Sgarbe para Akel; Carta cinco

Depois da semana em que velei um avô e enterrei uma amiga, sem contar o padrinho de Ata, natural que se fique mais dentro. Voltei a perguntar sobre mim quando li em um livro de McLuhan: “Façam circular o boato que Deus está vivo”. Não que seja preciso morrer alguém para que em mim haja perspectiva. Mas chorei seco nos últimos dias (acho que não foi só por coisas de fora).

Leia quem quiser, obrigado pelo acompanhamento, esta é para mim. Andar ao lado deste buraco exige alguma coragem, para que não se tropece para o fundo, por ridícula simplicidade. “Seu pior medo é o que lhe sobrevém”, dizia o amigo Marcos, no tempo em que eu o levava exclusivamente a sério. Mas não se engane, Marcos. Nunca estive tão forte.

Tenho lembrado muito de Gabrielle e Dudson. De nossos desenhos assimétricos, das madrugadas incansáveis, quando decidimos como seria o futuro, com quem, com todos aqueles desejos de matar e morrer. Com isso fomos nos tornando adultos, com muita naturalidade. Mas o ponto exato foi nossa concepção de tricotomia – corpo, alma e espírito – a qual se expressa neste momento em uma guerra que desanda tudo. Um assunto predileto.

Tinha explicado aos amigos uma de minhas hipóteses sobre a vida com uma animação 3D. Uma bolinha de tênis percorrendo um tubo transparente, partindo de uma extremidade à outra e então fazendo o caminho contrário rapidamente, tão rapidamente que seria impossível destacar uma imagem para determinar a localização exata. Extremidade positiva e extremidade negativa. Mas falamos agora de tricotomia. Os assuntos da dualidade estão previamente explicados, em particular pelo que se pode aproveitar das religiões orientais.

De um lado a carne, do outro o espírito, uma alma no meio, fazendo sanduíche. A diferença é que agora vejo tudo em detalhe, primeiro um lado, depois o outro, ainda em movimento, mas com a impressão mais contemplativa.

Publicado originalmente am abril de 2011.

Sgarbe para; Carta quatro

Porteiras gripadas, caminhos guiados por pinheiros impávidos, silêncios tão ambíguos e uma lua fria. Cheguei ao Limoeiro seis anos depois da primeira visita, quase sem lembrar de quanto esse deslocamento é capaz de me acolher para me colher.

Perdi a conta das palavras que deixaram de me expressar nesses anos. Passaram-se tantos anos desde a enorme prevenção que era me garantir com palavras. Hoje, não me garanto com nada. Um certo correr por fora de todas as coisas vai me dando a sensação de que me mantenho vivo, e com alguma pulsação fora do corpo. Mas sempre daquele jeito.

Chove bastante, todas as janelas escorrem daquele jeito, meio triste, meio brega. Estou sem sinal para garantir o trânsito de minhas epifanias ridículas. Aliás, o ridículo, o cruzar o ridículo tem sido um tema em particular. Deus falou comigo sobre isso no começo da semana, fazendo um seguro comigo.

Sempre vivendo escondido, amando escondido, como se a minha natureza não fosse apropriada. Ora. Como pode a natureza não ser apropriada, se natural, se natureza. Essa constante, imutável, invencível luta contra a permanece condição havia chegado ao fim. Foi quando me dei conta de que tantas convicções tinham chegado ao fim. A luta por si mesma era uma engenharia para a vida, era algo ao qual eu tinha me agarrado para viver e que agora tinha se desmontado feito uma carroça velha. Era possível ouvir o barulho das peças se amontoando umas sobre as outras na irrecuperável sinfonia da calamidade. Tinha chegado ali a hora de morrer em definitivo para aquelas expectativas falsas de transformar o mundo ou o mundo dentro de mim. Eu estava cansado em definitivo, tinha concluído que um plano para morrer a carne seria mais útil que um plano para viver a alma – muito embora tentativas anteriores de tanto um coisa quanto da outra tivessem falhado antes, agora, um tipo de resignação sobre a vida e determinação sobre a morte me seguiam continuamente. Eu estava disposto a colocar um fim em tudo aquilo, como de fato o fiz.

Aos 30 anos, a realidade tinha se demonstrado assustadoramente dura para mim, porque qualquer devaneio malsucedido traria consequências terríveis. Era preciso pensar doentiamente com foco na destruição completa, sem que as estruturas do entorno fossem prejudicadas. Um tipo de implosão. Difícil de acontecer quando se é um executivo de comunicação e correspondente do noticiário internacional. Ter pensado nesse texto em uma fantasia autobiográfica, testemunhal, fez cair drasticamente a qualidade dramática deste relato. Em vez de relatar a flagrante angústia destes dias, fiz o que estava apegado a fazer nas últimas horas, contar títulos e afazeres a fim de esquecer as principais razões. Aliás, é atrás delas que me arremessei frente a todas as misérias que me vesti, que me alimentei, que passei a noite. Atrás das razões é que estive maior e menor, é que estou agora. Atrás de uma razão é que morri. Minha mente se perturbou quando finalmente deitou na cama, viu-se novamente sozinha, lembrou que pretendia escrever um pouco antes de morrer. Lembrou que o desejo que tem é de morrer. Que a morte está à espreita e Deus observa de perto, guarda, salva, uma hora dará um sinal. Ontem ou hoje, repetiu, uma resposta está a caminho.

