Essa história do leite

Essa história do leite. Primeiro que a imprensa poderia engolir menos iscas para jogos psicológicos e de poder (Berne e Steiner). Depois, que a mim, moreninho brasileiro, no meu quadro de referência e nos das pessoas pessoas próximas, beber leite é coisa de gente infantilizada.

Não tinha aquela do “não aguenta, bebe leite”? Ou as instruções paulinas sobre a maturidade espiritual precária dos que bebem leite? Eu não comprei a ideia de superioridade racial dessa gente que se orgulha de cagar diferente, digerindo lactose. Seguro pra não ter dozinha.

Xavier pela representação na Câmara

Paranaense nascido em Cambé e há 12 anos em Curitiba, Diego Xavier está tal qual Oswald de Andrade quando voltou da Europa, com a cabeça fresca. Está decidido a levar as modernidades legislativas que conheceu em 12 países do Velho Continente, especialmente a Irlanda e a Dinamarca, para a Câmara de Vereadores da capital.

“Passei muito tempo em espaços de convivência LGBTQI+. Acabei mudando meu jeito de ver a relação das cidades com os gays”.

Há poucos dias, ele e outros benevolentes entregaram kits de higiene às prostitutas transexuais da avenida Getúlio Vargas. “Tem a ver com a autoestima. Então, tinha desodorante, creme hidratante. A estimativa de vida para elas é de 35 anos. Acabam assassinadas”. Está marcada uma outra entrega desse tipo, em um lugar onde moram 26 trans.

Nos bastidores, Diego conversa com outros três candidatos que têm bandeiras similares. “A ideia é que haja outro candidato como foi Toni Reis, que tenha a postura necessária, a postura que a cidade requer”. Reis é um ativista reconhecido e há aproximação entre ele e Xavier.

Foto: Vinícius Sgarbe/Outras Terras Filmes.

Material em UPA de Curitiba é ‘horroroso’

A qualidade dos materiais na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Cajuru é de “baixíssima qualidade”, reclama um médico da rede pública municipal que prefere não ser identificado. Segundo ele, “desde que vim trabalhar aqui, jamais vi esse tipo tão ruim”.

São seringas, catéteres de acesso venoso e equipos que quebram durante o uso. “Tínhamos que fazer o acesso [venoso] em um menino de 14 anos, e perdi a conta de quantas vezes ele foi furado até conseguirmos, porque o equipamento quebrava”.

A enfermagem informou a direção da UPA sobre o problema. “O Sistema Único de Saúde prevê a compra do melhor pelo menor preço. Aqui, é o pior e o preço a gente não conhece”.

Foto: Vinícius Sgarbe/Outras Terras Filmes.

Profissionais da mentira não sabem ética

Tenho contra as pessoas publicarem opiniões que as fazem parecer exatamente como são. “O que acontece é fato, e não verdade. Verdade é o que nós pensamos sobre o que acontece” (Robert McKee). Trocando em miúdos, ser achar achar tudo errado, distorcer até o talo? Vá em frente.

Mas escrevo que tenho contra isso porque o crédito das pessoas vai despencando rapidamente e me obrigo a colocá-las no cestão das coisas baratas. Quantos chegados hoje estão ali, odiando demasiadamente sob a luz de fatos que interpretaram com a bunda. Mas, vá em frente.

Outra coisa é patrocinar, qualificar, editar, distribuir e manipular a decisão dos outros pelo uso profissional (estão aí os técnicos que não viram a ética passar nem de longe) de notícias falsas. Reputações são passageiras. Um dia a calamidade vem. Mas e o rasgo tal teia social?

Nossos pais estão convictos de coisas estúpidas. Água-mole-pedra-dura, às vezes penso se têm razão quanto ao fim patético do mundo (Gates e as vacinas, China, Nasa e os hologramas). Minha avó é assembleiana e me salva: “Espero Jesus voltar há 50 anos. Não vai voltar”.

Quando a casa do mentiroso pega fogo

Meu pai costuma dizer que quando a casa do mentiroso pega fogo ninguém acredita. E que o mentiroso cedo ou tarde se perde nas versões que tem da mesma coisa. Vai ficando difícil agradar a todos, e principalmente a si mesmo, distorcendo a realidade objetiva, comum.

Um garfo pode ser descrito como um equipamento, uma peça de metal, um pequeno rastelo, mas ainda é um garfo. As notícias falsas se valem desses melindres semânticos, mas de uma boa dose de crença cega. De vazio crítico. “O maior médico disse que”. De onde? Maior para quem?

Um grupo do Facebook que denuncia vídeos falsos faz a parte cômica das mídias que consumo. São tão rasos, tão mal falados, que não sei como qualquer pessoa cai. Com destaque para dois tipo mais Hidiotas. Os com estetoscópio no pescoço, e os que começam com “bom dia irmãos”.

