Velha exploração

De longa data listo digital influencers (não memorialistas, não filósofos, não escritores, não educadores, mas influencers) junto ao pessoal de startup. Não que a causa dos trabalhadores não seja legítima. Pelo contrário, minha crítica é à roupa transada para a velha exploração.

Só que influencers e empreendedores frequentemente não se enxergam como classe operária. Estão mergulhados no conto do amor corporativo que termina em miséria: se der certo, dividimos o lucro. Se ser errado, você paga as dívidas. O “anjo” é Lúcifer em pessoa.

Agora os profissionais de TI estão abandonando as startups porque precisam da segurança das empresas tradicionais. Uma delas é O Boticário, conforme reportagem do Estadão. É mais um recibo de que o modelo está errado na essência. Que é preciso mais do que ser top.

Pais lunáticos

Contra umas cinco ou seis especificações técnicas, gravo este vídeo fora de foco, com branco errado e barulhento. Este vídeo parece bem comigo! Fora do tom, sem melodia. Já o amor é construção trabalhosa que fica mais fácil quando as pessoas são interessantes. É o casos dos nossos pais lunáticos.

Eu me diverti muito gravando este vídeo. Rir de mim, rir da linguagem, levar em conta a imperfeição. Mas tem uma mensagem nos escombros. Quem a achará.

Curitibano burro

Tem uma incoerência no curitibano burro que se sobressai agora. Antes, era pronto para reclamar da saúde. Assistindo diariamente a programas de porta de posto de saúde, tinha consigo a certeza que as consultas demoravam, tadinha da senhora que morreu à espera de atendimento.

Decretou falência múltipla dos atos do pensamento quando ficou com Bolsonaro na encrenca que o presidente teve com Mandetta em plena pandemia. Agora que o ex-ministro que é do partido do prefeito elogia a saúde daqui, é só amor na cidade dos sonhos. Um mapa de coerência faz bem.

Duvida do número de mortos que o governo da paixão da vida dele conta. Duvida do Globo, da Folha, do Estadão, e acredita no WhatsApp. Acredita mesmo no WhatsApp. Curitibano, acorde pra cuspir! Tem um futuro para se planejar sem a ajuda de empreendedores forasteiros.

Para Janine

Janine, fiz força para te escrever uma carta manuscrita. A caligrafia sofrível te darias vergonha e, além disso, redigir em fluxo de pensamento desfavorece minha conjugação verbal. É claro que endereçar uma carta à mãe, no Dia das Mães, exige alguma compostura. Ser filho de uma mulher inteligente tem mais dessas coisas. Se eu te imprimisse uma almofada com uma foto nossa, tu medirias minha temperatura. 

A mãe diz o quê, o pai diz como. Liçãozinha básica de legado. Ser teu filho me faz feliz, pelas vivências todas, e, como as acesso com mais proximidade, especialmente as de agora. Nos anos que me estudo – tu me levaste à primeira terapia quando eu tinha oito anos – , e nos anos que estudo minha relação com os outros no papel de facilitador profissional, venho descobrindo coisas maravilhosas a teu respeito, mãe. 

A primeira delas é diligentemente não permitiste que eu me achasse menos inteligente do que tu és. Perguntas-me coisas que sabes, pedes-me ajuda em coisas que dominas, elogias-me por minhas misérias. Tu és, minha mãe, a desenvolvedora mais poderosa que sigo. E que não pareça autoelogio transversal, porque se trata de ter de mim o reconhecimento que tens de todos.

Teu choro fácil, tua comoção com a fraqueza dos homens e das mulheres, com a tua própria, faz de ti mais afortunada dentre os teus irmãos. Se achares necessário, acrescentes aqui os versículos faltantes.

Minha amada mãe, que tantas vezes te transformastes, que incontáveis vezes deixastes de ser o que eras, tens em mim, em meu irmão João, e na multidão numerosa como estrelas do céu, uma prole que te deseja um dia muito feliz.

