Votar consciente vale fora da eleição

Com a colaboração de Maku Almeida.

O voto consciente depositado na urna eletrônica diz respeito a decisões que tomamos ao longo do ano. Tem a ver com participar da agenda governamental, participar das decisões. Essa consciência não é o rito de desenterrar e enterrar o título eleitoral a cada dois anos. É, muito mais, um movimento de consciência cívica.

Assista à live.

O custo da ausência de civilidade – no aspecto amplo de participação – é alto para o núcleo familiar, para a comunidade, para a ação profissional, para todos. É uma provocação instigante pensar que repassar ou não informações úteis diariamente impacta na construção das cidades.

Estamos até a tampa de discutir notícias falsas e há dessa categoria para todos os gostos. Costumam chegar travestidas de boas notícias, eventualmente com rigor técnico. E não raro nos valemos das manchetes para dar garantias ao nosso ponto de vista.

É uma decisão de sabedoria passar ou não para frente o que sustenta minha visão de mundo. E nem sempre minha visão do mundo corresponde à realidade objetiva do mundo. Ficamos submersos, afogando-nos, em nossas bolhas.

Notícias erradas não são coisas nova. Talvez esteja hoje mais moderna, animada. Foi da índole alemã da Segunda Guerra enviar notícias falsas às tropas aliadas. A divulgação de informações oficiais, governamentais, bem aparadinhas, estava nesse pacote.

Neste momento de provação, fica claro que a decisão de uma pessoa impacta diretamente o outro. E não somente em relação à pandemia, mas em coisas corriqueiras, como passar fake pra frente.

Foto: Elijah O’Donnell/Unsplash.

A vantagem do texto

Para fumar um cigarro de sábado na sacada, saí debaixo do acolchoado de lã de carneiro. Faz frio em Curitiba, o vento canta ziiiii na janela do décimo segundo. Distante cerca de sete quilômetros, vi a cidade dividida por um céu azulado e por uma nuvem terrível de obscura. Pensei que dava uma foto. Não. Que para contar tinha de ser um vídeo. Um vídeo com duas cenas, pelo menos. Não. Aqui tem a historinha landscape e mais coisas. É a vantagem do texto.

A Justiça quer reatar

O habeas corpus negado à deputada estadual Clarissa Técio pelo o fim do lockdown em Pernambuco serve como um convite para reatar, da parte da Justiça. Nem tanto pela decisão em si, mas pelo texto que a acompanha. Começa que “a deputada não tem legitimidade para representar”.

O ministro Rogerio Schietti Cruz não fez cerimônia para escrever que Clarissa ignora a gravidade da Covid-19, especialmente no estado dela, onde, até a data da publicação, 1.741 pessoas tinham morrido. Sobre o isolamento, compara Bolsonaro a Trump (EUA é o país mais atingido).

Cruz: “Em nenhum país (…) ministros responsáveis pela pasta da saúde são demitidos por não se ajustarem à opinião pessoal do governante máximo da nação e por não aceitarem, portanto, ser dirigidos por crenças e palpites”. Poxa, Clarissa, deu problema seu post no STJ.

A deputada do PSC foi instruída para deixar o assunto no qual se meteu ao “Ministério Público, partido político com representação no Congresso Nacional, organização sindical, entidade de classe ou associação e defensorias públicas”.

Fotos: Rogerio e Clarissa. Divulgação.

Francischini vigia (errado) asfalto de Greca

Justiça seja feita, Rafael Greca (DEM) é um animal quando o assunto é asfalto, mas a empresa fornecedora não é da família dele nem há nexo entre o prefeito e a contratação. Para ser prefeito de Curitiba, Fernando Francischini (Solidariedade) dispara vídeos que são a expressão perfeita do “pesar a mão”. Greca Asfaltos existe há mais de 60 anos, e tem o governo do estado e a cidade como clientes. É uma das maiores empreiteiras do tipo no país.

No peça que associa o prefeito à essa empresa, as informações são parcas, fundamentadas pelo destino de um mesmo nome, “Greca”. Duas fontes confirmaram que a distribuição é feita pelo “deputado campeão de votos”. Ela força a barra, na obstinação por vigilância e punição policial. O tom autoritário é perturbador.

Francischini não parece ter entendido o que é sociedade civil organizada. Civil que é, tende a seguir à cartilha de Max Weber quanto ao monopólio da violência. Mas, chega de Lava Jato. Deu ruim.

