Eleitoral ilegal

Em frente ao prédio da Justiça Federal, em Curitiba, agora há pouco, uns 30 – no máximo – patetas fizeram uma homenagem à Lava Jato, declarando “apoio incondicional” à operação, ao ministro Moro e ao presidente Bolsonaro.

Os patetas estão absurdamente no caminho errado, se querem ser levados a sério na República. No que chamam de manifestação, fazem “propaganda [eleitoral] prematura e ilegal”. Garantidamente, tocar nos alto-falantes “Bolsonaro 17” – com nome e número do candidato, é crime.

No trio, uma mulher decrépita evangelizou: “Vocês querem que o Lula saia da cadeia?”. Minha senhora, a gente querer é uma coisa, a gente cumprir a lei é outra. Não me parece das curitibanas o desmiolo e a falta de classe simultaneamente. Rompendo em linha do desagradável.

Por fim, o vídeo porcaria da propaganda fora de época do pessoal. Em frente à Justiça, pelo favor entre servidores públicos e pelo crime eleitoral. Em tempo. Pedindo seu voto (agora você pensa ou fala “eu vou votar mesmo! Mito!”).

Editado pelo jornalista Aroldo Murá e publicado originalmente no site dele.

Quando a Vaza Jato

Serve pelo menos duas coisas saber das conversas do ministro Moro. A primeira é que “luz sobre as trevas” ou “de Deus não se zomba” tem a ver com o Brasil. Em algum momento eu me senti desamparado e envergonhado – pela sensação de “merecer” a presidência de Bolsonaro.

ESTAVA ERRADO

Eu estava errado. Porque é da índole de Deus usar grandes homens. Bolsonaro “será molhado com o orvalho do céu e com os animais comerá a grama da terra. A mente humana lhe será tirada, e ele será como um animal, até que se passem sete tempos” (Daniel, 4. NVI).

CULPA PRESIDENCIAL

Se agora temos textos que elucidam nossas antigas convicções sobre a Lava Jato, é porque o presidente Bolsonaro provocou a “moralização do nosso país”. E colocou o jornalismo para fazer reportagens.

ALTO-FALANTE

A presença de Moro em um supermercado de Curitiba, à época de juiz, foi motivo para anúncio no alto-falante. Levaram a sério a “República” e a morolização”. Por isso, muitos dos meus amigos tiveram vontade de morrer. Alguns, nem tão figurativamente falando, deprimiram-se.

Minha fé se fortalece quando Deus se ocupa dos ídolos. E a outra coisa. Apesar de Moro ter digitado “não me arrependo do levantamento do sigilo. Era melhor decisão (sic)”, conversei com bolsonaristas para os quais a ética do ex-juiz não fez nenhuma falta. Aquela crença no escolhido.

Editado pelo jornalista Aroldo Murá e publicado originalmente no site dele.

Hilux ingrata

Os patinetes são a ponta de uma discussão sobre o uso da cidade, do mundo. Por alguma razão desconhecida, alguns motoristas acreditaram que a rua é dos carros, por exemplo. Esses não gostam de motos, que dirá bicicletas ou patinetes. Moro em frente a um mercado e o portão do estacionamento é também um tipo de túnel do julgamento. Escrevo essa bobagem fundamentado no permanente buzinaço a favor do dono da Hilux e seus pares. Há um esforço para que o dono na Hilux seja notado e temido, aqui no bairro.

Saí a pé para o trabalho, carregado até à hérnia inguinal de equipamentos para filmagem, quando ouvi o pânico da caminhonete em frente ao mercado. O veículo reluzia feito Lúcifer, novinho, com plásticos nos bancos. E o dono enfurecido por ter de esperar por uma manobra irrelevante. Queria passar agora. Por cima de qualquer um.

Depois de buzinar feito um píssico, saiu cantando pneu. E eu pensei que sujeito ingrato.

Editado pelo jornalista Aroldo Murá e publicado originalmente no site dele.

Sem paciência

A contar pelos argumentos recentes do presidente – nos quais se ele se faz o próprio oprimido da pedagogia – e do rarefeito eleitorado dele que se habitou às “dobras de aposta”, propõe-se explicitamente que o país viva um exercício de caridade, e não exatamente a condição cidadã.

“Mas ele acabou de entrar” é uma frase ofensiva, especialmente quando falada ou escrita por pessoas que não sabem esperar em uma saída de supermercado.

Não existe absolutamente nada a esperar. O Planalto tem de se comportar como topo político nacional. Não foram os votos da direta ou da esquerda – nessa confusão intelectual, social e política -, mas o Brasil quem elegeu Bolsonaro. Foram as estruturas de poder, foi a democracia representativa. Ele não tem obrigações maiores com o PSL, ou os próprios partidários, maior do que tem com a República.

