‘Unidade Sentinela’

“Unidade Sentinela” é o nome que o governo do Paraná deu ao amontoado de presos e presas de Guarapuava com suspeita da Covid-19 ou infectados que vão para a Cadeia Pública de Palmital. O município não tem nenhum caso da doença e UTI mais próxima fica a 150 km.

Cumprir liberdade

Liberdade é uma construção do adulto, tanto quanto o amor. São preços altíssimos, beiram o impagável. Um tipo de oferta Nacirema por sofrimento.

Tendo relido a carta apostólica de Gálatas, reflito sobre irrestrita condição de liberdade. Tendo relido o livro de sabedoria Eclesiastes, reflito sobre a irrestrita condição de liberdade. Tendo me aplicado a diferentes modalidades de terapia e programas de desenvolvimento também.

A gente desembolsa duzentos reais por uma hora de testemunho, pela presença humana que garanta um tipo de compromisso com o arrependimento. “Tal coisa me faz mal”. Reconhecer em frente a um igual dói que não tem tamanho, mas cura. 

A intenção deste texto é deixar claro que, para mim, nossos irmãos que ainda estão presos à lei, e, nisso, flertam com a punição, o autoritarismo, com os tratamentos corretivos – como apresentou Foucalt no Collège de France – , não têm uma experiência com a liberdade.

Tenho experimentado acreditar em tudo. Experimentar tudo. E reter o que é bom. E concluo que dizer sobre Curitiba “aqui se cumpre a lei” é o mesmo que “aqui não se tem liberdade”.

Defende o quê

São dias sombrios em Curitiba. As nuvens escuras desta terça-feira anteciparam o entardecer, e parecia que era hora de ir para a cama às três da tarde. A vida faz mais sentido quando há sentido em cada coisa. E as “profundezas do subsolo”, nas palavras da poetisa curitibana Bia de Luna, fazem contraste duro com a luz da liberdade. Já raiou um presidente sem classe em Brasília. Não se trata de ternos caros e rituais, mas da ausência de espírito republicano e de péssimo gosto para causas.

Um homem é o que defende. O que orbita em volta disso pouco ou nada importa para a vida eterna. Em dez anos, quem se lembrará e do quê? E em um milênio? Carregamos reputações frequentemente avassaladas pelas elites das cidades. Cada qual tem de explicar mil vezes a que veio, e por qual razão decidiu se humilhar para este senhor e não outro. Penso nisso quando funcionários de marcas famosas são impelidos a expressar satisfação na vida sofrível que podem ter. Para os menos materialistas, o servir a Deus, nas mais diferentes formas de fazê-lo, servir ao Deus que não tem nome, que está acima de todo nome, ainda é uma escolha.

Servir é uma escolha. Ser jornalista é uma escolha. Quando facilito trabalhos de desenvolvimento em comunicação, quando oferto consultoria técnica, um mundo tão rico aparece para as pessoas, tal qual uma experiência mística. Descobrir coisas sobre mim e sobre o outro. E sempre penso quanto privilégio temos nós, jornalistas, de viver sob a iluminação da criação rotineiramente.

Todos os dias, sem pular nenhum, perguntamos coisas aos outros, porque estamos interessados nos outros. As conexões que nos mantêm vivos têm a ver com você que lê este texto. Escrevemos, produzimos, gravamos, para nos relacionar com alguém. E se um alguém nos manda calar a boca, ficamos absortos em uma percepção de traição.

O presidente Jair Messias Bolsonaro não é alguém. Ele não pode ser levado em conta quando se trata de relação organizacional, como é o caso do contrato entre os repórteres e ele. É patológico. É clínico. É cinismo clínico. E os que o defendem às cegas, como é o caso de algumas igrejas que conheço de perto, precisam urgentemente reler o texto do bispo de Jerusalém, apóstolo Tiago. Quem quer andar com Deus, tem de ter comunhão com os irmãos e andar na luz.

