‘Com o Evangelho não se brinca’, opina Aroldo Murá

Sobre a reunião do presidente Jair Bolsonaro com representantes de TVs católicas ligados à “ala que diverge politicamente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)”, entrevistei, nesta sexta-feira (12), o professor Aroldo Murá. Ele é presidente do Instituto Ciência e Fé de Curitiba e chega à marca de 60 anos de experiência em jornalismo.

Por que a comoção em relação à reunião de católicos com o presidente?

Uma reunião dessas, com um secretário de comunicação do governo, e até o presidente da República, se feita pelo setor comercial seria absolutamente normal. Coisas do mercado, barganhas em torno da publicidade, de espaço. Acertos tão comuns na história da imprensa brasileira.

No entanto, quando se trata da participação de dirigentes, líderes de expressão, da canção, dos pop-stars católicos, como é o caso de Reginaldo Manzotti, estiveram absolutamente errados.

A reposta do arcebispo Dom Peruzzo tem a ver com o quê?

Manzotti é hoje um homem muito rico, dono da Fundação Evangelizar é Preciso. Ele entregou a gestão a um sobrinho, que é o gestor administrativo, mas é um homem muito hábil em fazer dinheiro para sua causa. Mas a palavra final é de uma entidade que tem história no Brasil, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ela não autorizou [a reunião].

O arcebispo ficou com raiva, considerou infeliz ou precipitada [a nota da CNBB], está no texto da matéria que eu publiquei. Ele reclamou que a palavra “barganha” não está na nota. Ora, o arcebispo é um homem culto.

Houve barganha?

O vídeo está disponível para quem quiser assistir. O dirigente da emissora católica Pai Eterno ofereceu apoio incondicional ao governo. E foi acompanhado por um empresário que diz representar a opinião católica, da Rede Vida, entregando-se.

Não é por ser Bolsonaro. Não se deve entregar a governo nenhum em nome da Igreja. O problema não é Bolsonaro. Quase todos ali fizeram a mesma coisa, mas de modo menos explícito, em governos anteriores. Um político notório de São Paulo que tinha programa na Rede Vida era um canalizador de recursos para a emissora dele e outras católicas.

Desses ‘pop-stars’, a Igreja tem em quem confiar?

Com o Evangelho não se brinca, não se sugere espaço a governos, sejam quais governos forem, em troca de uma opinião favorável de líderes, emissoras, dioceses católicas.

O Padre Manzotti, que é da Diocese de Curitiba, assim como o Padre Periquito, que é um nome horroroso mesmo para padres cantores, e que não sei de que diocese é, esses não querem compromisso com paróquias, nem serem muito vigiados.

O padre Fábio de Melo pelo menos tem bom senso. Não foi à reunião. Assim como o Padre Marcelo Rossi, que é farinha de outro saco, ou o compositor Padre Zezinho.

Foto: Annelize Tozetto.

‘Não gosto nem um pouco’, escreve Dom Peruzzo sobre Bolsonaro

A matéria do Estadão sobre a reunião do presidente Jair Bolsonaro com representantes de TVs católicas ligados à “ala que diverge politicamente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)” rendeu uma carta do arcebispo de Curitiba, José Antônio Peruzzo. Como é sabido. Ela parece motivada particularmente pela aparição de Padre Reginaldo Manzotti no noticiário, nestes termos:

“‘Nós somos uma potência, queremos estar nos lares e ajudar a construir esse Brasil. E, mais do que nunca, o senhor sabe o peso que isso tem, quando se tem uma mídia negativa. E nós queremos estar juntos’, observou Manzotti, dirigindo-se ao presidente.”

— “Por verbas, TVs católicas oferecem a Bolsonaro apoio ao governo”. Estadão. 6.jun.2020.

Na carta, Dom Peruzzo argumenta que a matéria “pareceu maldade encomendada. Tudo se tornou ainda mais debatido depois da nota do setor de comunicações da CNBB. Também foi uma nota infeliz. Foi detrativa”.

“Embora [sejam] especialistas [os que emitiram a resposta da CBNN], tomaram como veraz uma reportagem viciada. E puseram-se a falar que a Igreja não aceita barganhas. É uma pena que chamaram de barganha o que e quem nada barganhou. Basta verificar e acompanhar toda a reunião. Quem barganhou?”, questiona.

Para mim, o que realmente importa é que o arcebispo, ufa!, não gosta nem um pouco do atual presidente.

“Ponderei a ele [padre Reginaldo Manzotti] que não gosto nem um pouco do atual presidente”.

— Dom Peruzzo. Íntegra publicada no portal Bem Paraná, no blog Ancoradouro, e na Revista Ideias.

Foto: Arquidiocese de Curitiba/Divulgação.

Cartomante curitibana não é de nada

Quando o rei Davi estava para morrer, instruiu a Salomão que cuidasse do “caso de Simei, filho de Gera, o benjamita de Baurum, aquele me me amaldiçoou de maneira tão cruel quando eu ia para Maanaim”. Nas leituras, encontro fundamentação para o que passamos a ser a partir das palavras dos outros. Está no desenvolvimento infantil da psicanálise, nas injunções da análise transacional e, no caso de Velho Testamento, na maldição.

