A democracia amparada pela notícia

Desde a segunda metade do século 20 há fortes indícios que de a imprensa é responsável em grande parte pela formação – a grosso modo – do que chamamos “opinião pública”. Verificou-se em uma variedade de pesquisas que tem mais a ver com “sobre o que pensar” do que “como pensar sobre”. Chegamos às eleições de 2020 com perguntas, dentro do espectro do agendasetting.

A apatia do eleitor é intrigante. Que disputas intrapartidárias sejam relevantes somente para quem delas goza, seja por vitória, barganha ou intimidação, é ponto pacífico. Dos centros acadêmicos aos corredores do Anexo II em Brasília, os assuntos são bastante restritivos. Defendo que, ainda que o bem comum seja um interesse da comunicação política, há arestas estereotípicas que precedem a elaboração de um discurso público.

Minha curiosidade é: quanto das necessidades individuais (justamente as “estereotípicas”, que são o oposto de “arquetípicas”) valem no noticiário. Talvez tenhamos nos esforçado em criar cenários em volta de fatos comprováveis, a qualquer custo. A disputa do que é científico e verificável contra o que é mentira esgotou a paciência do leitor? Havia outra forma de fazer?

No Paraná, com o cancelamento do debate da TV Globo, temos o risco de ficar exclusivamente com as versões maquiadas dos candidatos, sujeitos aos danos do marketing político inescrupuloso.

Foto: Utsav Srestha.

O que tem de homem em um programa de mulheres

Levei dias para entender o texto no qual a filósofa da Teoria Crítica Nancy Fraser escreve sobre a participação feminina na esfera pública. Um dos textos, claro. Resumidamente, não ser pode ser mais discriminado por ser mulher do que por ser pobre. Mulher pobre, então, Deus há de cuidar. Esse é o feminismo americano.

A gente (eu) sai por aí dizendo da importância do desenvolvimento dos repórteres e apresentadores em relação a esses temas, o que pode humilhar comunidades estigmatizadas (chamar pobre de “Seu Fulano” ou “Dona Sicrana”, tenho lá minhas dúvidas), mas e como que faz pra “dar voz” (outra coisa que não passa bem)?

Produzindo um programa apresentado por duas mulheres, fiquei mais nervoso, no sentido de atento, responsável, porque o assunto era – justamente – paridade participativa. Como é que eu – ah, o produtor do Brasil! O homem que entende todas as causas! Tão querido por minha mãe – tenho a coragem de falar sobre participação feminina para duas mulheres? Não tenho, né.

Um homem vai falar o quê? “Vocês, mulheres, têm de desafiar mais os homem acima de vocês”. Quer dizer. A melhor resposta que uma mulher pode dar diretamente é “Você, Sgarbe, tem que deixar de ser babaca”. Isso é minha visão de homem sobre o que uma mulher deveria dizer pra mim e que seria o melhor para ela (Oh, Christ).

Foto: Glen Carrie/Unsplash.

Ares de Netinho: dia de influencer

Assisti a uma live da Adobe que que não passou de 60 pessoas. Trata-se de uma das maiores e mais respeitadas companhias de desenvolvimento de software para a área gráfica. Isto é, se você tem uma logo, ela provavelmente tenha sido feita em um produto desses caras. Illustrator, Photoshop, Premiere. Eu mesmo assino todo o pacote e, exceto por criação 3D, a nuvem dá conta de tudo.

Além do mais, a live era sobre o XD, voltado a desenvolvedores de sites e aplicativos, gente que trabalha sentada. Poucos “views” na live, poucos comentários. E mais, Justin Mitchell (a mente que criou o XD) respondeu-me instantemente no Twitter quando perguntei a ele sobre o tipo de câmera estava usando para transmitir.

Isso me fez pensar sobre o “alcance” que pessoas (eu, inclusive) e organizações desejam ter na internet. Pelo andar da carruagem, ser “influencer” é o novo sonho de princesa e jogador de futebol (entre os dois, eu prefiro ser princesa). É a nova capa de revista, a imagem que não se alcança.

