Sgarbe para Cida; Carta dois

Cida, hoje é sábado, e é também uma véspera importante para os que acreditam na ressurreição dos mortos. Não há coincidência nisto: que tenhas uma celebração pessoal no dia do descanso sagrado. Quanto penso em ti, tenho vantagens demais, quais sejam as felicidades e os desejos que me proporcionas com bondade. Tem tantos anos isso, sem contar os tempos que estão fora do relógio.

Tens, minha querida amiga, em tua maior parte, uma consciência tão plena de que o mundo está girando do jeito que deve, e de que é preciso seguir daqui pra frente, que transformas essa consciência em algo que me serve pelo menos duas vezes (primeiro, um fragmento para o progresso espiritual; depois, que lembro de ti, para dar um exemplo, toda vez que me embolo no texto — um aspecto prático da originalidade de tuas rotinas — tu vens até mim, e quase te ouço com os ouvidos naturais, na brandura de teu conselho: “segue o assunto, Vinícius”).

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

—Vinicius de Moraes. O dia da criação. Rio de Janeiro, 1946.

Sugestões de aprimoramento do texto um

Tenho duas ideias de aprimoramento de linguagem, baseadas na função autocorretor de texto dos celulares, e outra que eu inventei hoje, a partir de uma caixa de leite. A ideia é transformar nossas comunidades em lugares habitáveis — missão para a qual fomos chamados desde o ventre de nossa mão.

A última coisa importante passará a se chamar agira. Então se dirá: “Aquela dupla é agira!”. E, assim como o “a fim” e o “afim”, haverá muita gente sem instrução formal que grafará “a gira”, em menção a esse texto com pegada que é agira. O editor dirá ao foca: “A gira separado é roda de macumba!”.

Portanto, é “agira“, adjetivo derivado da autocorreção do “agora”, não “a gira” artigo mais substantivo”.

E tem mais um, daí. Quando alguém fizer uma piada com outrem (outrem em itálico, porque só pode ser neologismo dos autocorretores do passado), dir-se-á ao grupo que assistiu: “Tirol!”. Ou “Que tirol, mano!”.

Jornalista, porém honesto

Escrever para você é uma atividade de risco, pelo que se pode registar da insensatez de cada etapa, para muitas etapas depois desta. Nem tanto pelo que se pode expressar, mais pelo que se pode entender.

Se antologia, o título seria “Passamos por isso sempre que dá — a história da vergonha além do tempo”, ou “Ensaio sobre o orgulho que temos no nome de Jesus, embora sejamos incapazes de compreender a questão cultural do ocidente, e outras questões ainda mais periféricas”. Tanto faz mesmo.

Mas, deu ruim para a memória. O destino (vivi para conhecer o destino por “Locaweb”) levou quase tudo que eu escrevi até aqui, porque, em vez de inventar em folhinhas pautadas, preferi guardar a miséria e a graça na nuvem. Raios e precipitações, duas ou três chuvas depois já não se tem lembrança das crônica juvenis. Tendência de que eu não volte a ouvir “Li seu texto sobre a pomba que morreu”.

Aqui, porém, está a história de um jornalista honesto. Jornalista, porém honesto.

Oh, Senhor, perdoe-me por questionar-te a ti, e a teu retroprojetor

Testemunho. Eu era do Ministério do Retroprojetor da Igreja. Quando veio o Ministério do Datashow, fiquei um pouco contundido, né. Daí eu peguei, e perguntei para Deus: “Mas, Senhor, o Senhor tinha me prometido, Senhor!”. Sim, era uma pergunta sem ponto de interrogação, porque os mistérios de Deus você não compreende?

Então Deus me respondeu na palavra: “Acaso sois vós que te beneficiares de tal retumbância? Qual é, porém, aquilo que te fazes? Ou a bênção, ou a maldição. E escolhestes a mim, não, porém ficastes com a falta de entendimento?”. Ele me respondeu com uma pergunta, né. E eu respondi: “Agora entendi, Senhor. Perdoe-me! Perdoe-me! Perdoe-me!”.

Ilustrado dos lugares comuns da comunicação social: seu Preto

Queridos colegas apresentadores de TV. Muitos de vocês dizem “seu” Fulano ou “dona” Cicrana, ao chamar seus entrevistados, mas, para quem vê de fora, não parece, nem de muito longe, educação ou respeito.

Os fatos são superiores às ideias. Ainda para o o grupo “muitos de vocês”, seus “muitos de vocês, apropriam-se de histórias que não fazem o menor esforço para entender, e depois mandam um “seu” Preto Com Fome Precisa de Nossa Superioridade.

O que é quiropraxia?

Precisamos ensinar nossas crianças sobre a importância da quiropraxia.

Sobre o lugar apropriado de cada coisa

Quiropraxia é o que segue. O rapaz é carregado por amigos, na rua. O pés arrastam nas pedras e dão a impressão de que a cabeça bebeu demais. Nenhum ineditismo, juventude que perde a consciência em público. Mas, a gente se preocupa.

Olhos virados, pálido, amparado por gente inexperiente. Do meio da multidão, acotovelando com pressa, uma mulher vai na direção deles: “Calma, calma! Eu sou quiroprática!”.

Sgarbe para Ety; Carta um

Querida amiga Ety, escrevo com o coração partido. Há poucas horas, tomei o cuidado de fechar a boca do impulso quando me perguntou: “O que é felicidade?”. Qualquer resposta parece ser, por mera necessidade da linguagem, da palavra, uma tristeza em si mesma e, logo, um tipo de contradição para a pergunta. Gosto da ideia de que príncipes materializados se tornam menos capazes de nos governar – uma ideia roubada da literatura francesa quando se atreveu a classificar os persas. Estamos, nestes dias, com calor fora do corpo.

O copo é um problema para alguns amigos chegados. As bebedeiras sem fim terminam quase que invariavelmente em grosserias semeadas à sorte, e trabalho para quem está em volta – recolher desafetos, cacos e garrafas pela metade. Isso está me consumindo – porque não gostaria de ver gente que se poderia salvar destruindo o próprio corpo e, junto a isso, todas as relações que direta ou indiretamente estão ligadas a tal corpo. Pensei, sobre a autodestruição desses, na expressão “pérfido”, porque preferem derrubarse-se a tão somente deixar-se em pé.

Adeus.

Experiência com bombas: primos aprendem a lidar com fogo e incomodam vizinhos

São José dos Pinhais é uma cidade que me incomoda, e isso não vai mudar. Fui funcionário público concursado lá, por dois anos – parte da grana que pagou a faculdade de jornalismo veio disso.

Mas apesar dos conflitos intelectuais e ideológicos, lá residem eternamente minhas memórias familiares e infantis. Dentre elas, a que tem a ver com bombas.