Em Curitiba, uma cartomante charlatã tem feito o papel de Simei. Mas como nesta cidade ninguém é bobo nem nada, evoco a sequencia da fala de Davi: “Você não deve tratá-lo como se nada tivesse acontecido. Você é sábio, saberá lidar com isso e saberá o que fazer para que ele pague pelo que fez antes de morrer”.

Cravar sobre o trabalho de alguém “charlatã” pode parecer ríspido. Mas talvez não ríspido o suficiente. Porque a curitibana que ganha a vida manipulando histórias alheiras é cínica, indiscreta e estúpida.

Este texto não é um indireta. É uma direta à adivinhadora fajuta. Amigos amados por mim e por suas famílias são vítimas dessa vigarista. Ela cobra por conselhos espirituais, mas se envolve até as tampas, enviando mensagens para forçar as próprias previsões, quando não insultos ao ser desqualificada.

Minha senhora, pare. Pare antes que tenha de pagar uma multa daquelas ou vá parar na cadeia.

Versão do texto: “A Mensagem: Bíblia em Linguagem Contemporânea”. Eugene H Peterson. Tradução: Luiz Sayão.

Foto: Markus Spiske/Unsplash.

Morre o filósofo Cleverson Leite Bastos

Morre o professor Cleverson Leite Bastos. O curso e o programa de pós-graduação em filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) emitiram uma nota.

“O professor Cleverson trabalhou na nossa instituição durante aproximadamente 30 anos e sua morte deixa consternada toda a comunidade acadêmica. Além de professor, foi aluno do curso de Filosofia, tendo se formado em 1980. Tinha mestrado em Lógica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1990) e doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1997), com estágio de pós-doutorado em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (2006). Seu entusiasmo e dinamismo conquistaram alunos e colegas e sua morte, aos 64 anos, entristece a todos/as”.

Cleverson foi meu professor de semiótica, uma alma inquieta. Tinha aversão às superficialidades, e ao que nomeava com clareza “burrice”. Tive medo da rejeição dele. Ele me curou no que agora é uma memória que acaba comigo.

O Centro Acadêmico de Comunicação Social tinha organizado um debate sobre a publicidade de bebidas alcoólicas na televisão, e fui convidado para mediar. Eu estava sozinho, sentado na primeira fila, esperando dar a hora. Nervoso, comprometido com a performance, lembrando como os apresentadores faziam na CBN.

Cleverson sentou ao meu lado, e me abraçou. E ficou abraçado comigo, como uma pai orgulhoso. Lembro que o braço dele atrás de mim me incomodou, porque não eu não era o cara do contato físico. Mas ele insistiu até que eu entendesse a mensagem tal qual um inteligente e não um burro.

Até hoje tive vontade de escrever algo com ele, talvez sobre a influência da amplitude da onda do mar no pensamento do pescador, ou algo assim.

Mestre, obrigado. Uma hora a gente se encontra.

Foto: Reprodução.

Um filme

“Um filme tem de ter começo, meio e fim. Não necessariamente nessa ordem”.

— Jean-Luc Godard.

Tempestade se forma sobre a cidade

Paraná quer desligar professores da UEPG

Contratos de professores colaboradores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) que tinham previsão orçamentária para renovação podem ser interrompidos. São 242 postos de trabalho.

No departamento de jornalismo, a graduação é lecionada em grande parte sob esses contratos. Além disso, os professores tomam conta de projetos de pesquisa e extensão. Neste período de isolamento, produzem materiais sobre a pandemia junto aos alunos “de segunda a segunda”, na fala de um desses professores.

“O governo se baseia no decreto de março para a suspensão das aulas presenciais, mas estamos trabalhando todos os dias. Aliás, mais do que se estivéssemos seguindo o ponto”, esclarece.

Se os contratos não forem renovados, não haverá professores na volta das atividades presenciais. “Teremos desfalque em todos os anos, com furo principalmente nas disciplinas práticas, que são fundamentais e que levam tempo até que novos professores se adequem”.

A questão é ampla, porque há o mesmo risco para a universidades de Londrina e Maringá, Universidade Estadual do Paraná (Unespar) e Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro).

Os contratos vencem no dia 3 de julho.

Foto: Divulgação.

Quem perdeu as eleições

No dia 7 de outubro de 2018, parecia que o mundo tinha virado do avesso na internet, e aqui na frente de casa. A glória de Jair Bolsonaro no segundo turno foi ofuscada pela desconfiança em relação às urnas eletrônicas e a frustração dos “80% no mínimo”, como papagaiava a então candidata à Câmara dos Deputados Joice Hasselmann. Vínhamos estranhando a força e reverberação de falas não verificáveis.

