Domingo

Quando me avisaram que neste domingo não ia ter sábado, senti falta do gosto da brincadeira. E que, cancelada a segunda-feira, tinha ficado para hoje somente o descanso, meu dia de senhor.

Deu ruim para o Manzotti

Perguntei a Padre Paulo se o pessoal que não gosta do Papa tem alguma razão e ele respondeu que “se não gosta do Papa bom cristão não é. O certo é rezar por todo mundo”. Ontem mesmo escrevi que sinto vergonha do comportamento político dos evangélicos, em uma generalização. Mas que surpresa me chega na capa do Estadão deste sábado!

No último dia 21, durante uma teleconferência, religiosos católicos negociaram com o presidente Jair Bolsonaro a publicação de elogios ao governo em troca de verbas públicas e expansão das redes. E isso sob a ameaça de Padre Reginaldo Manzotti: “Nós somos uma potência (…). O senhor [presidente] sabe o peso que isso tem, quando se tem uma mídia negativa”.

Sem dúvida, as televisões católicas surpreendem pela qualidade de um programa ou outro. A TV Evangelizar de Curitiba contrata profissionais de mídia experientes. Editorialmente, consegue agradar a gregos e troianos, sem se tornar um jornal de paróquia.

Devo ter sido um dos primeiros espectadores da Pai Eterno, com sede em Trindade (GO). A linguagem que tinha no começo era de documentário, sem off nas notícias. Tinha tudo para dar certo, do ponto de vista plástico, pelo menos.

Minhas perguntas são: onde está a preocupação com a saúde espiritual das pessoas, nessa negociação? E a saúde psicológica e física dos fiéis? A comunidade tem criticado o oportunismo comercial, neste momento de pandemia. Fazer as redes crescerem pode ficar fora de tom? Em troca de dinheiro, vocês assumem o risco de colocar a Igreja em risco, associando-se ao discurso maquiado do presidente que é uma preocupação mundial?

Esses padres precisam conhecer Padre Paulo!

Foto: Reprodução.

Aos amigos evangélicos

Um pouco antes de entrar na faculdade de jornalismo e me apaixonar por uma caloura que competia para ser a nova morena do Tchan (tivemos nosso amor desvelado em um programa do Jairo Bouer, no canal Futura), passei muitas horas na companhia de gente santa. Defina-se por “gente santa” aquela que se arrepende, pede perdão, e abandona.

Naquele momento da juventude batista, havia grupos para muito gostos. A felicidade descolada do surf, do skate, do reggae. Na medida que dava, meus amigos e eu participávamos. Até porque sempre fomos excelentes outsiders, que traziam algum ponto de vista diferentão, mas convergente em Cristo. Como no dia em que fizemos um período de oração com os maconheiros do Cajuru antes de começar uma festa. Uma troca que sempre deu certo. Mas vivíamos além da camaradagem.

Nossas reuniões começaram muito cedo aos sábados à tarde e iam até o fim do culto de jovens. Nessas horas, a gente estudava os textos bíblicos, revisávamos o noticiário da semana, e ouvíamos a oração um do outro. A gente tinha certeza que a oração chegava no céu com fitas de recomendação, uma para cada nome que estava ali dizendo “amém, Deus!”, ou “que seja assim, para tua glória!”.

Tinha também os dias que tudo não passava de um grande teatro. Nem os textos da Bíblia davam conta de resolver a conexão caída. Quando parecia que tinha algo errado entre nós, batata: estávamos discordando. Um olhava para o outro e dizia, às vezes com a roupa molhada do choro, “eu sinto inveja”, “eu não quero estar aqui”, “eu não amo Deus”. Daí, sim. Daí parecia que o próprio Jesus tinha entrado na salinha de madeira para fazer uma pregação só para nós.

Meus irmãos evangélicos, eu sinto raiva de vocês. Eu sinto vergonha de vocês. Eu muitas vezes tenho vontade de prejudicá-los em minhas opiniões. Por favor, perdoem-me. Obrigado por tudo que me ensinam.

Foto: Escultura de José, pai de Jesus, em Narazé. Vinícius Sgarbe/Outras Terras Filmes.

A fala de Luisa

A gente falava sobre casamentos gays, aqui na sala de casa, até que a mãe de dois jovens universitários interveio com “não sei o que exatamente precisa de discussão a esse respeito. Meus filhos tratam esses casamentos com muita naturalidade”. Luvas de pelica.

Um passo pra frente, 500 anos para trás. Luisa Nunes Brasil é tida como “influencer” pelo número de seguidores na internet. Vai do gosto do freguês. Ela argumenta que é normal ter medo de negros porque não são brancos. Ninguém espera que seja uma professora titular de filosofia, mas até para racista fica devendo no vocabulário.

Para os mais ordenados, liberdade de expressão não contempla discursos como os de Luisa. Que dor de cabeça para a menina, agora. Não teve ninguém para discutir o conteúdo? Embrenhou-se em uma trilha perigosa, até que foi para o vídeo cheia de naturalidade demonstrar o que aprendeu com a família dela. Uma exposição cruel para todos.

O exemplo dos bolsonaristas

Assista ao comentário.