Voltando ao vídeo. Pela lógica do ex-delegado, eu seria herdeiro de qualquer empresa com o nome Camargo. Não se pode desqualificar o caminho torto, velho e baixo que uma notícia falsa dessas perfaz, especialmente quando propagada por alguém que o povo confiou tantas vezes.

Fotos: Greca (à esquerda), e Francischini. Divulgação.

Chegou a hora de prantear os mortos

Nas próximas horas, chegaremos à marca de 20 mil mortos pela Covid-19 no Brasil. Nesta amanhã, a primeira mensagem que li no celular tinha um gráfico cuja linha ascendente não demonstra qualquer arrependimento. Vai para cima impune, sem saber o nome de ninguém, a profissão, se tinha filhos, se preferia gato ou cachorro, se gostava de comer a bundinha quente do pão saído do forno.

Estamos sendo liquidados. Como não ficar triste com uma coisa dessas? O cânone brasileiro guarda consigo um paradoxo. Nossas famílias, com poucas excessões, são de origem monoteísta – muçulmanos, judeus, cristãos – e sabemos como são os enterros. Sofridos que a gente morre um pedaço. O paradoxo é que sobre os mortos pelo coronavírus o pranto dá lugar a uma agitação que não parece com a gente.

Na agitação, postamos qualquer coisa sem parar, achamos que nosso entendimento político é suficiente, e que dá para regrar o país pela nossa cabeça. Falo principalmente por mim. Mas ninguém sabe com certeza para onde está indo. O Paraná é o quarto pior estado em isolamento social. E o quinto pior em testes. E basta ligar a TV para encarar a propaganda do governo que quer o segundo mandato. Está doendo aqui dentro!

Ninguém é fundamentalmente mau, e os governos e poderes são feitos de muitas pessoas, não de uma. A esperança de que a pandemia vai nos transformar em pessoas melhores não pode morrer pela doença ególatra.

Não se trata de ‘ideologia’

Criticar o presidente da República não tem obrigatoriamente a ver com “ideologia”. Mantenho expressão entre aspas, porque o leitor e eu podemos estar pensando diferente a respeito do significado. Há muitos jeitos de entender o que é “ideologia”. Mas algumas, desculpem, não tem nada a ver. Destutt de Tracy começou com essa história na Revolução Francesa.

Para o mestre em sociologia pela UFPR Emanuel Menim (meu amigo por mais de 20 anos), ideologia é “a música do Cazuza”. Além disso, “são conjuntos de ideias, crenças e valores que criam uma consciência sobre a realidade e impulsionam ações”.

Ouça nossa versão da música do Cazuza.

Karl Marx (ai, ai, ai) entendeu que a ideologia é geradora de falsa consciência, de inversão de valores. Serve para obscurecer a realidade. Enquanto para Louis Althusser ela se forma a partir de “discursos lacunares”. São as meias verdades.

No entendimento amplo, a potência que a gente precisa para sair da cama, passar um café e começar o dia tem a ver com ideologia. Que dirá nossos comentários na internet, porque exprimem exatamente as ideias que temos sobre as coisas. Só que ser ideológico não é ser de direita ou esquerda. É quando porca torce o rabo.

“A ideologia não está sempre nos extremos. Está no contínuo, no pontilhado”, ensina a doutora em história pela UFPR Francielly Barbosa. Isto é, quando se exige que Bolsonaro tenha compostura à altura do cargo, não significa que o crítico não acredita no presidente, ou se arrepende de votar, ou passa a morrer de amores pelo Lula. Pelo contrário. A autocrítica é importante para o governo.

Hoje aprendemos que “ideologia” não é um xingamento. E que é possível fazer críticas apropriadas aos políticos sem participar de qualquer torcida organizada. Que o voto, único que é, simboliza uma liberdade que podemos ter mesmo quando não estamos em períodos eleitorais.

Foto: Johnny Cohen/Unsplash.

A luz sobre ela

Faz um par de anos que Gabriela Cn Curi Antoniuk e eu cuidamos de tornar a cidade uma Quadra Viva. Esse é o nome que ela deu ao projeto autoral de arquitetura. Histórico avançado. Foi Ippuc à época da glória. Tem trabalho dela na comemoração dos 300 anos de Curitiba, no Memorial, nas Arcadas do Pelourinho e das Ruínas.

Somos craques em instalar escritórios temporários em cafés. E vamos resolvendo as coisas de um jeito fluído, rápido. Não tem tempo ruim. Hoje, repetimos aqui em casa. Mas se a tarefa do anfitrião era fazer um retrato, então tirei tudo dos armários. É uma foto com cinco luzes. E tinha até um monitor 4K só para ela, para ver a cada disparo com estava ficando.

