O telejornalismo pode ajudar no aprimoramento da língua?

Será que elas falam direitinho? Foto: CoWomen.

A língua do jornalismo pode ser um jeito de afiar a comunicação. Embora o verbo “haver” seja comum na fala, porque serve para substituir o “ter”, é raridade quem o utiliza na forma correta quando está no plural. Os exemplos a seguir estão na forma correta:

Havia três homens na casa.

Havia muitas folhagens na sacada.

Havia mais de trezentos mortos, ao todo.

Fácil quem erra esse, à exceção de jornalistas. Também somos muito bons em concordâncias verbais e nominais. Mas não se trata de autoelogio.

Em minha experiência de vida, restrita, pessoal, tenho a impressão e que quando elaboramos bem o que queremos falar ou escrever ficamos com as contas emocionais pagas. Isto é, mais importa que a mensagem saia o mais preciso que houvesse.

A gramática jornalística é simples, e

um vocabulário rico não quer dizer rebuscado”.

Michelle Thomé, jornalista e analista transacional.

É claro que às vezes é preciso voltar às coisas bem fundamentais. Assisti a uma reportagem linda do nacional na qual o repórter explicava o que é uma “hipótese”. Não lembro qual era a hipótese, mas lembro de entender o que é hipótese.

Em relação à integração linguística com a internet, temos um impasse. Estamos dispostos a falar e escrever errado em troca de interações?

Como é possível, então, falar de ‘erro’ se a construção não causa estranheza a falantes cultos e é perfeitamente assimilada do ponto de vista semântico e pragmático […]?

Marcos Banho, 2005. “Preconceito linguístico”, pág. 113.

Falando “erro”, querido Marcos. A redação noticiosa não pode perder mais acuidade que isto: a significação das palavras é antiética. Quando se fala de “bom”, fala-se de “bom e mau”. Quando se fala de “branco”, fala de “branco e preto”.

Vamos cortar a fala de um entrevistado que fala mal? Não. Vamos falar igual ele? Não. Adiante, sugestões de uso imperativo dos verbos:

Assista ao próximo episódio depois do intervalo.

Clique no link que está no rodapé do site.

Envie sua foto e participe do programa.

Vamos voltar à identidade substancial do ser jornalista?

Jornalismo e psiquiatria: uma abordagem para comunicação

A audiência está drogada. Foto: Altin Ferreira.

Aceitei o desafio feito pela Dra. Ana Babrilla para conversar estes dois assuntos: jornalismo e psiquiatria. A comunicação política na América Latina tem se inclinado à essa interseção, por exemplo o livro que o  jornalista chileno Dr. Felipe Vergara Maldonado escreve com uma amiga europeia da psicologia.

Na ocasião do “I Seminário Avançado de Comunicação Política”, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), perguntei a Maldonado sobre qual abordagem da psicoterapia se incluía na pesquisa dele. Ele não soube responder, o que é uma resposta.

Da psicanálise que não dá pé (de tão profunda) à simplificação das teorias comportamentais, é difícil ligar jornalismo de lead americano a questões psíquicas. Não é impossível. Mas é difícil porque a vastidão convida a conclusões precipitadas, como conferir a alguma figura pública o diagnóstico de presidente fraco da cabeça.

As metodologias herdadas das ciências sociais, tal qual as análises do conteúdo e do discurso, não seriam suficientes para explicar fenômenos comunicativos? Sim e não. Se fosse exclusivamente sim, este artigo seria inútil.

Sim, porque com tais recursos se pode descrever uma multidão de emoções e  sentimentos. Não, porque pode faltar às pesquisas de comunicação aspectos ainda mais profundos, capazes de tornar os contornos dos objetos mais nítidos.

Quando Sigmund Freud traça um paralelo entre as visões de mundo registradas na história e a formação da psiquê individual [do neurótico], ele nos faz olhar para animatismo, animismo, religião e ciência.