“Em uma coisa eu acredito: que a mente livre e investigativa do indivíduo é o que há de mais valioso no mundo. E contra uma coisa eu devo lutar: qualquer ideia, religião ou governo que limite o indivíduo. É isto o que eu sou e é isto o que penso. Posso entender por que um sistema baseado numa certa organização deva tentar destruir a mente livre, pois ela pode destruir tal sistema. Certamente sou capaz de entender isso, e o odeio, e lutarei contra ele para preservar a única coisa que nos separa dos animais não criativos. Se a glória puder ser morta, estamos perdidos”.

— John Steinbeck.

Não calamos

Muitos jornalistas de Curitiba e do Paraná não estão nesta montagem, mas estamos juntos aqui para reforçar o que costumamos dizer diariamente em nossas redações e escritórios: “Nós não nos calamos”. Entendemos nossas vocações desde pequenos, e tivemos de lidar com nossos pais e outras figuras de autoridade que realmente importaram para nossa formação. Não vai ser um presidente da República que nos mandará calar a boca. Nunca.

Saia Moro

Prezado [ex-]ministro Sérgio Moro, é de nossa índole brasileira fritar figuras públicas por motivos errados. Na imprensa dos Estados Unidos, escândalos sexuais são necessários para dar vazão ao ódio (ódio é o desejo de morte). Aqui, a gente fala de cloroquina. Nesse aspecto, somos um país mais cristão, mais apostólico.

O que o senhor, os seus, e suas equipes fizeram na Lava Jato foi transformar minha profissão de jornalista em uma latinha de excremento. Por sua indireta responsabilidade, repórteres de baixíssimo nível crítico, leitores de autoajuda e audiências de filmes de amor e de heróis são agora destaque no Nacional. Não é o caso de lhe perdoar por isso.

Nesse contexto complexo que aqui se expressa pela premissa de quem lê sabe do contexto complexo, a única saída honrosa neste momento é sua saída do governo. Faça com coragem e ímpeto de quem mandou tanta gente suja para a cadeia.

Editado pelo jornalista Aroldo Murá e publicado originalmente no site dele.

A Glenn Greenwald

Prezado Sr. Glenn Greenwald, saudações. Meu nome é Vinícius Sgarbe.

Se a informação do Wikipédia estiver certa, o senhor se mudou para o nosso país – meu e seu – no mesmo ano em que comecei a trabalhar como repórter. Poderíamos ser iguais nos assuntos do fazer jornalismo no Brasil. Imagine. Sua trajetória impressiona, e gosto do senhor frequentemente.

Por pouco não se fala de outra coisa além da patetização do Planalto. Uma parte das informações que tenho para as decisões intelectuais vem do site The Intercept Brasil. Do vosso trabalho de iluminar mensagens ocultas e escrutinar intenções poderosas e letais.

Da minha idade pra frente, parece que as pessoas morrem por qualquer motivo. Eu e a jornalista Cassiana Pizaia produzimos uma série de vídeos com entrevistas sobre a prevenção do suicídio de idosos. Uma mulher colocou fogo em seu corpo – ouvi, nesta semana, um médico que encontrei por acaso dizer que aquele fogo é para chamar a atenção.

Sr. Greenwald, nós fracassamos – no plural, para me integrar ao grupo, entendendo um fenômeno coletivo. Nós fracassamos miseravelmente.

Talvez o senhor já tenha ouvido a expressão “consertar o avião no ar”. Nós, não. Explodiu, caiu, pegou fogo, morreu todo mundo, pânico e desgraça. Estamos abandonados à crença de que não somos gente. É isso que eu penso.

Nesse contexto, o que o procurador Sr. Deltan Dallagnol e o presidente da Petrobrás, Sr. Roberto Castello Branco, falam “trocado por merda sai caro” – com licença para as palavras do sádico que fez sucesso expondo cadáveres, demências e pornografias, Sr. Luiz Carlos Alborghetti. Uma memória infantil.

Esta carta pode parecer abstrusa. Em breve, explico a razão de meu descontentamento. Antes, vou contar uma coisa.

Em julho deste ano, em Curitiba, a Lava Jato promoveu uma coletiva.