Ficou assim, real. No sentido de nobreza. Arquiteta e bonita. Só não é mais criativa do que é generosa. Obrigado pela visita, Gabriela.

Amar o trabalho

Em 1999, tive um amigo chamado Anderson que nunca mais vi. Eu engrenava no primeiro ano do Ensino Médio e ele era web designer. Naquela época, era mais difícil ter um computador e minha participação foi colocar um Intel Pentium 166 MHz com CorelDRAW comprado no mercado negro na sociedade.

Ninguém começa de cima, e nosso começo foi bem de baixo. Um calote por semana. Fui micreiro por uns meses, até pegar a manha. A dupla publicou um anúncio no jornal ofertando a criação de sites. O dono do Hotel Golden da Tiradentes entrou em contato comigo, ligando no fixo, quando Anderson já tinha desaparecido. Fiz fotos do lobby, dos quartos. Virou um site bonito, feito na unha. Eram tabelas e mais tabelas aninhadas, cortes precisos em gráficos, frames, e eu tinha 15 anos.

No Cefet, meu colega de classe Maicon se entusiasmou e fez da vida profissional dele uma dedicação às tecnologias. Até hoje gerência comunicação pela internet. No último chopp que tomamos, disse que eu o inspirei. Olha, meu filho. A gente costuma ver os goles dos outros, mas não os tombos. Quando o dono do Hotel Golden ficava puto por meus atrasos, ligava para minha mãe. Eu vinha aprendendo.

Logo da Câmara, criada em 1999.

Ainda naquela época, o primeiro trabalho decente que fiz no Corel foi a logo da Câmara de Vereadores de São José dos Pinhais. Ela ficou tão fofa que cruzou inúmeras gestões e hoje está no site, impressa em documentos e adesivada em carros oficiais. Lembro de passar horas experimentando recursos até chegar no resultado. O trabalho não me tomava tempo e não me exigia esforço.

Lembrei de como foi descobrir que o trabalho era a principal realização da minha vida. E de como eu posso ter me confundido a respeito desse tema nos últimos anos, especialmente quando outros donos do Hotel Golden preferem me gerenciar a partir da mamãe.

Nunca fiz trabalho nas coxas. Eu erro no trabalho. O que é absolutamente diferente. Mas isso minha família, amigos e clientes sabem com profundidade. Trabalhos originais requerem comportamentos originais. Amar o trabalho (não trabalhar igual um filho da puta pela fama, pela grana, pela cama) é original.

Arte: Site da Apple em 1999/ascendinbound.com.

O marketing político como vetor

Que as próximas eleições começaram com antecedência notável, estamos de acordo. Da Praça dos Três poderes às cidades menores, as falas publicáveis dos políticos e de seus correligionários estão sob o compulsor “agrade”. Uma multidão de marqueteiros de garagem vai surgindo, se é que algum dia foram em menor número. O que tem de especialista em “redes sociais” e coisa barata. O “case” de sucesso é a campanha do presidente Jair Messias Bolsonaro, da qual muitos participaram postando comentários no Facebook e encaminhando mensagens no WhatsApp. Este parágrafo é um recorde de aspas, porque reflete a instabilidade das funções de cada coisa no palco público. É um fazer de conta, com roupas formais.

Quando uma empresa vai mal e analistas são contratados para localizar onde está o problema e sugerir o que se pode ser feito para resolver, leva-se em conta, de modo principal, qual é o legado dos fundadores. Tem a ver com o “cânone do grupo” e consequentes estruturas e imagens. Não do presidente, não do diretor financeiro, não dos funcionário, mas o que tem de principal no legado dos fundadores. Isso se aplica à administração pública. Tomo Curitiba por exemplo, para fins didáticos. A fundação se dá pela instalação da Câmara de Vereadores, em 1693. No registro histórico, Matheus Martins Leme tinha consigo “apelos de paz, quietação e bem comum do povo”. Anos mais tarde, o ouvidor Raphael Pires Pardinho incorpora a preocupação com a natureza. Lato sensu, Curitiba começa e termina neste parágrafo. Técnicas jornalísticas podem dar suporte à investigação. Franceses e americanos discutem a invenção e as funções de tais técnicas desde o Século XVII.