Embora o animatismo ganhe um nome exclusivo, ele é frequentemente entendido como fase pré-animismo. Do pré-animismo até a religião, tratamos, em maior importância, de explicar o mundo sob a “onipotência do pensamento”. Aliás, o que, justamente, divide as duas primeiras fases é a terceirização de entendimentos do indivíduo, na figura dos espíritos, quais sejam anjos e demônios. Feitiçaria e magia ficam neste parágrafo. 

Quando são evocadas essas visões de mundo,  Freud usa os registros que o antropólogo James Frazer fez dos povos totêmicos, os aborígenes da Oceania.

Como observação, cito que Freud identifica o totemismo em povos melanésios, polinésios, africanos e americanos, além de traços do totemismo em diversas outras culturas ao redor do planeta. Para Freud, assim como para Frazer, e outros dos antropólogos citados em Totem e Tabu (1913), os traços, vestígios e heranças do totemismo parecem possuir um caráter mais próximo do universal do que limitado à povos aborígenes australianos.”

Julio Fachini, pesquisador de filosofia da psicanálise.

É mais ou menos assim: o que a espécie humana vivenciou no cruzar da história, serve de metáfora para a formação pessoal. Quer dizer, existe um “pequeno aborígene” em cada pessoa, assim como existe um “religioso” e um “cientista”. Bem bem mais ou menos assim. Os neurocientistas de best-seller explicam com reptiliano, límbico e neocórtex. A análise transacional tem uma ideia genial com Estados do Ego Pai, Adulto e Criança.

Mas é somente na fase científica, na última, que se percebe a realidade ao redor e se conforma com ela. É quando deixa-se de fazer o Sol girar em torno da Terra.

A partir daqui se poderia discutir o que é pós-verdade. O termo tem sido vulgarmente explicado como o interesse emocional e sentimental associado a uma palavra ou a um texto. Pelo viés psicanalítico, não se trata de absolutamente nada novo. Triste do jornalismo que não prestou atenção antes.

Falta ainda mencionar que a audiência do noticiário está drogada, como se pode comprovar pelos traços de cocaína no esgoto de Londres ou de antiinflamatórios e antidepressivos na latrina curitibana.

A França discute dia-sim-dia-não a “pedopsiquiatria”. À época de pandemia de Covid-19, o governo de lá deu dez sessões de terapia para cada criança ou jovem entre três e 17 anos. 

Tem algo a se pensar sobre comportamento do público, não?

Jornalismo pode falar de assuntos difíceis como a dor

Flor morta. Foto: Marco Ortega.

No próximo dia 29, encerro um ciclo no papel de âncora de radiojornal. A convite do criador do “Saúde e bem estar” da Rádio Cidade 670 AM de Curitiba, João Arruda, marquei ponto no ar, de segunda a sexta-feira, das 10h ao meio-dia.

A experiência na rádio AM é linda, porque os ouvintes participam com mensagens de áudio enviadas pelo telefone, quando não entram ao vivo. Gostei de recebê-los com o simples “alô, quem fala?”.

Levamos ao estúdio, em parceria com o Conselho Regional de Psicologia do Paraná, profissionais para falar de luto e depressão. Mas se a ideia do programa é ser leve, como não aborrecer a audiência com temas que parecem cortar a polpa dos dedos com papel? Nossa resposta é: ir direto ao ponto, como a vida costuma ir.

Quando a conversa foi sobre perdas — que são várias, e em diferentes profundidades de dano — , Dayane Bubalo estava no estúdio.

Fiquei cega em 40 minutos.

Dayane Bubalo, ativista da causa da pessoa com deficiência.

Uma semana antes, o oftalmologista do Hospital IPO Luiz Eduardo de Aguiar Marques havia expressado a preocupação dele com o silêncio da retinopatia diabética, a doença que cegou Dayane.

Misael perdeu um filho

Enquanto a psicóloga Mari Mansur falava sobre as etapas do luto, ligou o ouvinte “Misael” (entre aspas pela incerteza da grafia).