‘Unidade Sentinela’

“Unidade Sentinela” é o nome que o governo do Paraná deu ao amontoado de presos e presas de Guarapuava com suspeita da Covid-19 ou infectados que vão para a Cadeia Pública de Palmital. O município não tem nenhum caso da doença e UTI mais próxima fica a 150 km.

Cumprir liberdade

Liberdade é uma construção do adulto, tanto quanto o amor. São preços altíssimos, beiram o impagável. Um tipo de oferta Nacirema por sofrimento.

Tendo relido a carta apostólica de Gálatas, reflito sobre irrestrita condição de liberdade. Tendo relido o livro de sabedoria Eclesiastes, reflito sobre a irrestrita condição de liberdade. Tendo me aplicado a diferentes modalidades de terapia e programas de desenvolvimento também.

A gente desembolsa duzentos reais por uma hora de testemunho, pela presença humana que garanta um tipo de compromisso com o arrependimento. “Tal coisa me faz mal”. Reconhecer em frente a um igual dói que não tem tamanho, mas cura. 

A intenção deste texto é deixar claro que, para mim, nossos irmãos que ainda estão presos à lei, e, nisso, flertam com a punição, o autoritarismo, com os tratamentos corretivos – como apresentou Foucalt no Collège de France – , não têm uma experiência com a liberdade.

Tenho experimentado acreditar em tudo. Experimentar tudo. E reter o que é bom. E concluo que dizer sobre Curitiba “aqui se cumpre a lei” é o mesmo que “aqui não se tem liberdade”.

Defende o quê

São dias sombrios em Curitiba. As nuvens escuras desta terça-feira anteciparam o entardecer, e parecia que era hora de ir para a cama às três da tarde. A vida faz mais sentido quando há sentido em cada coisa. E as “profundezas do subsolo”, nas palavras da poetisa curitibana Bia de Luna, fazem contraste duro com a luz da liberdade. Já raiou um presidente sem classe em Brasília. Não se trata de ternos caros e rituais, mas da ausência de espírito republicano e de péssimo gosto para causas.

Um homem é o que defende. O que orbita em volta disso pouco ou nada importa para a vida eterna. Em dez anos, quem se lembrará e do quê? E em um milênio? Carregamos reputações frequentemente avassaladas pelas elites das cidades. Cada qual tem de explicar mil vezes a que veio, e por qual razão decidiu se humilhar para este senhor e não outro. Penso nisso quando funcionários de marcas famosas são impelidos a expressar satisfação na vida sofrível que podem ter. Para os menos materialistas, o servir a Deus, nas mais diferentes formas de fazê-lo, servir ao Deus que não tem nome, que está acima de todo nome, ainda é uma escolha.

Servir é uma escolha. Ser jornalista é uma escolha. Quando facilito trabalhos de desenvolvimento em comunicação, quando oferto consultoria técnica, um mundo tão rico aparece para as pessoas, tal qual uma experiência mística. Descobrir coisas sobre mim e sobre o outro. E sempre penso quanto privilégio temos nós, jornalistas, de viver sob a iluminação da criação rotineiramente.

Todos os dias, sem pular nenhum, perguntamos coisas aos outros, porque estamos interessados nos outros. As conexões que nos mantêm vivos têm a ver com você que lê este texto. Escrevemos, produzimos, gravamos, para nos relacionar com alguém. E se um alguém nos manda calar a boca, ficamos absortos em uma percepção de traição.

O presidente Jair Messias Bolsonaro não é alguém. Ele não pode ser levado em conta quando se trata de relação organizacional, como é o caso do contrato entre os repórteres e ele. É patológico. É clínico. É cinismo clínico. E os que o defendem às cegas, como é o caso de algumas igrejas que conheço de perto, precisam urgentemente reler o texto do bispo de Jerusalém, apóstolo Tiago. Quem quer andar com Deus, tem de ter comunhão com os irmãos e andar na luz.