Basicamente, a ideia é retomar a clareza e a ordem. Quando há informações se agitando na cabeça do redator, ele volta às perguntas fundamentais: o quê, como, quando (existem mais). Essas perguntas, para candidatos, podem e são muitas vezes respondidas com cola. Alguns treinadores estão prontos para interferir nos roteiros e incentivar performances fictícias. Para isso, contam com pesquisas de toda sorte e de todo preço. Qualitativas, de massa, de audiência, entrevistas com sábios, com representantes da mão invisível que tece a coisa pública em reuniões privadas. E ali o bocó que tampouco sabe responder para ele mesmo “o quê” está fazendo, refastela-se na aparência iluminada e maquiada que embala um conteúdo insignificante.

Já as notícias são uma fonte de informação. Uma fonte. Existem todas as outras. Se o quadro de referência dos candidatos se mantém apequenado ou intacto com o passar do tempo, a ideia de Leme sobre a paz tende a fracassar, e Curitiba estaria condenada a um desconforto contínuo. Esse quadro é ampliado por literaturas e filmes construtivos, por períodos de recolhimento, por conversas saudáveis com pessoas que pensam diferente. É fácil depreciar a opinião dos outros quando se tem uma fantasia sobre o que outro sabe ou pensa, quando não se tem dados de realidade. Algumas dessas questões têm abrigo na antropologia personalista do espanhol Juan Manuel Burgos, que entende, teoricamente, que a capacidade de autoconstrução e cuidado determina a qualidade humana.

O marketing político deve ser colocado sobre a mesa. Deve integrar o que sabemos sobre os candidatos. Além do mais, os “gurus” dessa profissão têm políticas de preço enigmáticas. Somente o pagador (e para quem ele conta, ou o gestor do fundo eleitoral) sabe os valores da tabela. Em 2018, treinei uma pessoa que veio do interior para concorrer a um cargo importante. Foi ao cabeleireiro visagista? Foi. Foi ao shopping comprar roupas lisas? Foi. Baixou aplicativos para treinos rápidos? Baixou. São todas medidas à toa se não houver um trabalho de desenvolvimento humano no qual o candidato esteja comprometido.

Passamos dias a fio discutindo as razões principais que a tinham trazido à capital. Evidentemente que as respostas eram dela. Quando voltou para o interior, levou a experiência com os estados do ego, com os contratos multipontas que se estabelecem com o público, e outros temas organizacionais. Só eu sei o quanto ela me ensinou. Quer dizer. A dedução da teoria da opinião pública de que o palco deve gerar a aprendizado se confirma na experiência que tivemos. Fica ainda mais claro: ela vai ao palco consciente das razões que tem, e não porque disseram a ela que uma poção mágica serve para o sucesso.

Se tornamos manifesto o marketing político, a vilania das eleições sem profundidade tende a perder força. O dissabor de um candidato que explicita a altura de um pires é compartilhado e, logo, marqueteiros expertos dariam a essas candidaturas tamanhos (e preços) proporcionais. Hoje, quem pode pagar contrata alguém bom que o faz parecer coisa que não é. E quando está eleito e sobe a água (aquela que bate)? Quem está perto para ajudar? Sem contar que frequentemente os marqueteiros agem como consultores externos aquém da responsabilidade com o grupo. Chegam na posição existencial de que sabem mais, que dominam, e que o outro deve segui-lo.

Nisto eu concordo com um pessoal mais novo: que cargos públicos exigem pré-requisitos. Quem sabe andar com as próprias pernas e se desenvolve com auxílio profissional é bem-vindo. Se depende de babá, tem de voltar para a mamadeira.

A rivalidade não faz sentido se impede a paz, em Curitiba. Aliás, qualquer pensamento ou ação que seja contrária à paz, em Curitiba, é fraude moral no que a cidade é e no que representa para o país. A preparação para ter a foto na urna eletrônica tem a ver com quem a pessoa é. E ninguém finge por muito tempo. Se o disfarce começa antes da posse, que garantias temos de que será diferente depois, que não se importará somente em agradar bajuladores? Contar com milagres a gente conta sempre. Por enquanto, a gente não conta com marqueteiros socialmente responsáveis.

Foto: Alexas Fotos/Pexels.

Sem saúde

Meu palpite é que Bolsonaro agiu sozinho para se desfazer dos ministérios ligados ao direito e à medicina. Ou que vem agindo continuamente assim. Um inteligente que tenha conversado com quem se autodeprecia sabe que as chances de falácia aumentam. Às vezes é soco.

Não se pode sustentar nem por um segundo que o governo vai mal porque o presidente é perseguido pela imprensa, pelos Poderes. Muito chorão esse senhor para a ideia de força militar que os seguidores têm sobre ele. E a paranoia se fez carne.