Há um ano, perdi um filho. Nunca falei desse assunto em público, em redes sociais, nada, mas quis contar para vocês. Eu também perdi dois amigos para a Covid-19. Usem máscaras.

“Misael”, ouvinte da Rádio Cidade.

Com coragem para o simples

No programa sobre depressão, perguntei ao psicólogo Flávio Voight Komonski bem assim: “afinal de contas, o que acontece quando a gente vai à terapia, como que é?”.

Ele respondeu de maneira tão amigável que recebemos uma mensagem de voz que agradecia pelas palavras, “porque terapia não é só para quem está louco, não!”. Claro que colocamos no ar.

E não ficamos nisso. Deu tempo para discutir o que são abordagens em psicoterapia.

Notícia origina pesquisa sobre Louceiras do Maruanum

Louceira queima panela. Foto: Célia Souza da Costa.
Célia Souza da Costa*.

A notícia é uma forma incrível de popularizar assuntos, de simplificar o complexo, de expor temáticas variadas através de textos, imagens e sons. Essa é a magia do jornalismo, chegar onde não conseguimos e ecoar os acontecimentos.

Como uma ciência social, o jornalismo tem uma função social de popularizar as informações, e, assim, despertar a curiosidade nos receptores, ouvintes, telespectadores.

Isso aconteceu comigo, quando ainda não conhecia as Louceiras do Maruanum. Foi em uma reportagem que o click da curiosidade foi acionado. Lembro muito bem quando pela primeira vez ouvi falar sobre as Louceiras do Maruanum, logo decidi que precisava conhecê-las, e fui pesquisar.

Com o conhecimento teórico e visita de campo em 2011 estava decidido: iria pesquisar sobre o patrimônio cultural das Louceiras do Maruanum. Eu tinha acabado de ingressar no mestrado com uma proposta de pesquisa sobre a tradição do barro no Maruanum.

De uma reportagem surgiu a minha temática de pesquisa que por dois anos seria o centro, o objetivo a ser conquistado, com o foco no princípio da equidade intergeracional. 

As louceiras do Maruanum são mulheres quilombolas, amazônidas e ceramistas que residem no Distrito do Maruanum pertencente ao município de Macapá no Estado do Amapá.

Elas receberam das gerações passadas a tradição do criar-saber-fazer das louças de barro, da cerâmica do Maruanum. Todas as etapas do fazer das louças de barro são realizadas de acordo com os ensinamentos intergeracionais baseados em rituais, crenças e com o profundo respeito à natureza.

Tese sobre Louceiras do Maruanum

Passado o mestrado, o desafio seria outro: o doutorado. A pesquisa sobre as Louceiras do Maruanum continuava por mais quatro anos. Como pesquisadora, desde esse tempo busco dar visibilidade ao patrimônio cultural das Louceiras do Maruanum.

Foi na tese doutoral que propus estratégias educacionais para a conservação da tradição ceramista do Maruanum. Desse modo, essa pesquisa científica teve um papel fundamental ao oferecer alternativas à resolução de uma problemática das comunidades detentoras desse patrimônio cultural.

Volto à defesa de que o jornalismo tem uma função social na divulgação da pesquisa em patrimônio cultural. Tanto que busco oportunidades na imprensa para que as Louceiras do Maruanum falem sobre a tradição ceramista, para que eu fale sobre a pesquisa e para que haja a reverberação do conhecimento ancestral matriarcal que é a louça do Maruanum. Pois, não basta pesquisar e defender a tese. A pesquisa científica assim como o jornalismo também tem uma função social com as comunidades envolvidas.

Célia Souza da Costa, Curitiba, 2020. Foto: Vinícius Sgarbe.

*Célia Souza da Costa. Doutora em educação. Mestra em direito ambiental e políticas públicas. Pesquisadora sobre o patrimônio cultural das Louceiras do Maruanum. Palestrante.

O que o rádio ensina sobre ganhar público

Tem de marcar posição. Foto: Stefaan Van Parys.