A resposta me encontrará prostrado. Mesmo segurando no braço do Eterno, sinto a demora no levantar. Senti saudade do dia em que me chamaram de mulher. Em que me fizeram sentir que eu era outra coisa que não essa aqui. Não esconderei nada do Eterno, esse é meu acordo com ele, assim ele manterá um novo trato comigo. Ao mesmo tempo, isso me devasta, silencia cada sinal que eu possa emitir. Poe-me morto. Põe-me, sobretudo, com vontade de morrer.

Voltou a angústia, mas transformada. Analisada, penteada, limpa, de cara limpa. Antes se apresentava embriagada, de pernas trançando e sugerindo ininteligências. Agora vem só, feito uma viúva sóbria na manhã do enterro, sem máscaras.

Era necessário localizar aquilo tudo, uma vez que as principais prisões estavam estabelecidas. Quero dizer, o tempo estava estabelecido, a condição mais irreversíveis, mais estável – preocupantemente, mais preocupantemente estável – estava estabelecida. Então as normas de descrição se aplicavam de dentro para fora, de cima para baixo. Era possível ver a professora de português em pé, em minha frente, gesticulando lentamente, no esforço de me tornar um redator menos estúpido na hora de desenhar a localização exata da minha tristeza. Ela certamente teria alguma compaixão por mim, boa que era, ao descobrir que fui engolido pela mediocridade das tentativas mais simples, e que quase não arrisquei para dizer que o coração da minha tragédia pulsava de um beijo roubado.

Ainda não tinha me dado conta de em que pé estava minha recuperação, ou se havia ainda alguma recuperação rolando. Aliás, termos como esse, recuperação, eram os últimos que me interessavam. Tantas recaídas – aliás, uma sucessão tão amarga, recorrente e fatigante que me tinha deixado à morte – tinham-me tirado qualquer perspectiva de que eu ainda vivia para viver. Era como se eu estivesse jogando para cumprir a tabela sabendo do rebaixamento iminente. Nunca gostei de futebol e não faço a menor ideia de por que fiz essa analogia pobre com um esporte que não me interessa em nada.

Do dia em que enterrei tia Josmara lembro de poucos detalhes. Tinha mantido pouca coisa no primeiro plano, para que a superficialidade fosse aquele tipo muito apropriado de anestesia. Era o jeito de aguentar um funeral católico. Inicialmente, tentei evitar minha ida, mas as obrigações cívicas me tiraram da cama perto das três da manhã. A voz do meu irmão rasgou a noite fria dizendo com uma euforia de manchete “a tia Josmara morreu”. Que sorte a minha não ter o destino dela, o de estar sem ninguém que a amasse naquele momento. Levantamos da cama e fizemos um memorial, uma foto e velas de festa boiando sobre a água rasa e lenta de uma decoração. Teria sido suficiente aquela macumba. Mas era preciso, não por mim, mas pela vida dos outros, que eu sofresse publicamente. Não passou muito tempo até que meu pai passasse de carro me pegar. Ele não quis ir comigo. Então, o caixão dela se arrastou no chão da cova, fazendo um som pesado, o último do corpo inerte. Madeira esfregando sobre cimento, terra, areia. Então eu aprendi qual o som da morte.

Sgarbe para Ualid; Carta três

Meu medo mais recente é estar sentenciado a uma felicidade maior que a de meus irmãos. Ironicamente, sinto culpa. E culpas católicas não se dissipam em cem anos. Além do mais, acho que não tenho mais cem anos, porque abusei de remédios na adolescência, e a saúde hepática, ah, que piada.

Nas mesmas horas que recebo notícias suas que chegam de Paris, conheço em Curitiba um homem que tem vontade de comer carne humana. Estive, meu amigo, todos esses anos, sendo preparado para ler tal coisa antropofágica no quinhentismo. Mas, agora, assim, um canibal do Portão, não sei.

Sempre que lembro de ti e de Cassiana me sinto religioso — In a good way.

Até depois.

Javé um

Javé e eu temos inúmeras identificações, e ninguém está livre de estar identificado com um dos personagens mais egocêntricos de toda literatura.

Sgarbe para Cida; Carta dois

Cida, hoje é sábado, e é também uma véspera importante para os que acreditam na ressurreição dos mortos. Não há coincidência nisto: que tenhas uma celebração pessoal no dia do descanso sagrado. Quanto penso em ti, tenho vantagens demais, quais sejam as felicidades e os desejos que me proporcionas com bondade. Tem tantos anos isso, sem contar os tempos que estão fora do relógio.