Vocês sabem que a mulher que fala “bom dia irmãos” nos áudios do WhatsApp, aquela que tem sotaque carregado, não sei se mineira ou goiana, é qualquer coisa menos uma “irmã”, confere?

Mauro e a brancura

Este senhor deputado estadual no Paraná certa feita me disse “nós, brancos”. E reclamou sobre o povo brasileiro ser “feio, porque está muito misturado”. Falou na presença de mais um jornalista. Hoje, fui bloqueado por criticar o pensamento raso que uma formiga atravessa com a água na canela dele.

Opaco de tanto branco

O governo do Paraná impressiona pela escolha do secretariado, se é que se pode voltar a essa escolha passada, uma vez que as políticas recentes são um descalabro pior. Tem tanto branco que fica opaco.

Branco e homem. A ausência de representação feminina me faz perguntar se é um pessoal que gosta de mulher. Em 2020, passou da hora de ser fiftyfifty (para usar o linguajar repugnante das lavanderias, quero dizer, das startups).

Governador, cadê os quilombolas? Cadê os indígenas? Sem sinal de internet? A Federal do Paraná (é uma universidade importante, a primeira do país. Mas, calma. Nada que se compare às melhores universidades dos Estados Unidos) tem estudos incríveis sobre sociologia rural – forma mestres e doutores todo ano.

O estado é o quarto do país em casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave, segundo o Ministério da Saúde e com dados deste dia 27. Está entre os cinco piores em testagem e isolamento. “Não discuto ideologia, discuto metodologia”. Meu senhor, tome tento.

Foto: Jaelson Lucas/AEN.

Carta 6. Sgarbe para Ana.

Minha irmãzinha Ana, o mundo ficou pior do que era e foi uma decisão dele. Quanto a mim, fiquei melhor, porque, por enquanto, encontro-me perplexo ao assistir o noticiário do tempo que pouco diz sobre a tormenta que arrebenta a cidade. Jamais estivemos no mesmo barco. Essa metáfora do barco é coisa velha, já que não tem barco, não tem bote. Empilhados no mar, entre afogados putrefatos que nos servem de aviso. Estamos na mesma morte iminente, sem notícia de embarcação que nos salve.

Seu trabalho sobre a água no museu me deixou triste do jeito que somente uma boa obra de arte pode fazer. Mariana e eu fomos à exposição poucos dias antes do encerramento. Vimos sua assistente atender em inglês um casal da Austrália. A mulher do canguru tinha uma expressão de deslumbre. Não sei se era a alegria da caipirinha (de marcujááá) ou se tinha encontrado neste país pobre de terceiro mundo um motivo para pensar melhor. Muito provavelmente a segunda opção, motivada pelo passeio no Solar.

Levo sua inteligência e perspicácia comigo por onde passo, minha irmãzinha. Às vezes me sinto do pessoal do teatro, que sempre coloca nome e sobrenome para cada referência. Então eu vou de “a doutora em arte Ana Bellenzier” diz tal coisa. Pouca gente no mundo é mais generosa do que você. Tenho uma fantasia com o Petraglia que é pendurar uma foto dele tal qual a de João Paulo II aqui em casa. Neste memorial, caberia uma foto sua de biquini na Bahia.

Irmãzinha, o mundo só não foi destruído completamente porque me preocupo com você.

Oi, primos

Vejo alguns primos bem menos do que gostaria. Serginho e Simone são irmãos que me formaram um garoto livre e bem humorado. Com eles, jamais tive a necessidade de me esconder. Serginho ouvia Metallica em um quarto escuro de adolescente roqueiro enquanto eu produzia um cover das Spice Girls apresentado para os cachorros do bairro. Registrei em vídeo. Simone e eu temos ainda muito receio de que o VHS acabe em mãos erradas.

Com Francine a coisa era diferente, porque desde criança tem um senso de responsabilidade e futuro. Acabava me arrastando para o grupo de coreografia da igreja que tinha reuniões semanais. Aos sábados. À tarde.

Quando fui ao jogo do Athletico com meu pai e irmão e deixei de ensaiar “Brilha Jesus”, tomei o que chamam de “banco”. Um castigo por ter desobedecido à ordem pastoral de recusar a presença paternal em benefício de passar ridículo em todos os bairros onde éramos convidados para shows. Foi um prenúncio da dança do Bolsonaro. Verdadeiros profetas.

Tem uma coisa sobre esse grupo que ainda nos constrange. Os gestos que combinavam com a música eram, pelo menos assim se propalava, para o entendimento de surdos. Mas jamais apresentávamos para surdos, porque na Quadrangular as pessoas ouviam muito bem – conversa alheia, então. Quando finalmente tivemos a chance de nos testar com alguém que se comunicava por Libras, soubemos que ele não entendeu nada.

Autorretrato

Autorretrato. Curitiba, 2020.