Projetos de comunicação nascem da necessidade de contar alguma coisa a alguém, por isso se procura “como ganhar público”. Então, os tipos de publicação são vários. Nesse sentido, elas podem ser para um público restrito, no caso de um house organ, que é um “jornal da empresa”, para um nicho de assinantes, ou de broadcast, quando se vai às redes, rádio e televisão.

Contadores de piadas são invariavelmente bons comunicadores. Por isso, gosto de ficar em volta deles nos encontros de família. Quando eles floreiam o simples, capturam minha atenção. As melhores que ouvi são inverossímeis. “Uma freira estava na estrada segurando uma cesta de pintos…”

Cesta com pintos. Foto: Karolina Grabowska.

Por outro lado, ser bom com anedotas não significa ter sucesso perene em projetos pessoais ou empresariais de comunicação. Perfis famosos no YouTube e no Instagram tendem a ter prazo de validade quando não se profissionalizam.

Primeiramente, projetos de marcas, plataformas, ou políticos são de comunicação.

Além disso, as aulas de rádio da faculdade de jornalismo apresentam três aspectos fundamentais para a construção de público. Vamos emprestar a ideia do rádio, porque ela serve amplamente.

Como ganhar público

Em outras palavras, um projeto de comunicação precisa de oportunidade para aparecer.

Repetição

Vejo natimortos com frequência. São do tipo “vou postar a partir de hoje dicas de direito ambiental”, e o próximo post não existe. Um projeto marcante tem de dar as caras repetidamente.

Periodicidade

E não somente dar as caras repetidamente, tem de ter um intervalo razoável entre as publicações. Em outras palavras, uma newsletter enviada quinzenalmente tem mais chance de sucesso que uma enviada unicamente pela vontade do remetente.

Cada vez que se mantém a publicação viva, com periodicidade sagrada, é depositado um tantinho de confiança do público naquele projeto. Como ganhar público? De grão em grão…

Plástica

O professor de fotojornalismo André Zielonka brinca que “dominar a profundidade de campo é o que diferencia fotógrafos de mortais”. Estou com ele na ideia de que dominar a plástica faz diferença marcante entre projetinhos e projetos.

Eu me vali deste discurso panfletário
Mas a minha burrice faz aniversário

Herbert Vianna.

Por fim, a roupa, a fala, a qualidade da câmera, do microfone, o cenário. Essas variáveis têm de ser controladas para um resultado satisfatório.

Pessegueiro do campo morre ao ser atingido por raio

Jorge dá aula de botânica básica.

No terreiro das galinhas, encontro Jorge vestido para a roça. Ele desfere golpes com o facão, contra os pés de guanxuma que serviriam para a saúde do cabelo quando não amontoados no papel de praga que vale mato seco.

Finalidades adjacentes tendem a viver pouco no mato. Se quer guanxumas para usar no cabelo, que as plante e cuide delas. Agora, aqui, no terreiro das galinhas, daninhas, crescidas a partir de caules com um dedo de calibre, teimosas ao arrancar, não.

A seca mata árvores em Campo Largo da Roseira. Os troncos e galhos maiores vão primeiro para o chão, depois para a pilha a ser cortada, e, finalmente, encontram o cepo. Finalmente, porque dali em diante o destino é o fogo que sequer é eterno. É um foguinho de fogão que uma criança da cidade opera como atividade recreativa. De árvore que muda o mundo a brinquedo esdrúxulo. É preciso, meu Deus, cuidar da natureza.

E quando a chuva vem nervosa. Um raio parte ao meio o pé das ivaís, Eugenia myrcianthes, gostosas no paladar das éguas. O pessegueiro do mato tem folhas e margens do limbo inteiras, filotaxia oposta. As frutinhas são amarelinhas como araçá.

Quando morre, os galhos ficam em cima das outras árvores por um tempo, mas, cansadas do desaforo, largaram o serviço.

Jorge.

