de pó são na cidade as roçadeiras são no Campo. Sinfônicos cantam os pássaros, os cachorros, as folhas e os sinos de gado.

Nós, intelectuais (eu, hein), palavreamos com o mundo

Analogia.

A profissão repórter é aprimorada nas ciências humanas. Mas logo me vem a ideia do meme da Milena que quer vender a arte dela na praia. Não nos enganemos. O jornalismo pode contornar momentos difíceis da economia e de lapso no prestígio público, se enxergar além dos views ou gargalhadas.

Não se trata de estar desconexo, porque estou conectado à verdade de que o jornalismo é predominantemente praticado por intelectuais, e posso provar.

Na sexta série, tive apreço pela amizade de Cléber. Era um tipo parecido com o que eu trazia na boa memória da escola anterior. Na falta de algo melhor, escrevi uma carta que mudou o coração dele, e conquistei uma amizade eterna até a oitava série.

Todos aqueles pensamentos aparentemente independentes de ti estavam, desde o início, comprometidos pelo teu veredicto desfavorável.

Franz Kafka, em “Carta ao pai“.

Se nem sempre minhas cartas tiveram sucesso como bilhete, que dirá valor literário. Fiz pares de cagadas com cartas que graças à senilidade não lembro de ter enviado, mas enviei. Os poemas, que dó.

Dos poemas, para todos os efeitos, sinto certa vergonha.

Estágio de convivência

No Ensino Médio, consegui um estágio com Gibran Khalil, isto é, as jornalistas Nara Moreira e Mary Hellen Woche me apresentaram às contemplações bem escritas do autor libanês. Aprendi rápido a tomar vinho branco em vernissages que tinham serviço, e a tomar doses duplas antes das que não tinham. Quanto poema de jurista, quanta pintura de pano de prato!

Chego à conclusão de que livros são como vinhos: bom é o que eu gosto de ler.

Antes da faculdade, eu me aventurei em muitas leituras que deram errado. O maior símbolo, talvez, tenha sido começar o “Evidência que exige um veredito“, de Josh McDowell. Tinha, sei lá, estava na quinta série. Também abandonei o “Divina comédia” (enganado pelo título engraçado), ou mesmo o “Crime e castigo” quando tinha mais idade.

Fui displicente quanto à bibliografia universitária, com a perene desculpa de ter-me inclinado à prática profissional, quando preferia trabalhar de graça na mais desgraçada redação a fazer lição de casa.

Minha história é comum da juventude inteligente e inquieta. Um momento ou outro esbarrei com um pessoal que não é muito afim da literatura ou, pelo contrário, faz da conversa um Passa ou Repassa com nomes de autores – uma cafonice! Mas fiquei muito apegado ao próximo episódio.

‘Nós, intelectuais’

O jornalista e historiador Nilson Thomé (que deu à Sonia Bridi uma coluna estudantil por três anos) tinha comigo um hábito curioso. Ele dizia “nós, intelectuais, Vinícius…”. E eu me perguntava “quem, intelectuais?”. Foi o jeito dele impulsionar em mim a desvergonha de gostar de ideias, remodelá-las e apresentá-las novas – tal qual é a ciência (parafraseando Montesquieu em “Cartas persas“).

Nós, intelectuais, podemos nos orgulhar de ser de humanas, de acreditar no desenvolvimento humano, e de desfazer mediocridades ao palavrear com o mundo.

Foto: archi archiba.

Pela volta do sublime na internet, menos pornô

O que se presume.

A infodemia é uma desgraça adjunta da Covid-19. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ignorância quanto à utilização de vacinas pode significar vida ou morte.

Mas se pode tensionar um pouco essa questão, porque navegar pela internet equivale a lamber o chão de uma UTI purulenta.

Nossas almas podres se tornam preocupação da psicologia social, pela qual se pode classificar parte de nós como falecida. E quem está vulnerável?

Perto do Instagram, o Xvideos é ingênuo. Estou em meio a uma leitura embaraçosa do livro “Sociedade da transparência“, do filósofo Byung-Chul Han. Inicialmente, pensei que, pelo título, ele me levaria a garantir as bandeiras da sociedade civil organizada quanto à publicidade de gastos públicos, ou algo nesse sentido. Mas, não.

O autor passa longe de discutir política diretamente, e me faz refletir sobre o quanto rasas são as imagens que acesso nas redes digitais.

Lembremos que é uma discussão filosófica. Se todos forem transparentes, logo, todos são iguais no ser transparente. A exibição é a produtificação, a mercadoria é um ser humano.

Limpar a sujeira das bolhas

Quando me recomendaram assistir ao documentário “O dilema das redes“, fiquei com uma preguiça danada. Tudo que eu “tenho” que assistir, que eu “não posso perder”, é frequentemente uma hipérbole da geração do milênio para uma coisa qualquer. Batata.

Eu me pergunto sobre a candura de quem não viu o Google começar o desenho das bolhas sociais quando passou a apresentar resultados diferentes para os mesmos termos de busca. Uma forma menos alombada do que viria a ser o algoritmo do Facebook – um tipo de molho especial americano que ninguém sabe a receita.

Sem a insolência de uma recomendação moral, mas em um movimento pela volta do sublime, penso que seríamos mais felizes em 2021 sem encontrar na internet mulheres experimentando chá de cookies.

Foto: Vinícius Sgarbe.