O telejornalismo pode ajudar no aprimoramento da língua?

Será que elas falam direitinho? Foto: CoWomen.

A língua do jornalismo pode ser um jeito de afiar a comunicação. Embora o verbo “haver” seja comum na fala, porque serve para substituir o “ter”, é raridade quem o utiliza na forma correta quando está no plural. Os exemplos a seguir estão na forma correta:

Havia três homens na casa.

Havia muitas folhagens na sacada.

Havia mais de trezentos mortos, ao todo.

Fácil quem erra esse, à exceção de jornalistas. Também somos muito bons em concordâncias verbais e nominais. Mas não se trata de autoelogio.

Em minha experiência de vida, restrita, pessoal, tenho a impressão e que quando elaboramos bem o que queremos falar ou escrever ficamos com as contas emocionais pagas. Isto é, mais importa que a mensagem saia o mais preciso que houvesse.

A gramática jornalística é simples, e

um vocabulário rico não quer dizer rebuscado”.

Michelle Thomé, jornalista e analista transacional.

É claro que às vezes é preciso voltar às coisas bem fundamentais. Assisti a uma reportagem linda do nacional na qual o repórter explicava o que é uma “hipótese”. Não lembro qual era a hipótese, mas lembro de entender o que é hipótese.

Em relação à integração linguística com a internet, temos um impasse. Estamos dispostos a falar e escrever errado em troca de interações?

Como é possível, então, falar de ‘erro’ se a construção não causa estranheza a falantes cultos e é perfeitamente assimilada do ponto de vista semântico e pragmático […]?

Marcos Banho, 2005. “Preconceito linguístico”, pág. 113.

Falando “erro”, querido Marcos. A redação noticiosa não pode perder mais acuidade que isto: a significação das palavras é antiética. Quando se fala de “bom”, fala-se de “bom e mau”. Quando se fala de “branco”, fala de “branco e preto”.

Vamos cortar a fala de um entrevistado que fala mal? Não. Vamos falar igual ele? Não. Adiante, sugestões de uso imperativo dos verbos:

Assista ao próximo episódio depois do intervalo.

Clique no link que está no rodapé do site.

Envie sua foto e participe do programa.

Vamos voltar à identidade substancial do ser jornalista?

Para desistir do jornalismo é preciso mudar as concessões

Respekt.

Não levo a internet a sério, agora. Antes, o espaço público de comunicação era mediado pela ética ou pela falta dela. Era o modelo “feixe” de emissoras. Para toda sorte, tinha um jornalista experiente que calculava o impacto da notícia para a empresa e para o repórter.

Ocorrem-me duas perspectivas. Na primeira, a inteligência artificial pode fazer coleta, tratamento e apresentação de dados. A figura do apresentador do tempo pode ser superada por apps, tanto quanto a redação de notas. Um robô bem ensinado escreve bem a partir de releases.

Depois, que o funeral do jornalismo terá de esperar uma mudança na legislação. Pelo IBGE, 87,9% dos lares brasileiros tem rádio, e 93% televisão. Apesar da receita de publicidade ter diminuído significativamente, uma TV brasileira lidera o mercado, à frente de Facebook e Google.

Obrigações no texto

É comum do patrão de comunicação social apregoar o terríveis os tempos de agora, desde o dia um do negócio. Ora, se a produção de noticiário profissional em 2021 é contemptível, tratemos de reorganizar as concessões. Pau que bate em Chico.

No Decreto de 1983, do último presidente da ditadura, João Figueiredo (o que preferia cheiro de cavalos a cheiro do povo): “não transmitir programas que atentem contra o sentimento público, expondo pessoas a situações que, de alguma forma, redundem em constrangimento”.

“Nem o papa, Maria da Graça, nem os santos, ninguém pode no mundo responder sem pestanejar à pergunta”: os jornalistas são mais capazes que publicitários e analistas de dados para limpar a sujeira das bolhas?