Os sons da manhã de sábado são parecidos com os de qualquer outra hora ou dia, exceto pelo estrondo das roçadeiras a gasolina. Há um grande acúmulo de maquinário ruidoso na paz do campo. O que um pressurizador de água ou um aspirador de pó são na cidade as roçadeiras são no Campo. Sinfônicos cantam os pássaros, os cachorros, as folhas e os sinos de gado.

Automatização da notícia: o que os robôs fazem melhor

Operador de empilhadeira trabalha. Foto: National Cancer Institute.

Em 2009, sob o título “Eweb: jornalismo digital padronizado“, quatro estudantes de comunicação social da PUCPR (eu era um deles) fizeram uma série de vídeos para a internet, como projeto de conclusão de curso.

Na produção, a técnica de cinema é uma tragédia universitária com requintes de cópia pirata do 3D Max instalada em um computador de leitura.

Em formato 16:9, reprodução da primeira tela da série animada em 3D Max.

É preciso menos de um minuto do primeiro vídeo para que “foco no usuário” apareça em destaque. À época de telefones BlackBerry serem a única rede criptografada, e de jornalistas e publicitários colonizarem no Twitter, chegar a tal conclusão pelo suporte de uma graduação em comunicação é no mínimo muito bom.

Hoje, o marketing digital e o modelo de plataformas de negócios sugerem que jornalistas continuem a fazer o que sempre fizeram eticamente e com inteligência.

Eu não vejo as pessoas procurando a internet para análises mais profundas, para algo que as faça refletir. O texto na internet vai saciar para aquela informação que atualize e que possa ser passada adiante.

Michelle Thomé, em entrevista ao Eweb, em 2009.

Michelle Thomé previa, com palavras próprias, os primeiros ensaios da pós-verdade e da política quântica. Ambas são, bem grosseiramente, quando opiniões e fatos têm o mesmo peso. É o “importa que eu me expresse”.

Lead americano

Homem lê jornal. Foto: Myznik Egor.

Mas algo tinha ficado de igual. O jornalista Luiz Oliveira cuidava da parte digital do jornal Gazeta do Povo, e, para ele, o texto na internet mantinha o formato criado pelos americanos.

O lead, amplamente apreciado pelas características de encadeamento das informações e otimização do tempo de leitura, responde às perguntas básicas:

  • o quê,
  • quem,
  • como,
  • quando,
  • onde, e
  • por quê

(como uma ou outra variação).

No ano seguinte à publicação de Eweb, Sharon Jeanine Abdalla pesquisou para a Universidade Federal do Paraná “Lead e pirâmide invertida: a influência do modelo americano sobre o jornalismo paranaense“. Ela entrevistou o jornalista Aroldo Murá G. Haygert.

Não adianta ter lead e essas técnicas direitinhas se o jornal for uma porcaria. (…) O jornal hierarquizava os títulos, eles tinham número de batidas, o que era muito difícil, na época. Quando você trabalha com tipografia é complicado, com o computador, hoje, é mais fácil fazer isso.

Jornalista Aroldo Murá G. Haygert.

Robôs podem escrever

Há mais de dez anos, Eweb discutia a tendência de automação do jornalismo, a partir do lead. Escritos e aprimorados os parâmetros, dados de realidade poderiam ser atualizados automaticamente, quer por motores de busca, quer por APIs (que são um tipo de conexão entre bancos de dados).

Um exemplo. A polícia rodoviária forneceria em tempo real o número de acidentes, multas, prisões no trânsito, etc. Os sites de notícias reproduziriam, por painéis temáticos, matérias, notificações, o que fosse, conteúdo que dispensa o trabalho intelectual. Robôs escreveriam:

“Duas pessoas foram presas por digirir sem carteira de habilitação, durante feriadão”;

“Fila na BR-277 tem fila de 2 km no sentido litoral, a partir do Jardim Botânico”;

“Emergência: neblina na entrada da Serra do Mar reduz visibilidade a 5 m”;

Fica para jornalistas

Duas cadeiras. Uma de frente para a outra. Foto: Steve Halama.