Amigos bolsonaristas têm me chamado com frequência para lives nas quais sou tratado com todo respeito, e posso me expressar sem melindres. São diplomatas vocacionados. Só não concordo com a fala jornalística ser confundida com desta ou daquela emissora. As opiniões dos jornalistas podem ser autônomas. Às vezes úteis.

‘Os dois turnos em dezembro’, entende Arruda

“Os dois turnos da eleição devem ser realizados em dezembro deste ano, sem prorrogação de mandatos”, entende o presidente do MDB do Paraná, João Arruda. É uma resposta ao questionamento feito pelo presidente nacional, deputado Baleia Rossi, em pesquisa enviada por ofício circular do partido.

O questionário traz três perguntas: sobre o adiamento, sobre a melhor data para isso (afora dezembro, há dúvida sobre o primeiro turno em novembro), e se há concordância quanto à continuidade automática dos cargos nas cidades.

Curitiba daqui pra frente

Curitiba é um calo na bunda da alma dos curitibanos. A “polaca maldita” empaca carreiras internacionais, quando mesmo tendo passado por diversas partes do mundo a gente cai aqui. Se achamos que a cidade é linda e maravilhosa? Não reste dúvida. Se achamos que ela tem tantos problemas quanto qualquer outra cidade pequena do mundo, o assunto é sério.

IMPRENSA

A vida da imprensa daqui tem um quê de rural que, olha! E não se engane quem pensa que estou falando de fora. Sou um jornalista comum, passo o dia com o telefone pendurado na orelha e tenho e a palma da mão assada de tanto WhatsApp. As notícias que conseguimos tem seu valor. É preciso saber das enchentes, desmoronamentos, incêndios. É o pé na lama de cada dia. Mas quem mais tem a impressão de que falta um pedaço da história? O que liga uma coisa à outra, que trás sustância?

Regionalizar a imprensa é assunto velho, porque se fala disso desde a faculdade de jornalismo. A ideia da regionalização, com valorização dos sotaques, das pautas locais, é um passo importante para o tecido comunicacional. Mas isso não deveria nos privar de trazer ao palco os assuntos que são nacionais, especialmente as questões legislativas. “Ah, mas isso é lei federal”. Tudo bem, todos sabemos, mas o que nos impede de pensar sobre o país como um todo, ainda mais agora que parece que se cercar é hospício e se cobrir é circo?

PROSTITUTAS DA VISCONDE

As prostitutas da Avenida Visconde de Guarapuava trabalham diariamente, à luz do sol. É um tipo peculiar de profissão, estamos de acordo. Agora, com a história do Coronavírus, não ouvi falar de como essas mulheres estão dando conta da falta de clientes. “Ah, mas é uma atividade não regulamentada”.

Ninguém está falando de registro em carteira, mas de como curitibanas expostas à violência das ruas estão comendo e dormindo. Entenda-se que são mais velhas, e sujeitadas a um tipo de degradação que as esposas jamais aceitariam. Será que não são vítimas de tráfico de pessoas? Será que não vivem a realidade urbana da escravidão por dívida com os cafetões?

BANCOS DE MICROCRÉDITO

Enquanto isso, os agiotas espalham grana e ameaças. Se o cara está acostumado a fazer as coisas por baixo dos panos e tem funcionado, não é qualquer política pública que vai convertê-lo. Mas se houver a possibilidade de que ele seja um banco de microcrédito e ele descobrir que ser banqueiro no Brasil pode ser mais lucrativo que ser bandido, pode ser que mude de lado. E, então, passe a pagar impostos, a contratar escritórios de direito para fazer as cobranças, quem sabe até se sinta uma pessoa melhor e morra sem tanto sofrimento.

DROGAS

O uso de substâncias pode levar a um a um fim rápido, especialmente pelo assassinato, como no caso dos viciados em crack. Mas há o caso da mistanásia, quando o indivíduo respira, mas está morto socialmente.

Clínicas bárbaras cobram preços impagáveis por tratamentos que não dão em nada, pelo menos a curto e médio prazo. Uma dessas clínicas leva o nome da psicóloga que é a proprietária. Ele se apresenta como tendo integrado o governo de Roberto Requião, mas ele me disse que não sabe quem ela é.

O que há de novo? Clínicas para uso assistido? Debates sobre a regulamentação de drogas para redução de danos? Se o caminho é a abstinência, quais os recursos para isso além de empurrar tudo para os Alcoólicos e Narcóticos Anônimos?

TRANSEXUAIS DA GETÚLIO

As prostitutas trans da Avenida Getúlio Vargas têm expectativa de vida entre 30 e 35 anos. E o fim é que são assassinadas. Elas trabalham em volta da Praça Ouvidor Pardinho, que é um dos nomes mais poderosos da consolidação de Curitiba.

A gente se preocupa com a vida de quem?

Foto: Mulher passa por morador de rua, em frente a mercado de luxo na Vila Izabel, em Curitiba. Vinícius Sgarbe/Outras Terras Filmes.