Foram falas tão relevantes quanto não lembro o que ninguém falou. No papel de correspondente especial do jornal O Globo – o frila que tem prestígio – recomendei e concordamos, eu e os editores de política, que não havia notícia e que o melhor destino dos 2.842 toques escritos em português de literato era a lixeira. Uma relação ética, ética profissional. Por que não etiqueta profissional.

No passado, ainda para O Globo, manchetei (que verbo horroroso) que o então deputado federal Sr. Jair Bolsonaro acreditava que as pessoas do PT tinham atirado contra as pessoas do PT. Ninguém tinha conseguido falar com ele. Eu consegui. Eu treino minha voz, estudo análise transacional, estudo jornalismo. Eu sei me comportar. Ele falou comigo.

No meio de uma multidão que se acotovelava, ele falou comigo.

Depois, publiquei sobre o ministro Sr. Sérgio Moro ter negociado uma cadeira no Supremo (fazendo graça, deve ser a do “terrivelmente evangélico”). E sobre a juíza Sra. Gabriela Hardt ter copiado uma sentença importante.

Estive no maior encontro islâmico das Américas – que reuniu xiitas e sunitas de muitas partes do mundo. Ninguém era proibido de entrar, e ao mesmo tempo gente sem classe não era bem-vinda. Um xeque me deu R$ 600 e disse que era “simbólico, muito simples”, que eu deveria “comprar alguma coisinha antes de voltar para casa”. E quem disse que eu soube recusar?

Sr. Greenwald, pergunto. Pareço um jornalista? Um repórter? Ou um propagandista do Ministério Público? O senhor respondeu que “se O Globo tivesse jornalistas e repórteres em vez de propagandistas para o MP” então se saberia disso ou daquilo. Estou decepcionado. E eu poderia ter me decepcionado antes.

Durante as ocupações de escolas secundaristas no Paraná, o site The Intercept Brasil me perguntou se eu poderia escrever. Em algumas horas, tínhamos 16.034 toques. A editora insistiu que eu subisse o tom de crítica à Globo. Ela enviou um exemplo, qual seja um texto ofensivo contra o jornalista Sr. Alexandre Garcia. Os comentários do Sr. Garcia parecem sair do Gerador de Lero-Lero. Quem se preocupa?

Além do mais, encontrar erros da TV aberta (e da fechada, dos documentaristas, dos sites) em uma ocupação é tão fácil. Tão fácil que desconfiei. Fiz críticas aos enquadramentos e técnicas dos meus colegas e, é claro que os entrevistei e registrei na reportagem.

Sem sentar na Globo, recebi o dinheiro, mas não foi para o ar.

“Era manhã quinta-feira, 29 de setembro, em São José dos Pinhais, na grande Curitiba. O município de 200 mil habitantes tinha, certamente, esperanças para o Natal: orgulhava-se, todo fim do ano, de exibir a Casa do Papai Noel na televisão. O mesmo grupo político governava há muitos mandatos, até que Mariana Gomiela, 16, fez uma brincadeira durante a aula. ‘A gente podia ocupar a escola’”.

Ofereci pautas que considerei grandes e que chegariam longe pelo olhar multicultural. Uma sobre nazismo em Curitiba, com fontes potentes – antes das eleições que nos marcaram. Outra sobre o uso do hijab por estudantes curitibanas estar ameaçado nas escolas municipais. Fui ignorado.

O senhor tem sucessos para os quais grandes jornalistas e repórteres da minha cidade não se inscreveram. Temos nossos orgulhos, prêmios e problemas. Não precisamos importar nada. Não fique sozinho, Sr. Greenwald. Tem muita gente em volta e poucos são piores que o senhor.

Contra a mediocridade telejornalística

Jornalistas estão no mesmo barco, exceto os de televisão. Construo essa crença faz tempo e tem a ver com as poderosas forças do marketing e do dinheiro, próprias das redações com carpete. Normal. Curitiba, Atlanta, Londres, Paris. CNN, BBC, Franceinfo. Longe de ser um privilégio. É que televisão custa caro e precisa de suporte de áreas que não são noticiário.

Lembremos – um tanto engraçado, para as duas. Ruth Bolognese interrompe Joice Hasselmann, ao vivo, mais ou menos assim: “Joice, o minuto da televisão é muito caro para você continuar falando”. É disso que se trata.