O repórter dispensado do link à beira da BR teria tempo para propor o que as máquinas não fariam de maneira inédita, como reportar sobre as consequências transgeracionais de mortes violentas. As famílias repetem o padrão de morrer na estrada?

Ou coisas rotineiras.

  • Quanto o governo investe em campanhas educativas?
  • Quanto tempo duram?
  • Como é medido o alcance?
  • Quais pesquisas são utilizadas para a criação?
  • O contribuinte pisa fundo por pagar pedágio?
  • Quem é multado por alta velocidade gosta de dirigir?
  • Quando as telefônicas vão instalar internet até a praia?

Copiados por franceses 😏

A trilha sonora utilizada em Eweb é do álbum “Deep Cuts“, lançado em 2003, dos irmãos suecos de “The Knife“. Em 2020, a televisão estatal francesa Franceinfo utilizou uma das músicas desse álbum para a chamada de um programa.

Nós, intelectuais (eu, hein), palavreamos com o mundo

Analogia.

A profissão repórter é aprimorada nas ciências humanas. Mas logo me vem a ideia do meme da Milena que quer vender a arte dela na praia. Não nos enganemos. O jornalismo pode contornar momentos difíceis da economia e de lapso no prestígio público, se enxergar além dos views ou gargalhadas.

Não se trata de estar desconexo, porque estou conectado à verdade de que o jornalismo é predominantemente praticado por intelectuais, e posso provar.

Na sexta série, tive apreço pela amizade de Cléber. Era um tipo parecido com o que eu trazia na boa memória da escola anterior. Na falta de algo melhor, escrevi uma carta que mudou o coração dele, e conquistei uma amizade eterna até a oitava série.

Todos aqueles pensamentos aparentemente independentes de ti estavam, desde o início, comprometidos pelo teu veredicto desfavorável.

Franz Kafka, em “Carta ao pai“.

Se nem sempre minhas cartas tiveram sucesso como bilhete, que dirá valor literário. Fiz pares de cagadas com cartas que graças à senilidade não lembro de ter enviado, mas enviei. Os poemas, que dó.

Dos poemas, para todos os efeitos, sinto certa vergonha.

Estágio de convivência

No Ensino Médio, consegui um estágio com Gibran Khalil, isto é, as jornalistas Nara Moreira e Mary Hellen Woche me apresentaram às contemplações bem escritas do autor libanês. Aprendi rápido a tomar vinho branco em vernissages que tinham serviço, e a tomar doses duplas antes das que não tinham. Quanto poema de jurista, quanta pintura de pano de prato!

Chego à conclusão de que livros são como vinhos: bom é o que eu gosto de ler.

Antes da faculdade, eu me aventurei em muitas leituras que deram errado. O maior símbolo, talvez, tenha sido começar o “Evidência que exige um veredito“, de Josh McDowell. Tinha, sei lá, estava na quinta série. Também abandonei o “Divina comédia” (enganado pelo título engraçado), ou mesmo o “Crime e castigo” quando tinha mais idade.

Fui displicente quanto à bibliografia universitária, com a perene desculpa de ter-me inclinado à prática profissional, quando preferia trabalhar de graça na mais desgraçada redação a fazer lição de casa.

Minha história é comum da juventude inteligente e inquieta. Um momento ou outro esbarrei com um pessoal que não é muito afim da literatura ou, pelo contrário, faz da conversa um Passa ou Repassa com nomes de autores – uma cafonice! Mas fiquei muito apegado ao próximo episódio.

‘Nós, intelectuais’

O jornalista e historiador Nilson Thomé (que deu à Sonia Bridi uma coluna estudantil por três anos) tinha comigo um hábito curioso. Ele dizia “nós, intelectuais, Vinícius…”. E eu me perguntava “quem, intelectuais?”. Foi o jeito dele impulsionar em mim a desvergonha de gostar de ideias, remodelá-las e apresentá-las novas – tal qual é a ciência (parafraseando Montesquieu em “Cartas persas“).