O que tem de covardes

Entendi, pelo intermédio de gente próxima que respeito, que a direita defende uma pauta comum a minha, qual seja o direito à liberdade de expressão, ainda que um ou outro pateta se valha disso contra a paz. Isto é, como os que estão bebendo leite sem saber o que isso representa, ou, se sabem, passando o ridículo de serem latinos defendendo que defecam lactose com mais qualidade.

Para quem está chegando agora ao assunto, é assim: grupos que defendem a supremacia branca nos EUA têm no gesto de beber leite a ideia de que haveria uma diferença genética entre as pessoas que são melhores ou piores, na visão deles, e que a prova é a digestão da lactose. São virados da bola. Mas é pior quando o presidente da República Jair Bolsonaro faz tal gesto junto à ministra da Agricultura, Tereza Cristina, seguidos pela ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, e por defensores do governo.

A justificativa formal é o “Desafio do Leite” da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), para valorizar o setor incentivar o consumo durante a pandemia. É de péssimo gosto e explicita a alienação de parte do setor produtivo do país.

O que me deixa com a pulga atrás da orelha é um vídeo que assisti no Twitter no qual um homem engole um copão de leitinho e diz “entendedores entenderão”. Se estava se referindo ao Desafio, não se sabe. Se estava sendo racista, não se sabe. Mas “quem não se comunica se trumbica”. E em uma hora que se exige mais esclarecimento, deixar a imaginação humana cuidar das questões sociais não é exatamente inteligente.

MENOS E MAIS SOFRIMENTO

Orgulhar-se de ser branco, preto, homem, mulher é equivalente a se dar às genealogias intermináveis que confundem a fé. Os que se entregam a esse tipo de questão estão longe do amor e demonstram a ignorância que têm a respeito de temas importantes.

Para os cristãos que hoje celebram o Pentecostes, há instruções claras para que as autoridades sejam tema da oração constante, para que se tenha “uma vida quieta e sossegada” (1 Timóteo 2, Almeida Corrigida Fiel).

Essa confusão do leite ressuscitou a parte difícil das discussões de minorias, que tem a ver com o “lugar de fala”. A gente perde o rebolado quando se expressa no lugar de quem sofre mais. Mais ou menos quando disse à Mariana “está gostoso esse frio” e ela respondeu “para você que não mora na rua, sim”.

CAÇADA À VAGA DE FEDERAL

Reprodução.

Pergunte aos que querem o fechamento do STF que tipo de processos são julgados lá. Ou se já assistiram a algum julgamento na íntegra. Não. “Lá eles soltam bandidos” e por aí vai. A deficiência crônica do Legislativo nacional leva ao protagonismo do Judiciário. Se lá se soltam bandidos, quem fez o texto da lei senão os deputados e senadores?

Agora vem mais uma desavisada sob o codinome “Sara Winter” (que há pouco tempo protestava sem roupa pelo direito de abortar) fazer alvoroço. Ontem, ela e os autoproclamados “300 do Brasil” foram à Praça dos Três Poderes com tochas que evocam a Ku Klux Klan.

É sabido por todos que Sara está cavando a própria prisão, para, então, se estiver solta e elegível, candidatar-se a deputada federal. Nesta manhã, é solenemente ignorada nas capas da Folha, O Globo e Estadão. A imprensa tirou da gaveta uma mágica pela qual faz desaparecer. “Prove que esta cadeira não existe”. “Que cadeira?”.

Foto: 1Funny.

Essa história do leite

Essa história do leite. Primeiro que a imprensa poderia engolir menos iscas para jogos psicológicos e de poder (Berne e Steiner). Depois, que a mim, moreninho brasileiro, no meu quadro de referência e nos das pessoas pessoas próximas, beber leite é coisa de gente infantilizada.

Não tinha aquela do “não aguenta, bebe leite”? Ou as instruções paulinas sobre a maturidade espiritual precária dos que bebem leite? Eu não comprei a ideia de superioridade racial dessa gente que se orgulha de cagar diferente, digerindo lactose. Seguro pra não ter dozinha.

Xavier pela representação na Câmara

Paranaense nascido em Cambé e há 12 anos em Curitiba, Diego Xavier está tal qual Oswald de Andrade quando voltou da Europa, com a cabeça fresca. Está decidido a levar as modernidades legislativas que conheceu em 12 países do Velho Continente, especialmente a Irlanda e a Dinamarca, para a Câmara de Vereadores da capital.

“Passei muito tempo em espaços de convivência LGBTQI+. Acabei mudando meu jeito de ver a relação das cidades com os gays”.

Há poucos dias, ele e outros benevolentes entregaram kits de higiene às prostitutas transexuais da avenida Getúlio Vargas. “Tem a ver com a autoestima. Então, tinha desodorante, creme hidratante. A estimativa de vida para elas é de 35 anos. Acabam assassinadas”. Está marcada uma outra entrega desse tipo, em um lugar onde moram 26 trans.

Nos bastidores, Diego conversa com outros três candidatos que têm bandeiras similares. “A ideia é que haja outro candidato como foi Toni Reis, que tenha a postura necessária, a postura que a cidade requer”. Reis é um ativista reconhecido e há aproximação entre ele e Xavier.

Foto: Vinícius Sgarbe/Outras Terras Filmes.