As campanhas do segundo turno só não foram mais pobres do que foram sujas. Quando a água subiu, o que deu de problema. Às futuras gerações, registre-se: há dois natais que as famílias comem com medo de abrir a boca.

Se as eleições são tidas como um ente das elites políticas e somente para este fim, qual seja oportunizar a manutenção dessas elites, esqueceram do que o povo pode ter de vantagem, como um belíssimo showmício no bairro. Em um poema-reportagem publicado por José Hamilton Ribeiro na Folha de S. Paulo, o jornalista lembra que é neste momento que o eleitor tem a chance de apertar a mão do candidato. E que será somente dessa vez.

O jogo de poder espúrio reteve que tivéssemos os presenciáveis em um debate televisionado. Não que tenha feito falta, porque daqueles dois é sabido o que esperar. Bolsonaro foi esfaqueado por um lunático que o via tal qual a besta que é. Sorte a de Bolsonaro que temos instintos levados à sala de terapia, porque se tem uma coisa que esse senhor consegue com muita naturalidade é provocar repugnâncias. Quando não foi à TV, contratou o que pode oferecer.

Dos mapas mais avançados, antropológicos, analisados, ficou o despreparo daquele para o cargo de presidente da República. Sem entrar no isentão que me obrigaria a argumentar contra a estratégia petista, sigo no que tem mais a ver agora, provar que eu e você perdemos a eleição e que provavelmente o faremos de novo neste ano.

Uma colega jornalista escreveu dois livros sobre a ditadura militar no Brasil, e a mãe e irmã dela votaram no Bolsonaro. Os pastores evangélicos que trouxe em altíssima posição por anos, escolheram Bolsonaro. Gente amável, trabalhadora, simples. Com ele. Meu pai. Com ele. Desses listados aqui, algum sinal de arrependimento ou temperança?

Será que as coisas estão claras o suficiente? Será que os mapas mais avançados, antropológicos, analisados, dão conta de repetir o básico? Não é hora de esmorecer. Bolsonaro é um péssimo presidente. A figura pública dele é vomitável. Na balança, conta para quem segue o mito que “pelo menos não houve corrupção”. De qual corrupção se fala?

Corrupção não tem a ver com desviar dinheiro para construir piscina em chácara de político somente. Tem a ver com escolher gestores de péssima qualidade para cuidar do que é público. Garantir vantagens para a família, quem não vê é pateta. Mas não é corrupção esconder dados sobre mortes em uma pandemia? Qual é o nome, se não é corrupção?

Qual é o nome que se dá a negar desde o início a gravidade de uma doença para a qual não há vacina ou remédio? Nomeie. Explique para nós.

Enquanto isso, aqui no Paraná, o governador Ratinho e o prefeito Rafael Greca escondiam muito antes da maldade federal os dados sobre internados por Síndrome Respiratória Aguda Grave. E alguns dizem “a próxima eleição é do Greca”. Como é do Greca? Como pode um homem que foi tão brilhante mas hoje se tornou vil estar reeleito antes das urnas, em uma cidade tão peculiar como Curitiba?

Foto: Evaristo Sa/AFP.

O desenho para Ágata

Tem uns dias que Ágata Soares e eu nos divertimos em uma live sobre o que fazer em casa já que estamos entocados por causa de uma doença de rua. E nos desafiamos mutuamente em tarefas nem tão comuns, ou nem tão próprias de talentos naturais. Uma dessas tarefas era desenhar o outro. Estudante do antigo Cefet que fui, tenho uma caligrafia razoável, mas não desenho nada além de wireframes. Pois bem, com o que eu tinha em casa dei conta de expressar meu amor pela irmãzinha deste jeito.

Dialética Tabajara

De tanto repetirem que a democracia brasileira é jovem, no sentido de imatura ou imprevisível, botei fé em uma versão feia sobre nós. Mas, em uma observação otimista, vejo o quanto gostamos de participar dos assuntos políticos. Mesmo sem saber nada, sai vestindo camiseta, levantando bandeira, digitando horrores sem parar.

A gente acredita que o noticiário concorda, porque a manchete é exatamente o que pensamos – mesmo que seja uma notícia velha de março ou uma imprecisão maliciosa do Olavo de Carvalho: “Acho que ela foi presidente da CPI”. Pronto. Ela é a presidente da CPI.

Nós nos apropriamos de uma dialética Tabajara para elucidar o país, e estamos pensando com os recursos que temos. Lembro do Tenente Costa me dizendo, quando eu tinha 16 anos: “Os militares não querem nem saber de tomar o poder. É muita dor de cabeça”.

No que estar sob o medo cego de uma ditadura difere da caça aos “comunistas”. Eu estou rouco de explicar o que a queda do Muro de Berlim significa para o mundo, mas é o mesmo que nada. As explicações razoáveis não tem espaço competindo com os benefícios do chá de picão para a cura do câncer.

Comunicólogos, uni-vos! É preciso pensar em um jeito de manter o joio e o trigo crescendo juntos. Só depois, sabemos.

Foto: Volodymyr Hryshchenko/Unsplash.