“Em uma coisa eu acredito: que a mente livre e investigativa do indivíduo é o que há de mais valioso no mundo. E contra uma coisa eu devo lutar: qualquer ideia, religião ou governo que limite o indivíduo. É isto o que eu sou e é isto o que penso. Posso entender por que um sistema baseado numa certa organização deva tentar destruir a mente livre, pois ela pode destruir tal sistema. Certamente sou capaz de entender isso, e o odeio, e lutarei contra ele para preservar a única coisa que nos separa dos animais não criativos. Se a glória puder ser morta, estamos perdidos”.

— John Steinbeck.

Não calamos

Muitos jornalistas de Curitiba e do Paraná não estão nesta montagem, mas estamos juntos aqui para reforçar o que costumamos dizer diariamente em nossas redações e escritórios: “Nós não nos calamos”. Entendemos nossas vocações desde pequenos, e tivemos de lidar com nossos pais e outras figuras de autoridade que realmente importaram para nossa formação. Não vai ser um presidente da República que nos mandará calar a boca. Nunca.

Saia Moro

Prezado [ex-]ministro Sérgio Moro, é de nossa índole brasileira fritar figuras públicas por motivos errados. Na imprensa dos Estados Unidos, escândalos sexuais são necessários para dar vazão ao ódio (ódio é o desejo de morte). Aqui, a gente fala de cloroquina. Nesse aspecto, somos um país mais cristão, mais apostólico.

O que o senhor, os seus, e suas equipes fizeram na Lava Jato foi transformar minha profissão de jornalista em uma latinha de excremento. Por sua indireta responsabilidade, repórteres de baixíssimo nível crítico, leitores de autoajuda e audiências de filmes de amor e de heróis são agora destaque no Nacional. Não é o caso de lhe perdoar por isso.

Nesse contexto complexo que aqui se expressa pela premissa de quem lê sabe do contexto complexo, a única saída honrosa neste momento é sua saída do governo. Faça com coragem e ímpeto de quem mandou tanta gente suja para a cadeia.

Editado pelo jornalista Aroldo Murá e publicado originalmente no site dele.

A Glenn Greenwald

Prezado Sr. Glenn Greenwald, saudações. Meu nome é Vinícius Sgarbe.

Se a informação do Wikipédia estiver certa, o senhor se mudou para o nosso país – meu e seu – no mesmo ano em que comecei a trabalhar como repórter. Poderíamos ser iguais nos assuntos do fazer jornalismo no Brasil. Imagine. Sua trajetória impressiona, e gosto do senhor frequentemente.

Por pouco não se fala de outra coisa além da patetização do Planalto. Uma parte das informações que tenho para as decisões intelectuais vem do site The Intercept Brasil. Do vosso trabalho de iluminar mensagens ocultas e escrutinar intenções poderosas e letais.

Da minha idade pra frente, parece que as pessoas morrem por qualquer motivo. Eu e a jornalista Cassiana Pizaia produzimos uma série de vídeos com entrevistas sobre a prevenção do suicídio de idosos. Uma mulher colocou fogo em seu corpo – ouvi, nesta semana, um médico que encontrei por acaso dizer que aquele fogo é para chamar a atenção.

Sr. Greenwald, nós fracassamos – no plural, para me integrar ao grupo, entendendo um fenômeno coletivo. Nós fracassamos miseravelmente.

Talvez o senhor já tenha ouvido a expressão “consertar o avião no ar”. Nós, não. Explodiu, caiu, pegou fogo, morreu todo mundo, pânico e desgraça. Estamos abandonados à crença de que não somos gente. É isso que eu penso.

Nesse contexto, o que o procurador Sr. Deltan Dallagnol e o presidente da Petrobrás, Sr. Roberto Castello Branco, falam “trocado por merda sai caro” – com licença para as palavras do sádico que fez sucesso expondo cadáveres, demências e pornografias, Sr. Luiz Carlos Alborghetti. Uma memória infantil.