Tens, minha querida amiga, em tua maior parte, uma consciência tão plena de que o mundo está girando do jeito que deve, e de que é preciso seguir daqui pra frente, que transformas essa consciência em algo que me serve pelo menos duas vezes (primeiro, um fragmento para o progresso espiritual; depois, que lembro de ti, para dar um exemplo, toda vez que me embolo no texto — um aspecto prático da originalidade de tuas rotinas — tu vens até mim, e quase te ouço com os ouvidos naturais, na brandura de teu conselho: “segue o assunto, Vinícius”).

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

—Vinicius de Moraes. O dia da criação. Rio de Janeiro, 1946.

Sugestões de aprimoramento
do texto um

Tenho duas ideias de aprimoramento de linguagem, baseadas na função autocorretor de texto dos celulares, e outra que eu inventei hoje, a partir de uma caixa de leite. A ideia é transformar nossas comunidades em lugares habitáveis — missão para a qual fomos chamados desde o ventre de nossa mão.

A última coisa importante passará a se chamar agira. Então se dirá: “Aquela dupla é agira!”. E, assim como o “a fim” e o “afim”, haverá muita gente sem instrução formal que grafará “a gira”, em menção a esse texto com pegada que é agira. O editor dirá ao foca: “A gira separado é roda de macumba!”.

Portanto, é “agira“, adjetivo derivado da autocorreção do “agora”, não “a gira” artigo mais substantivo”.

E tem mais um, daí. Quando alguém fizer uma piada com outrem (outrem em itálico, porque só pode ser neologismo dos autocorretores do passado), dir-se-á ao grupo que assistiu: “Tirol!”. Ou “Que tirol, mano!”.

Jornalista, porém honesto

Escrever para você é uma atividade de risco, pelo que se pode registar da insensatez de cada etapa, para muitas etapas depois desta. Nem tanto pelo que se pode expressar, mais pelo que se pode entender.

Se antologia, o título seria “Passamos por isso sempre que dá — a história da vergonha além do tempo”, ou “Ensaio sobre o orgulho que temos no nome de Jesus, embora sejamos incapazes de compreender a questão cultural do ocidente, e outras questões ainda mais periféricas”. Tanto faz mesmo.

Mas, deu ruim para a memória. O destino (vivi para conhecer o destino por “Locaweb”) levou quase tudo que eu escrevi até aqui, porque, em vez de inventar em folhinhas pautadas, preferi guardar a miséria e a graça na nuvem. Raios e precipitações, duas ou três chuvas depois já não se tem lembrança das crônica juvenis. Tendência de que eu não volte a ouvir “Li seu texto sobre a pomba que morreu”.

Aqui, porém, está a história de um jornalista honesto. Jornalista, porém honesto.

Oh, Senhor, perdoe-me por questionar-te a ti, e a teu retroprojetor

Testemunho. Eu era do Ministério do Retroprojetor da Igreja. Quando veio o Ministério do Datashow, fiquei um pouco contundido, né. Daí eu peguei, e perguntei para Deus: “Mas, Senhor, o Senhor tinha me prometido, Senhor!”. Sim, era uma pergunta sem ponto de interrogação, porque os mistérios de Deus você não compreende?

Então Deus me respondeu na palavra: “Acaso sois vós que te beneficiares de tal retumbância? Qual é, porém, aquilo que te fazes? Ou a bênção, ou a maldição. E escolhestes a mim, não, porém ficastes com a falta de entendimento?”. Ele me respondeu com uma pergunta, né. E eu respondi: “Agora entendi, Senhor. Perdoe-me! Perdoe-me! Perdoe-me!”.

Ilustrado dos lugares comuns da comunicação social: seu Preto

Queridos colegas apresentadores de TV. Muitos de vocês dizem “seu” Fulano ou “dona” Cicrana, ao chamar seus entrevistados, mas, para quem vê de fora, não parece, nem de muito longe, educação ou respeito.

Os fatos são superiores às ideias. Ainda para o o grupo “muitos de vocês”, seus “muitos de vocês, apropriam-se de histórias que não fazem o menor esforço para entender, e depois mandam um “seu” Preto Com Fome Precisa de Nossa Superioridade.

O que é quiropraxia?

Precisamos ensinar nossas crianças sobre a importância da quiropraxia.

Sobre o lugar apropriado de cada coisa

Quiropraxia é o que segue. O rapaz é carregado por amigos, na rua. O pés arrastam nas pedras e dão a impressão de que a cabeça bebeu demais. Nenhum ineditismo, juventude que perde a consciência em público. Mas, a gente se preocupa.

Olhos virados, pálido, amparado por gente inexperiente. Do meio da multidão, acotovelando com pressa, uma mulher vai na direção deles: “Calma, calma! Eu sou quiroprática!”.