Bolsonaro está no poder, gozando da Presidência. Nós demos isso a ele.

Que não nos peça agora, além disso, qualquer paciência.

Editado pelo jornalista Aroldo Murá e publicado originalmente no site dele.

Lava Jato após a morte

“Não fugir [da Lava Jato] de uma forma covarde”, empina sobre a morte do ex-presidente do Peru Alan García.

SATANISMO

Ao ler a A14 da Folha de sábado, fiquei enojado com o satanismo de Marcelo Bretas. Algo “o centro sou eu, a razão sou eu, eu sou, você não é”. Uma versão magistral do anúncio da tesourinha do Mickey. O juiz (por tantos desclassificado) do mundo dos vivos deu agora de julgar os mortos.

INCRÉDULO

Incrédulo quanto à fala de Bretas, liguei para um amigo que me disse:

“Não tive estômago para ler. Passei direto”. Isso, tamanho o nojo que se pode ter de uma ideia desta categoria: de que a Lava Jato é maior que o poder da vida e da morte!

O que Lúcifer, o pai da mentira, quer mesmo são filhos do tamanho de Bretas. Lembrem sempre: adorar o diabo é se achar maior que Deus. Nesse sentido, que grandioso culto é esse da Lava Jato.

Editado pelo jornalista Aroldo Murá e publicado originalmente no site dele.

No futuro tem paz

Temos o assunto dos abusos para conversar – os abusos às nossas comunidades que não podem e não vão passar despercebidos. Eu lhe convido a ler sem tantas reservas, porque somos maiores que o PT ou o PSL. No último domingo, o presidente Jair Bolsonaro foi eleito democraticamente e, se estivermos atentos, será sempre assim: voto depositado em urna confiável concede mandato a quem o povo escolhe. Mas convido a olharmos para uma fala da professora alemã Dra. Hanna Knapp que ouvi recentemente. Escrevo sobre a Alemanha para que possamos nos comparar a um país melhor que o nosso e não pior.

É um panorama. A Alemanha – além da importância histórica – mantém o protagonismo na União Europeia e é uma das maiores economias do mundo. Esse país, e daqui pra frente engrossa a nossa conversa, está atento às políticas para refugiados e à violência de grupos neonazistas. O Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, na figura do ministro Heiko Maas, pede ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, uma atitude cordial. Tal atitude é ampla e futurista, passando por acordos econômicos e direitos humanos.

A contar pelas falas de professores (a historiadora brasileira Francielly Barbosa pesquisa a os desdobramentos do nazismo em Curitiba) e do conteúdo das notícias, entendemos a preocupação alemã: eles trabalham para evitar que os acontecimentos trágicos da Segunda Guerra sejam repetidos. Apesar da Alemanha ser um país democrático, de imprensa livre, grupos favoráveis a crimes são impedidos de propagar ideias. Daí é que vem o “paradoxo da intolerância”. Paradoxo é uma “opinião contrária à comum”. Um exemplo nos ajuda.

Hipoteticamente, um grupo que agride e mata (ou que acredita que agredir e matar são caminhos para o mundo) – neste exemplo um grupo neonazista – deve ser combatido para que não agrida e não mate. A Alemanha e outros países entenderam que se deve oferecer intolerância para os intolerantes. Por isso é que se chama “paradoxo da intolerância”.

A experiência alemã é a de que passo a passo se pode chegar à morte de milhões de pessoas. Para quem entende a matança de humanos como atrocidade irreparável, grupos violentos – de direita, de esquerda, abusadores disfarçados de #lulalivre ou #b17, e uma lista enorme – devem ser alvos próximos de nossas polícias e nossas lideranças comunitárias.

Bem acima da eleição, a retirada de um faixa antifascista de uma universidade é um alarme – e isso aconteceu factualmente, no Brasil. Um degrau, depois outro, depois outro. Ora, se alguém é efetivamente fascista, essa pessoa tem problemas com a polícia. Que há uma crise ética nas universidades ninguém tem dúvida (poderíamos mencionar a instalação de comitês eleitorais dentro delas, por exemplo). Universitários chegam ao mundo do trabalho frequentemente perdidos. Mas, se universitários não podem ser antifascistas, a crise ética está também nas famílias, nos governos e nas polícias. No ano passado, realizei entrevistas com professores, historiadores, delegados e psicólogos para falarmos, jornalisticamente, sobre os grupos violentos – mas os editores a quem ofereci o material não consideraram a pauta suficientemente relevante.

Publicado originalmente no jornal Gazeta do Povo, em 31 de outubro de 2018.