Nós, intelectuais, podemos nos orgulhar de ser de humanas, de acreditar no desenvolvimento humano, e de desfazer mediocridades ao palavrear com o mundo.

Foto: archi archiba.

Para desistir do jornalismo é preciso mudar as concessões

Respekt.

Não levo a internet a sério, agora. Antes, o espaço público de comunicação era mediado pela ética ou pela falta dela. Era o modelo “feixe” de emissoras. Para toda sorte, tinha um jornalista experiente que calculava o impacto da notícia para a empresa e para o repórter.

Ocorrem-me duas perspectivas. Na primeira, a inteligência artificial pode fazer coleta, tratamento e apresentação de dados. A figura do apresentador do tempo pode ser superada por apps, tanto quanto a redação de notas. Um robô bem ensinado escreve bem a partir de releases.

Depois, que o funeral do jornalismo terá de esperar uma mudança na legislação. Pelo IBGE, 87,9% dos lares brasileiros tem rádio, e 93% televisão. Apesar da receita de publicidade ter diminuído significativamente, uma TV brasileira lidera o mercado, à frente de Facebook e Google.

Obrigações no texto

É comum do patrão de comunicação social apregoar o terríveis os tempos de agora, desde o dia um do negócio. Ora, se a produção de noticiário profissional em 2021 é contemptível, tratemos de reorganizar as concessões. Pau que bate em Chico.

No Decreto de 1983, do último presidente da ditadura, João Figueiredo (o que preferia cheiro de cavalos a cheiro do povo): “não transmitir programas que atentem contra o sentimento público, expondo pessoas a situações que, de alguma forma, redundem em constrangimento”.

“Nem o papa, Maria da Graça, nem os santos, ninguém pode no mundo responder sem pestanejar à pergunta”: os jornalistas são mais capazes que publicitários e analistas de dados para limpar a sujeira das bolhas?

Pela volta do sublime na internet, menos pornô

O que se presume.

A infodemia é uma desgraça adjunta da Covid-19. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ignorância quanto à utilização de vacinas pode significar vida ou morte.

Mas se pode tensionar um pouco essa questão, porque navegar pela internet equivale a lamber o chão de uma UTI purulenta.

Nossas almas podres se tornam preocupação da psicologia social, pela qual se pode classificar parte de nós como falecida. E quem está vulnerável?

Perto do Instagram, o Xvideos é ingênuo. Estou em meio a uma leitura embaraçosa do livro “Sociedade da transparência“, do filósofo Byung-Chul Han. Inicialmente, pensei que, pelo título, ele me levaria a garantir as bandeiras da sociedade civil organizada quanto à publicidade de gastos públicos, ou algo nesse sentido. Mas, não.

O autor passa longe de discutir política diretamente, e me faz refletir sobre o quanto rasas são as imagens que acesso nas redes digitais.

Lembremos que é uma discussão filosófica. Se todos forem transparentes, logo, todos são iguais no ser transparente. A exibição é a produtificação, a mercadoria é um ser humano.

Limpar a sujeira das bolhas

Quando me recomendaram assistir ao documentário “O dilema das redes“, fiquei com uma preguiça danada. Tudo que eu “tenho” que assistir, que eu “não posso perder”, é frequentemente uma hipérbole da geração do milênio para uma coisa qualquer. Batata.

Eu me pergunto sobre a candura de quem não viu o Google começar o desenho das bolhas sociais quando passou a apresentar resultados diferentes para os mesmos termos de busca. Uma forma menos alombada do que viria a ser o algoritmo do Facebook – um tipo de molho especial americano que ninguém sabe a receita.

Sem a insolência de uma recomendação moral, mas em um movimento pela volta do sublime, penso que seríamos mais felizes em 2021 sem encontrar na internet mulheres experimentando chá de cookies.

Foto: Vinícius Sgarbe.