Esta carta pode parecer abstrusa. Em breve, explico a razão de meu descontentamento. Antes, vou contar uma coisa.

Em julho deste ano, em Curitiba, a Lava Jato promoveu uma coletiva.

Foram falas tão relevantes quanto não lembro o que ninguém falou. No papel de correspondente especial do jornal O Globo – o frila que tem prestígio – recomendei e concordamos, eu e os editores de política, que não havia notícia e que o melhor destino dos 2.842 toques escritos em português de literato era a lixeira. Uma relação ética, ética profissional. Por que não etiqueta profissional.

No passado, ainda para O Globo, manchetei (que verbo horroroso) que o então deputado federal Sr. Jair Bolsonaro acreditava que as pessoas do PT tinham atirado contra as pessoas do PT. Ninguém tinha conseguido falar com ele. Eu consegui. Eu treino minha voz, estudo análise transacional, estudo jornalismo. Eu sei me comportar. Ele falou comigo.

No meio de uma multidão que se acotovelava, ele falou comigo.

Depois, publiquei sobre o ministro Sr. Sérgio Moro ter negociado uma cadeira no Supremo (fazendo graça, deve ser a do “terrivelmente evangélico”). E sobre a juíza Sra. Gabriela Hardt ter copiado uma sentença importante.

Estive no maior encontro islâmico das Américas – que reuniu xiitas e sunitas de muitas partes do mundo. Ninguém era proibido de entrar, e ao mesmo tempo gente sem classe não era bem-vinda. Um xeque me deu R$ 600 e disse que era “simbólico, muito simples”, que eu deveria “comprar alguma coisinha antes de voltar para casa”. E quem disse que eu soube recusar?

Sr. Greenwald, pergunto. Pareço um jornalista? Um repórter? Ou um propagandista do Ministério Público? O senhor respondeu que “se O Globo tivesse jornalistas e repórteres em vez de propagandistas para o MP” então se saberia disso ou daquilo. Estou decepcionado. E eu poderia ter me decepcionado antes.

Durante as ocupações de escolas secundaristas no Paraná, o site The Intercept Brasil me perguntou se eu poderia escrever. Em algumas horas, tínhamos 16.034 toques. A editora insistiu que eu subisse o tom de crítica à Globo. Ela enviou um exemplo, qual seja um texto ofensivo contra o jornalista Sr. Alexandre Garcia. Os comentários do Sr. Garcia parecem sair do Gerador de Lero-Lero. Quem se preocupa?

Além do mais, encontrar erros da TV aberta (e da fechada, dos documentaristas, dos sites) em uma ocupação é tão fácil. Tão fácil que desconfiei. Fiz críticas aos enquadramentos e técnicas dos meus colegas e, é claro que os entrevistei e registrei na reportagem.

Sem sentar na Globo, recebi o dinheiro, mas não foi para o ar.

“Era manhã quinta-feira, 29 de setembro, em São José dos Pinhais, na grande Curitiba. O município de 200 mil habitantes tinha, certamente, esperanças para o Natal: orgulhava-se, todo fim do ano, de exibir a Casa do Papai Noel na televisão. O mesmo grupo político governava há muitos mandatos, até que Mariana Gomiela, 16, fez uma brincadeira durante a aula. ‘A gente podia ocupar a escola’”.

Ofereci pautas que considerei grandes e que chegariam longe pelo olhar multicultural. Uma sobre nazismo em Curitiba, com fontes potentes – antes das eleições que nos marcaram. Outra sobre o uso do hijab por estudantes curitibanas estar ameaçado nas escolas municipais. Fui ignorado.

O senhor tem sucessos para os quais grandes jornalistas e repórteres da minha cidade não se inscreveram. Temos nossos orgulhos, prêmios e problemas. Não precisamos importar nada. Não fique sozinho, Sr. Greenwald. Tem muita gente em volta e poucos são piores que o senhor.