A engenharia que leva a TV para a casa das pessoas é ridiculamente cara.

Você sabe quanto custa um cabo de microfone? Uma lente? Uma câmera? A formação para operar os equipamentos?

Quanto da vida de Gladimir Nascimento, Dulcinéia Novaes, José Wille, Marcos Tosi, Sandro Dalpícolo, Jasson Goulart, Solange Berezuk, Fernando Parracho, Wilson Soler – reconheço a insolência de não listar um a um – dedicou-se ao jornalismo de televisão? Ora. O nível esperado é de diplomata, cientista, professor – com inteligência, erudição e educação impecáveis. São assim. Na grandeza das próprias índoles, olham outras terras.

No exercício da profissão, Gladimir Nascimento resgatou uma adolescente grávida de um prostíbulo. Enfrentou sozinho os “ladrões de galinhas”.

Dulcinéia Novaes é a presença celeste. Inesquecível no talento e na presteza. Wille é a própria integridade do texto. Sandro, quando tem o jornal para apresentar, faz parecer que temos tempo infinito, atenção exclusiva. Parracho reúne uma multidão ao gravar um especial. Carrega tripé, câmera. São essas as vidas legítimas do jornalismo de televisão.

São essas as pessoas que me inspiram.

Agora, jovem repórter que se aboba em público. Que torna histórias possíveis em lixo seboso. Que se derrete na bajulação com o editor, com o coordenador, mas é rude com os colegas. “Tolo! Você vai morrer esta noite! E seu celeiro grande e abarrotado? Para quem ficará?”. Manuais de Olga Curado, Ivor Yorke, isso é básico. Livro do Augusto Curi? Osho?

Cultura nerd? Você está indo pra onde? Acorde pra cuspir! Erra no básico, no português. Erra no necessário, nas novas técnicas. Erra no divino, sem criatividade. Na sua idade e encostado, exclusivamente medíocre.

Você diz “seu” Fulano ou “dona” Cicrana, ao chamar seus entrevistados.

Não é nada. Participa de histórias que não entende, fala “seu” Preto Com Fome Precisa de Minha Superioridade. É isso que ouço. Passa apressado pelos tesouros alheios. Deixa um rastro de constrangimento intelectual.

Pode se envergonhar de ter feito papel de pateta na Lava Jato, e em outras histórias. É difícil para um repórter vaidoso, mas um pouco de arrependimento não faz mal a ninguém. Sejamos claros, uma vez – e em público, já que é em público que humilhamos nossas fontes (quando as entrevistamos e não as publicamos, por exemplo). Todos sabemos e comentamos que movimentação de processo na Justiça não é notícia. Que a conjugação dos verbos “deixar”, “comentar” ou “enviar” na segunda pessoa do imperativo é um regionalismo que não é daqui. Que a “belíssima” imagem do espectador, recorrente e mal captada, é uma porcaria.

Em vez de pensar na “Dona Não Sei Quem” do bairro que você não sabe o nome de uma rua, na hora de gravar, tenha em mente estas pessoas:

Luiz Geraldo Mazza, Hélio Pugliesi, Cícero Cattani, Nara Moreira, Nadia Fontana. Michelle Thomé, José Carlos Fernandes, Roberta Canetti, Carolina Gomes, Fábio Buchmann, Lenise Klenk, Fernando Rodrigues, Eduardo Abilhoa, Luciana Marangoni, Rubens Burigo, Malu Mazza, Ana Zimmerman, Carolina Wolf, Adriana Milczevski, Ana Carolina Oleksy, Marcelo Rocha, Sérgio Tavares Filho, Valquiria Silva, Roger Pereira, Vinicius Boreki, Estelita Carazzai, Giselle Hishida, Aline Castro, Daiane Figueiró, Heliberton Cesca, Tathiana Mesquita, Douglas Santucci, Lucas Rocha, Helen Anacleto, Narley Resende, Karina Bernardi, Carolina Cattani, Aroldo Murá Haygert, os doutores e mestres da PUCPR, UFPR, Tuiuti, UEPG, UEL, os anciãos jornalistas, os excelentes jornalistas, as melhores formações. Todos olhando.