E lembro de Keller (trabalhamos juntos por anos na CBN Curitiba): “faça o teu que é pouquinho”.

Foto: Correio Braziliense.

Horácio, você não é o magnífico

“É preciso repensar a democracia” deve ter sido o primeiro pensamento de quem pensou a democracia. Este post tem dois assuntos.

O primeiro é que na Universidade Federal do Paraná há uma tradição de pelo menos 28 anos – segundo o decano de um dos departamentos – de que os candidatos que perdem na consulta pública retiram as candidaturas.

É um jeito de enobrecer o processo participativo dentro da instituição e – por que não – evitar que o presidente da República e o ministro da Educação nomeiem políticos.

O segundo assunto é que a mobilização política nos países de capitalismo tardio e militarizados da América Latina frequentemente é confundida com violência, repressão ou crimes de ódio na internet.

Assista ao vídeo.

Nesse caso, o do vídeo, é diferente. Representantes do grupo que venceu a consulta (83% contra 14%) pediram com todo amor e telemensagem para que o segundo e último colocado simultaneamente, Horário, aceite a grandeza da vontade popular.

Foto: Plural.

Seje da nova era e tenhe gratidão

Uma mulher me disse que toda vez que alguém morre da Covid-19 o governo federal manda dinheiro para o estado, razão pela qual, segundo ela, os números são fraudados. Numa conta simples com os mortos e R$ 12 mil por cabeça, teria-se distribuído metade do PIB de São Paulo entre os estados.

É só fazer uma conta. Não é preciso um grande esforço, uma análise de conjuntura, um estudo sociológico sobre as fakenews, é só não ser burro.

Você tem a opção. “Eu quero ser um burro”. Então, eu te apoio. Você pode continuar achando isso, achando aquilo. Você pode ter pavor dos jornais, da tevê, do rádio, e confiar no que teus amigos do Uber dizem. Beleza. Você quer ser burro? Eu te apoio. Eu espero teu apoio pra eu continuar sendo inteligente. Então, o importante é o amor.

Quer ser burro e retrógrado? Seja evangélico, tudo bem. Não tem problema. Quer rejeitar as pessoas, quer ser um retardado e ainda ser defendido por uma retardada que diz “você tem que entender que ele é preconceituoso”? Tudo bem, vão lá. Quer ser burro, retrógrado, preconceituoso e elitista? Seje da nova era. Tenhe gratidão pelo que estão fodendo com o coletivo.

Arte: Qualquer coisa do Google.

Flordelis é maioria

No começo desta semana, pensei sobre Flordelis ser um caso isolado. E o post teria mais ou menos esta ideia, a de que ela representa pouco ou nada da moral/moralidade/mortalidade evangélica. Mas aqui está o tempo para passar, e mudei de ideia. Flordelis é uma imagem realista do que fazem, no geral, os senhores das igrejas. Dos que servem ao senhor deste mundo.

Quando a comunicação encontra

Recomendado pelo fotógrafo Kaique Servo, cortei o fundo de uma embalagem de Pringles e produzi um cano para acoplar ao flash da câmera. O efeito é coisa mais linda, mas não o controlo totalmente. Às vezes, quando apontada para o lugar errado, a luz sai do quadro e fica só uma foto (bem) subexposta.

Ontem, quando meu pai e Max chegaram aqui em casa, mudei o assunto do meu treino de “Tulipa no chão” para “Homem e cachorro com look de anúncio da Gucci”. Quem me convenceu mais recentemente da linguagem que eu acho mais bonita foi o diretor Juliano Dallarmi (SS&D London, instalando sede em Curitiba).