Vamos, jovem repórter, fazer vídeos que nos deixem com orgulho?

Eleitoral ilegal

Em frente ao prédio da Justiça Federal, em Curitiba, agora há pouco, uns 30 – no máximo – patetas fizeram uma homenagem à Lava Jato, declarando “apoio incondicional” à operação, ao ministro Moro e ao presidente Bolsonaro.

Os patetas estão absurdamente no caminho errado, se querem ser levados a sério na República. No que chamam de manifestação, fazem “propaganda [eleitoral] prematura e ilegal”. Garantidamente, tocar nos alto-falantes “Bolsonaro 17” – com nome e número do candidato, é crime.

No trio, uma mulher decrépita evangelizou: “Vocês querem que o Lula saia da cadeia?”. Minha senhora, a gente querer é uma coisa, a gente cumprir a lei é outra. Não me parece das curitibanas o desmiolo e a falta de classe simultaneamente. Rompendo em linha do desagradável.

Por fim, o vídeo porcaria da propaganda fora de época do pessoal. Em frente à Justiça, pelo favor entre servidores públicos e pelo crime eleitoral. Em tempo. Pedindo seu voto (agora você pensa ou fala “eu vou votar mesmo! Mito!”).

Editado pelo jornalista Aroldo Murá e publicado originalmente no site dele.

Quando a Vaza Jato

Serve pelo menos duas coisas saber das conversas do ministro Moro. A primeira é que “luz sobre as trevas” ou “de Deus não se zomba” tem a ver com o Brasil. Em algum momento eu me senti desamparado e envergonhado – pela sensação de “merecer” a presidência de Bolsonaro.

ESTAVA ERRADO

Eu estava errado. Porque é da índole de Deus usar grandes homens. Bolsonaro “será molhado com o orvalho do céu e com os animais comerá a grama da terra. A mente humana lhe será tirada, e ele será como um animal, até que se passem sete tempos” (Daniel, 4. NVI).

CULPA PRESIDENCIAL

Se agora temos textos que elucidam nossas antigas convicções sobre a Lava Jato, é porque o presidente Bolsonaro provocou a “moralização do nosso país”. E colocou o jornalismo para fazer reportagens.

ALTO-FALANTE

A presença de Moro em um supermercado de Curitiba, à época de juiz, foi motivo para anúncio no alto-falante. Levaram a sério a “República” e a morolização”. Por isso, muitos dos meus amigos tiveram vontade de morrer. Alguns, nem tão figurativamente falando, deprimiram-se.

Minha fé se fortalece quando Deus se ocupa dos ídolos. E a outra coisa. Apesar de Moro ter digitado “não me arrependo do levantamento do sigilo. Era melhor decisão (sic)”, conversei com bolsonaristas para os quais a ética do ex-juiz não fez nenhuma falta. Aquela crença no escolhido.

Editado pelo jornalista Aroldo Murá e publicado originalmente no site dele.

Hilux ingrata

Os patinetes são a ponta de uma discussão sobre o uso da cidade, do mundo. Por alguma razão desconhecida, alguns motoristas acreditaram que a rua é dos carros, por exemplo. Esses não gostam de motos, que dirá bicicletas ou patinetes. Moro em frente a um mercado e o portão do estacionamento é também um tipo de túnel do julgamento. Escrevo essa bobagem fundamentado no permanente buzinaço a favor do dono da Hilux e seus pares. Há um esforço para que o dono na Hilux seja notado e temido, aqui no bairro.

Saí a pé para o trabalho, carregado até à hérnia inguinal de equipamentos para filmagem, quando ouvi o pânico da caminhonete em frente ao mercado. O veículo reluzia feito Lúcifer, novinho, com plásticos nos bancos. E o dono enfurecido por ter de esperar por uma manobra irrelevante. Queria passar agora. Por cima de qualquer um.

Depois de buzinar feito um píssico, saiu cantando pneu. E eu pensei que sujeito ingrato.

Editado pelo jornalista Aroldo Murá e publicado originalmente no site dele.