Ato contínuo, Biel Précoma envia mensagem de áudio: “E daí, Vinícius. É você, cara? Sabe quem tá falando”. E o papo descambou para a política dos mandados compartilhados – que ouvi recentemente de Flávia Sotto Maior – , mas não sem o link para “90’s Reggae and Dancehall by Biel Précoma“.

O empresário João Racca pergunta se posso fazer takes criativos para um filme corporativo. Meu pai vê a foto dele publicada na internet e dança reggae. Horas mais tarde, Racca diz que o filme de referência é o que ele queria.

Todo santo dia é assim.

Foto: Renato Sgarbe (meu pai) e Max. Curitiba, 2020.

Automação da previsão do tempo no Paraná

repetitivo.json

set all = diminutivinho

if
calor then
print nothing.say the same

if
frio then
print “frio de lascar”

reset all = ficcional

Namorados

Desculpe, eu não tinha percebido. Eu confundi você com outra pessoa. Mas não uma outra pessoa, quero dizer. Alguém que eu inventei. Então, você não tem culpa. É algo meu, totalmente. Sabe, de tempos em tempo eu vou achando que nossa agora chegou a minha hora, sendo que essa hora já morreu, já nem existe mais. Porque agora é outra hora. Veja bem o relógio. Eu sei, pode rir. Eu também acho isso bem estranho, mas é assim que funciona. É assim que a banda toca.

Justamente. Eu quis tocar você. Foi isso. Acho que você matou a charada. E. Quando você me diz que seu último namorado não foi bom contigo, eu fico pensando, como que pode um cara ser tão burro? Você é linda, começa por aí. Sério. Eu acho você linda. Toda vez que eu te vejo eu fico fantasiando que estamos namorado. Só que eu não saio contando por aí, vão me chamar de louco. Pronto, o, como que se diz, o stalker. Jonny Stalker, o whisky. Falando assim eu pareço aquele piá retardado da internet? Piá é tudo podre, não adianta. Eu me sinto um burro perto de você.

Você me trouxe umas garantias. Uma é a que eu sou mesmo infeliz no amor. Essa é uma coisa que meio que eu não tenho esperança mais de mudar. Hahaha. Tá, eu paro. Mas é um papinho, né? Dolanguinho. Vai que você se comove e me dá um beijo. Hahaha. Eu tô rindo de nervoso, não aguento mais levar toco.

Vá à merda. O diabo que te carregue.

Curso de coach faz cobranças fantasmas no cartão de crédito

C/C TV Globo, O Globo, Folha de S. Paulo, Gazeta do Povo e Portal Bem Paraná.

A estudante de psicologia Margarete* foi surpreendida na manhã desta segunda-feira (17) com uma cobrança de R$ 464,16 no cartão de crédito dela. Para este blog, enviou cópia do comprovante bancário que tem a inscrição “HTM*HT Portal”, e da confirmação que recebeu por e-mail, embora não tenha contratado nada.

O produto que teria sido comprado é o “Portal Tem Poder Quem Age – FEBRACIS”. A empresa Febracis se apresenta como “A Maior Instituição de Coaching do Mundo”. Margarete telefonou para lá, mas não teve o caso solucionado, e foi informada que não é a primeira a reclamar.

A reportagem fez o mesmo caminho, o de ligar para a sede da empresa em Curitiba, e fomos recebidos pela música de espera “abrir a alma para alguém, e não pensar em nada”. Então, redirecionados para uma central em Recife que está desligada. No Google, há comentários sobre a impossibilidade de atendimento telefônico.

FEBRACIS

Na capa do site, há nomes como o de Augusto Cury: “Quem dera houvesse mais textos, cursos e treinamento de Alta Performance no teatro social, como o Paulo Vieira propõe (SIC)”.

A cobrança ilegal foi feita via plataforma Hotmart. As empresas Febracis e Hotmart foram procuradas para comentar, mas não responderam até o momento.

*Margarete é um nome fictício para uma história real.

Atualização às 17h31. A reportagem telefonou para a sede de Curitiba da Febracis, mas ninguém atende.